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Entrevista: Diretora da Lufthansa defende uso do testes rápidos de Covid-19 para retomada do turismo internacional

Leonardo Cassol
30/10/2020 às 9:55

Entrevista: Diretora da Lufthansa defende uso do testes rápidos de Covid-19 para retomada do turismo internacional

A Lufthansa, o maior grupo de aviação da Europa e um dos maiores do mundo, se viu obrigada a reduzir drasticamente suas rotas internacionais em abril e maio, no momento mais crítico da pandemia. Neste período, mesmo com mais de 700 aeronaves, a empresa manteve voos para apenas cinco destinos fora da Europa. Um deles foi São Paulo, que permaneceu com 3 voos semanais para Frankfurt, ajudando a transportar milhares de viajantes impactados pelo cancelamento global de voos e mostrando a importância do Brasil para a rede das companhias aéreas do grupo.

Eu conversei com Annette Taeuber, diretora comercial do grupo Lufthansa no Brasil, que falou sobre o plano da empresa para superar a crise, como a segunda onda de contágio na Europa pode afetar o turismo no continente, o que os passageiros podem esperar de flexibilidade nas passagens aéreas, a expectativa de reabertura das fronteiras na União Europeia e sobre o futuro da Lufthansa, Swiss e demais empresas do grupo, numa entrevista exclusiva. Confira:

Annette Taeuber, durante a entrevista realizada por videoconferência

Melhores Destinos – Qual a sua visão sobre a crise causada pela pandemia de Covid-19 no setor aéreo? O pior já passou, ou corremos o risco de um retrocesso com a segunda onda de contágio na Europa e em outros países?

Annette Taeuber (Lufthansa) – Em vários momentos da história, nós sempre tivemos alguma coisa para nos basear, algo que já aconteceu antes. Desta vez, vivemos um daqueles momentos únicos. Nunca aconteceu algo nessa dimensão, nessa magnitude. No começo, todo mundo achou que a crise ia passar mais rápido, mas esse sentimento foi mudando ao longo do tempo. Acho que depois do choque inicial, passamos para um grande otimismo, com a melhora na situação da Europa no último verão. Tudo parecia voltar ao normal. Mas agora vivemos uma preocupação com a segunda onda de contágio, com um desfecho ainda imprevisível. Cada vez mais as reservas estão sendo feitas em cima da hora. Vamos ter que aprender a conviver com essa nova realidade, pois não acredito num milagre que normalize a situação de uma hora para outra.

MD – Um diretor de outra grande companhia aérea da Europa me disse que acredita que a União Europeia vai permitir o ingresso de estrangeiros mediante o uso de testes PCR até o fim do ano. Mas recentemente a Conselho do bloco vetou uma flexibilização das atuais regras. Você acha isso possível, ou só com uma vacina?

Annette – O grupo Lufthansa, que envolve também a Swiss, Austrian, Eurowings e outras empresas, reagiu muito rápido ao primeiro impacto dessa crise. Criamos comitês para lidar com os problemas imigratórios, com as mudanças na operação e com a estratégia de longo prazo. Fomos a primeira companhia aérea a implementar testes de Covid-19 em nossos centros de operação, em Frankfurt, Munique e Zurique. Esses testes foram fundamentais para garantir mais segurança e viabilizar a entrada dos nossos passageiros do ponto de vista sanitário e imigratório. A vacina vai ser sim, relevante, mas pode demorar. Temos que aprender a lidar com essa situação sem depender da vacina. E, nesse aspecto, acredito que os testes têm um papel relevante.

Tem um dado que gostaria de compartilhar. Nos últimos dois meses foram feitos 200 mil testes de Covid-19 em Frankfurt. Somente 1% deu positivo. De um total de mais de 1.500 passageiros vindos do Brasil, apenas 30 casos deram positivo, o que representa 0,02%. Além disso, não se conhece até hoje nenhum caso de contágio a bordo de nenhuma aeronave do grupo Lufthansa, o que mostra que voar é seguro. Por isso, acreditamos que melhor do que uma quarentena, difícil de controlar, os testes são o caminho correto para a reabertura das fronteiras.

Vou dar um exemplo de quando fui visitar a minha filha da Alemanha, em agosto (eu tenho dupla nacionalidade, então as restrições vigentes não me atingiram). Cheguei no voo São Paulo – Frankfurt para fazer o teste na área externa. Fiz o exame e, em um dia, saiu o resultado (no teste pago o resultado sai em 4 horas). Fiquei livre da quarentena e pude me deslocar livremente pela Alemanha. Funcionou super bem, me senti segura.

Na questão imigratória, acho difícil prever como vão evoluir as regras da União Europeia. Alguns países que não fazem do acordo de Schengen, como a Croácia, aceitam passageiros que hoje não são permitidos dentro da Europa. Mas as decisões ainda são individuais e complexas. O que estamos fazendo é tentando diminuir essa complexidade, através do nosso site, como um infohub que responde às principais dúvidas dos passageiros.

Frankfurt, Alemanha

MD – Com a maior parte das fronteiras fechadas, quem tem viajado com a Lufthansa atualmente? Qual o perfil dos passageiros atuais e no que ele difere de antes da pandemia?

Annette – Estamos transportando basicamente passageiros que estão indo visitar familiares e amigos. O perfil padrão hoje são pessoas com dupla nacionalidade, não necessariamente alemã, mas com qualquer outro passaporte europeu. Brasileiros com filhos morando na Europa também são autorizados a viajar. Por fim, alguns passageiros de negócios que estão sendo transferidos, repatriados, ou que vão visitar as famílias. Já as viagens corporativas diminuíram muito. A retomada vai mesmo começar pelo lazer. Acreditamos em três ondas de recuperação. O primeiro movimento é o de “visitar amigos e familiares”, que vivemos agora. Depois, virá o lazer, especialmente com a reabertura das fronteiras. Por fim, o turismo corporativo.

MD – Qual a atual situação dos voos do grupo Lufthansa no Brasil e no mundo hoje? Já é possível imaginar se e quando o nível de voos vai se aproximar dos patamares anteriores à pandemia?

Annette – Mesmo no auge da crise, a rota São Paulo – Frankfurt nunca parou de operar. Temos orgulho disso. Para quem não sabe, a Lufthansa é um dos maiores grupos de aviação do mundo e o maior da Europa, com mais de 700 aeronaves. No momento mais crítico da pandemia apenas 5 destinos internacionais foram mantidos. E São Paulo foi um deles, com 3 voos semanais, o que mostra a importância do Brasil para o grupo. Tivemos um trabalho excepcional, repatriando mais de 90 mil passageiros no mundo inteiro. No Brasil, esse papel foi importantíssimo, pois muitos passageiros ficaram presos na Europa, Ásia ou no Oriente Médio, sem opções de voos. E conseguimos trazer de volta muitas famílias.

Hoje estamos com uma frequência de voos entre São Paulo e Frankfurt de 5 voos semanais. A Rota São Paulo – Zurique reiniciamos em junho com 3 voos semanais. E, agora, planejamentos ter quase 50% de nossa oferta de antes da pandemia já em dezembro, com voos diários para Frankfurt e 5 voos semanais para Zurique, usando aviões grandes, respectivamente os modernos Boeing 747-8 da Lufthansa e o Boeing 777-300 da Swiss.

No mundo, no verão europeu chegamos a operar 90% dos destinos continentais  e 70% dos destinos intercontinentais. Era um sinal muito positivo. Mas a situação é volátil e agora estamos fazendo ajustes nas rotas, conforme a demanda se altera por conta da nova situação de alguns destinos.

MD – Vamos supor que um cliente brasileiro queira comprar uma passagem agora para viajar para a Europa nos próximos meses, mas tem receio das restrições permanecerem até lá. A Lufthansa e a Swiss estão oferecendo flexibilidade nos bilhetes? Qual a atual política?

Annette – Temos que trabalhar para dar segurança ao passageiro, tanto na parte de segurança sanitária, de informação, como na parte de flexibilidade. Por isso, todas as nossas passagens hoje são remarcáveis quantas vezes o cliente quiser, sem multa. Não precisa apresentar motivo, pode mudar quando quiser. Se tiver vaga na mesma classe tarifária, não paga diferença de valor. Caso queira mudar o destino ou se não tiver vaga na mesma classe, é cobrada apenas a diferença de tarifa, sem penalidade. É importante reforçar também que já pagamos mais de 3 bilhões de Euros em reembolsos. Isso não é um problema para nós. Mesmo no Brasil estamos processando reembolsos antes de 12 meses, para dar tranquilidade aos passageiros. No caso dos reembolsos, se aplica a regra da tarifa em questão, podendo haver penalidade.

MD – Você vê alguma diferença no comportamento do brasileiro com relação ao turista europeu ou de outros países onde vocês operam em relação à confiança em voar durante a pandemia? O que tem a dizer para as pessoas que tem medo de viajar agora?

Annette – Eu que estive no verão na Europa, fiquei com a impressão que o europeu estava mais relaxado em relação ao distanciamento e ao uso de máscara do que o brasileiro. E acho a máscara importante para dar segurança para todos. Mas sobre a confiança de voar, não vejo grande diferença.

Acho que se você tem segurança hoje para ir ao supermercado, ao shopping, ao restaurante, não precisa ter medo do avião. Já estamos indo nesses locais. Mas o avião tem um diferencial, os filtros HEPA, que eliminam 99,9% de vírus bactérias e renovam totalmente o ar aeronaves a cada 3 minutos. A possibilidade de contágio dentro de um avião, de acordo com um estudo da IATA, é praticamente zero.

Que destacar também que, no Brasil, fizemos convênio com dois laboratórios no Brasil um com o Hospital Alemão Oswaldo Cruz e o outro da CR Diagnósticos que faz testes rápidos PCR no aeroporto de Guarulhos, com 10% de desconto para os nossos passageiros. Isso é importante porque muitos países estão exigindo testes com validade de 72 horas ou 48 horas. É uma janela curta e com esses acordos queremos facilitar a vida do passageiro, provendo as informações em nosso site. Também fornecemos os e-mails específicos das polícias de fronteira da Suíça e da Alemanha, que respondem rápido às dúvidas dos passageiros sobre questões imigratórias e regras de entrada nos países.

Aproveito para reforçar que os preços estão atrativos no momento e que todas as tarifas do grupo Lufthansa incluem bagagem despachada no preço. Não deixem de voar! Não deixem o sonho acabar! Aproveitem a flexibilidade para planejar.

MD – Com a falência da Avianca Brasil, a Star Alliance ficou mais uma vez sem uma representante no país. Como isso impactou a distribuição dos passageiros para outras cidades brasileiras, além de São Paulo e Rio de Janeiro. O que a Lufthansa fez para compensar essa perda? A lacuna foi superada?

Annette – Sentimos muito perder um parceiro Star Alliance, pois somos a maior e mais forte aliança global. Mas, no Brasil, o grupo Lufthansa sempre teve acordo com todas as companhias aéreas. Nosso passageiro não têm distinção em voar Azul, Gol ou Latam, como não tinha com a Avianca. Se tivéssemos um acordo exclusivo com a empresa, teríamos tido um momento difícil, mas não foi o caso.

MD – As principais companhias aéreas do mundo estão se endividando fortemente para sobreviver a crise. O grupo Lufthansa, por exemplo, recebeu € 9 bilhões do governo alemão. Essa conta não pode ficar alta demais e dificultar a recuperação das empresas nos próximos anos? Quais mudanças essa crise pode provocar no setor?

Annette – A situação foi realmente dramática e, sem a ajuda dos governos, provavelmente muitas companhias aéreas não suportariam essa crise do tamanho que ela veio. Por isso, em primeiro lugar, quero dizer que somos muito agradecidos ao aporte de 9 bilhões de euros do governo alemão. Não só o dinheiro, mas também todo o suporte social para os nossos funcionários. Até agora, não houve nenhuma demissão por conta dos suportes sociais dos governos da Alemanha, Áustria e da Suíça. Por outro lado, vamos ter que pagar esse dinheiro de volta. E os juros são altos. O grupo Lufthansa sempre foi muito firme em defender a não interferência estatal em companhias aéreas, mas vivemos uma situação completamente fora do normal. Mas já criamos um programa chamado Renew (renovar, em inglês), com um projeto chamado Repay (reembolsar, em inglês), com todo planejamento para pagar essa dívida. E, se tem uma coisa que alemão faz bem, é economizar e lidar com crises. É o nosso DNA.

Só para vocês terem uma ideia, no segundo trimestre de 2020, nosso resultado foi um prejuízo de 1,7 bilhões de euros. No terceiro trimestre, que deveria ser pior, o impacto foi de 1,2 bilhões. É ruim, é! Mas já reflete o resultado de nossas ações, pois reduzimos muito a perda.

MD – Já dá para ter uma ideia de como serão Lufthansa e a Swiss após a pandemia? Frota, mercados, parcerias.

Annette – Com a crise, notamos rapidamente que o volume de passageiros iria cair, e que o volume de viajantes de primeira classe e de classe executiva seria proporcionalmente menor. Uma das decisões foi reduzir a frota de mais de 750 aviões em 150 aeronaves, bem como estacionar temporariamente algumas aeronaves maiores, como o Airbus A380, ou menos eficientes, como o Boeing 747-400 (um modelo mais antigo do que o 747-8 que usamos no Brasil). Outros aviões como o Airbus A340 (passageiros) e o MD11 (carga) serão definitivamente aposentados. Vamos precisar de alguns anos para voltar ao nível de pré-pandemia.

MD – Por que não temos nenhuma parceria do Miles&More com um banco brasileiro? Há alguma chance de vermos mais parcerias do programa em nosso mercado?

Annette – Sempre existiu um interesse e até algumas iniciativas para viabilizar isso. O Brasil é um mercado muito relevante para a empresa. Mas, por conta da pandemia, estamos trabalhando com outras prioridades e não temos uma previsão para que isso ocorra.


Agradecemos a Annette pela entrevista e pela simpatia, torcendo para que todos possam voltar a viajar com segurança e sem restrições o quanto antes!

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