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Viagem pela América do Sul: o relato de um viajante que mudou os rumos da vida depois de mochilar!

Monique Renne
Monique Renne
13/01/2021 às 6:38

Viagem pela América do Sul: o relato de um viajante que mudou os rumos da vida depois de mochilar!

Embarcar para o sonhado mochilão pela América do Sul pode ser uma experiência transformadora. Tão transformadora que é capaz de mudar o rumo de uma vida. Entre histórias impressionantes e muito conhecimento acumulado ao longo da estrada, viajar pela América do Sul é sempre uma experiência espetacular e, claro, inesquecível!

E foi exatamente assim que aconteceu com o viajante Jonatan Muller depois de um ano mochilando pela América do Sul. Entre aventuras inesperadas e roteiros quase sempre surpresa, Jonatan aproveitou cada minuto da experiência para desbravar os países vizinhos. O passo seguinte, muitas vezes, era definido em uma conversa com outros viajantes no dia anterior. E assim, sem roteiro, mas com a certeza de querer conhecer o máximo possível, Jonatan embarcou no mochilão que o transformou para sempre. Ah! Anos depois ele ainda voltou para repetir a dose, desta vez encarando 11 dias de acampamento entre Chile e Argentina, passando pelo Parque Nacional Torres del Paine e o Parque Nacional Los Glaciares. Desta vez, com mochila, barraca e um pouquinho mais de experiência. Confira o relato!

Viagem américa do sul

Durante trilha pelo Parque Nacional Torres del Paine / Fotos: Arquivo Pessoal

Mochilão e a descoberta de um caminho a seguir para sempre

Bacharel em Relações Internacionais e pousadeiro na Chapada Diamantina, Jonatan Muller, 34, mudou o rumo da vida depois de um ano mochilando pela América do Sul

Voltemos ao verão de 2006. Eu tinha 19 anos e havia recém deixado a casa dos meus pais no interior do Rio Grande do Sul para ingressar na universidade em Florianópolis, em Santa Catarina. Cursava Relações Internacionais e um ideal me motivava constantemente: desbravar o mundo e colecionar minhas próprias aventuras. Como sempre fui avesso às convenções e ansiava por escrever minha história autenticamente, decidi que minha primeira viagem já deveria ser por si um divisor de águas, uma revolução pessoal capaz de expandir meus horizontes até onde eu nem sequer imaginava. Para tanto, viajaria sozinho, sem roteiro preestabelecido, sem datas rígidas para me preocupar e exploraria ao máximo as oportunidades que fossem surgindo ao decorrer da viagem. Para onde iria? Como faria?

A universidade mantinha um programa de bolsas de intercâmbios com diferentes instituições ao redor do mundo inteiro, desde Oceania até o Caribe. Obviamente, os destinos mais concorridos eram os já consagrados Havaí, Europa, Estados Unidos, Canadá e Austrália. Por mais tentador que fosse, sequer pensei neles. Já tinha decidido que minha primeira experiência internacional não poderia ser outra se não a América do Sul. Antes de explorar países alhures, era preciso começar por nossos vizinhos. Pleiteei uma bolsa para Santiago – Chile e fui contemplado. Iria aproveitar essa ocasião e emendar um mochilão pela região. Sairia do Brasil e meu destino final seria o Chile.

Viagem América do sul

Parque Nacional Torres del Paine

Lembro-me perfeitamente que estava visitando minha família no interior de Goiás. Era janeiro e embarquei em Brasília com destino a Rio Branco, Acre. Esse seria meu único trecho de avião. A partir de então seria tudo por terra, basicamente ônibus, lancha (quando necessário) e algumas caronas solidárias. Fiquei duas semanas na capital acreana hospedado na casa de um amigo. Após esse período, ganhei uma carona até a fronteira com o Peru. Tinha apenas um norte a seguir: Machu Picchu. Iria começar por aquele destino mágico que tanto me fascinava e onde estava a antiga cidade do império Inca. Depois? Não fazia ideia.

Minha aventura começou em plena selva amazônica, numa viagem de ônibus que durou três dias, cruzou a cordilheira dos andes em estradas alucinantes e sem banho. Chegando a Cusco, busquei um hostel e logo na primeira noite conheci um casal de argentinos, uma turca e uma alemã. A conexão foi instantânea. No dia seguinte, começamos uma trilha de três dias até Águas Calientes (cidade mais próxima de Machu Picchu). Por coincidência (ou não), as duas garotas – a alemã e a turca – estavam fazendo um mochilão, mas em roteiro inverso ao meu. Elas rabiscaram em um guardanapo o nome dos lugares que mais gostaram e que consideravam imperdíveis. Abri meu mapa (na época não existia smartphone e o acesso à internet era limitado e caro) e risquei o trajeto pelo qual pretendia passar. E foi assim que, de fato, a aventura começou.

No caminho entre Cusco e Águas Calientes

Daí para a frente, fui a Arequipa conhecer o Valle del Colca e observar os ninhos dos condores andinos nas escarpas montanhosas; contemplei um pôr do sol de tirar o fôlego na Isla del Sol, em pleno lago Titicaca; comi com as mãos em meio à multidão do Mercado Popular de La Paz; entrei nas minas de prata de Potosí, conversei com os mineradores e senti a dor acumulada por séculos de exploração; rodei por três dias pelo Salar de Uyuni, dormindo em casas construídas com blocos de sal e olhando lagunas multicolores repletas de flamingos selvagens; contemplei o céu sem igual do Deserto do Atacama, na cidade de São Pedro; percorri inúmeras trilhas pelos minúsculos povoados do norte argentino, Tilcara e Purmamarca; visitei as antigas ruínas jesuíticas de Trinidad, no Paraguai (as mais bem conservadas entre todas); e naveguei pelo Rio da Prata cruzando Buenos Aires até a charmosa cidade de Colónia del Sacramento, entre muitas outras experiências que vivenciei durante quase 10 meses de mochilão pela América do Sul.

Viagem américa do sul

Travessia de rio rumo a Machu Picchu, no povoado de Santa Teresa

O orçamento da viagem era muito controlado. Saí com todo o dinheiro que dispunha compartilhado entre carteira, doleira e em diferentes compartimentos da mochila. Levei um cartão de crédito por precaução e para ser usado somente em caso emergência. Nunca precisei. Como a viagem não seguia nenhum planejamento, quando o dinheiro estava acabando, apertava o cinto, comia em restaurantes realmente populares, dormia nos hostels mais baratos e, se preciso, até nas rodoviárias. Cheguei a trabalhar num restaurante por algumas semanas para juntar algum trocado extra para poder estender o mochilão.

Mochilão América do Sul

O objetivo inicial era desbravar o máximo de lugares possíveis. Se gostava, ficava. Se o lugar me causava uma impressão negativa, não perdia dois dias e já partia para o próximo destino. E tudo acabava acontecendo assim, de improviso, de acordo com meu estado de espírito.

Tentei seguir o mais à risca possível o ideal de viajar sem rumo, sem pressa, sem preocupações prévias. Simplesmente ia. Se tive medo? Muitas vezes. Se deixei de fazer alguma coisa por comodidade? Nunca. Algumas coisas não saíam exatamente como esperado, mas isso era bem-vindo. No final das contas, não é essa a intenção de viajarmos? Para mim, viajar é sair da zona de conforto a fim de testar nossos limites, nos permitindo conhecer outras realidades e culturas.

Carrego até hoje amizades feitas durante esse período. Tenho certeza que o mochilão, minha primeira viagem aos 19 anos, foi revolucionário e me transformou de tal maneira que influenciaria todas as minhas decisões futuras. Hoje sou um amante de viagens e aventuras. Conquanto formado em Relações Internacionais, possuo uma pousada na Chapada Diamantina (o que me propicia manter contato com outros viajantes do mundo inteiro) e sou casado com uma jornalista especializada em escrever guias de viagens (a Monique Renne, editora aqui do Melhores Destinos rs).


Agradecemos imensamente ao Jonatan por compartilhar essa experiência com a gente! Se quiser acompanhar mais das viagens dele pelo mundo, acesse o Instagram @jonatan.muller.

E você? Já esteve em um mochilão pela América do Sul? Que tal relembrar sua última viagem compartilhando o roteiro com a gente? Aqui no MD sempre abrimos espaço para os relatos dos leitores e será um prazer publicar suas aventuras. Para colaborar é bem fácil: é só enviar seu texto e fotos para o e-mail convidado@melhoresdestinos.com.br.