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Dicas de um mochileiro para inspirar você a desbravar a América do Sul

Monique Renne
Monique Renne
13/09/2020 às 6:04

Dicas de um mochileiro para inspirar você a desbravar a América do Sul

Fazer um mochilão pela América do Sul está na lista de desejo de muitos viajantes mais aventureiros. Conhecer melhor nossos vizinhos, ter contato com diferentes culturas e percorrer as grandiosas paisagens da América do Sul enriquece a vida de qualquer mochileiro. E quanto mais mochilões, melhor! Se você está pensando em embarcar rumo aos destinos da América do Sul, mas anda precisando de inspiração para levar os planos adiante, esse post é para você!

Convidamos o jornalista, e apaixonado por viagens, Leandro Galvão para contar o que viveu e as experiências que acumulou em quatro viagens pela América do Sul.  Leandro realizou a primeira viagem internacional aos 29 anos, rumo a Buenos Aires. Depois disso, nunca mais parou! Agora, aos 39 anos, Leandro (que é leitor do Melhores Destinos e já aproveitou um bocado de promoções para viajar e mochilar) acumula 24 países visitados e não pretende parar. Confira o relato e prepare-se para botar o mochilão nas costas muito em breve!

Salar do Uyuni

Salar do Uyuni. Foto: Leandro Galvão/ Arquivo pessoal

Mochilão: uma “bagagem” que se carrega para a vida toda

Relato do leitor e jornalista Leandro Galvão

“Isso não é caro. Isso é trocar dinheiro por experiências”. A frase direcionada ao nosso grupo que se formou no meu primeiro mochilão pela América do Sul, lá em 2011, nunca saiu da minha memória. Ela foi dita a nós, brasileiros, italianos e portugueses, despretensiosamente, por uma chola – mulheres campesinas de traços indígenas que são um verdadeiro símbolo nacional da Bolívia com suas típicas vestimentas com saia longa, chapéu-coco e tranças.

A devolutiva em forma de sabedoria aconteceu, em Uyuni, na Bolívia, quando nós comentávamos ao seu lado sobre o valor oferecido por um tour de três dias pelo deserto boliviano até o Atacama, no Chile, com muito perrengue, mas que acabou carimbando grandes momentos em nossas memórias. E olha que a senhorinha nem fazia parte do negócio. Estava ali, despercebida, apenas vendendo seu artesanato na calçada, sem imaginar que deixaria uma reflexão que até hoje ficou marcada para mim.

Fazer um mochilão é bem por aí: “trocar dinheiro por experiências”. Mas também é não se preocupar com “caixinhas”, tendo liberdade de mudar o rumo das coisas quando quiser, como ficar um dia a mais ou a menos numa cidade. É ter capacidade de se adaptar à jornada e fazer muitas coisas por conta própria. É, sobretudo, não privilegiar luxos, mas sim a “bagagem” que se leva para toda a vida. E foi em busca dessa bagagem – muito estimulada pelo filme Diários de Motocicleta – que botei na cabeça que tinha que explorar a América do Sul algum dia.

Acabou que o fiz em quatro “doses homeopáticas”: 2011, 2013, 2014 e 2017 – nesse período, passei por regiões do Peru, Bolívia, Chile, Argentina, Equador, Colômbia e Venezuela. E sem gastar muito, se você pensar que é uma viagem internacional. Em todas minhas pesquisas prévias e balanços pós viagens, concluí que foi mais barato passar 3 semanas viajando por alguns desses países do que 15 dias pelo litoral brasileiro. Exceto pela Patagônia Chilena e Argentina, onde por mais simples e econômica que seja a experiência, o custo é alto em comparação a outros locais do continente.

Salar do Uyuni. Foto: Leandro Galvão/ Arquivo pessoal

E para que isso se traduza em um custo-benefício positivo, um bom planejamento  de viagem é a chave de tudo. E não basta ser financeiro, precisa ser logístico, principalmente. Saber das melhores rotas, duração e custo de cada deslocamento entre cidades, tempo de estadia, hospedagem, estilo de viagem que se pretende – se é mais urbana ou selvagem –, melhor época para ir a uma determinada localidade e por aí vai. Não adianta querer conhecer muito em 15 dias. A não ser que você queira conhecer três a quatro cidades e uma bem próxima da outra.

Vulcão Cotopaxi. Foto: Leandro Galvão / Arquivo pessoal

Nesse sentido, fazer tudo na correria pode te levar a não aproveitar direito, até porque sempre existe o risco de uma condição climática desfavorável – e não estou falando de uma garoa paulistana, mas de nevasca mesmo, daquelas de tornar inviável colocar o pé na rua (ou na trilha). E aí podem ser um, dois ou três dias perdidos. Sem contar que tem gente que gosta de incluir ali no meio da viagem um dia de preguiça, para fazer absolutamente nada e recarregar as baterias para retomar a estrada. Todas essas variáveis dentro de um planejamento influenciam diretamente no custo e, principalmente, no que carregar na mochila.

El Calafate. Fotos: Leandro Galvão/ Arquivo pessoal

Perrengues de viagem em um mochilão pela América do Sul

Por falta de um planejamento adequado e inexperiência, acabei aprendendo na marra que não precisava sofrer um frio glacial numa madrugada em um “abrigo” nas proximidades da Laguna Colorada, no deserto da Bolívia, no mochilão que incluiu ainda Peru e Chile. A sensação térmica era de 15 graus negativos. E aquele “estagiário da mochila” que achava que era só levar nas costas um casaco gigante e uma calça jeans, sofreu por longas horas, desesperado pela chegada dos primeiros raios solares para dar aquela esquentadinha salvadora.

Lição aprendida naquela noite: não adianta ter um casaco que te faz parecer um participante da prova “Avalanche”, das Olimpíadas do Faustão. O segredo está em três camadas de vestimenta: segunda pele, em primeiro lugar, para funcionar como um isolante térmico; um fleece (uma espécie de flanela) em seguida – ela vai aumentar esse isolamento; e, por fim, uma boa jaqueta corta-vento. O mesmo vale para as pernas e pés. Camadas!!! Sempre camadas!

Ushuaia. Foto: Leandro Galvão/ Arquivo pessoal

Depois dessa experiência de quase criogenia humana, nunca mais sofri como naquela noite em que o único aquecimento era fornecido por quantidades dilúvicas de todo tipo de bebida destilada madrugada adentro. Ave Maria… Mas valeu a pena? Demais! Além do aprendizado de como suportar o frio, a recompensa visual e afetiva é impagável: céu rasgado pela via láctea durante a noite com muitas estrelas cadentes e uma paisagem de dia que funde as cores dos flamingos com as águas vermelhas da Laguna Colorada no meio de um deserto cheio de formas. Nada mal.

Esse tipo de perrengue de viagem pode fazer parte da experiência de alguma forma. Seja por falta de experiência do viajante, pela falta de estrutura em alguns locais, ou até mesmo pelo acaso. Um bom planejamento vai minimizar seus contratempos bastante, é verdade, mas jamais excluí-los na totalidade. Sem uma preparação redonda, você pode se ver dentro de um ônibus noturno por 15 horas, onde a poltrona não reclina, não tem banheiro (ou não funciona) e nem alguma parada programada para aquele salgado salvador com um suco de “amarelo”. Isso quando não vendem dois bilhetes para a mesma poltrona e aí vira um “eu cheguei primeiro!!!”. Lição? Abra a mão e gaste um pouco a mais na compra de um bilhete em um ônibus de categoria superior. A diferença não é lá essas coisas e vai te poupar algumas horas e bastantes perrengues (olha o planejamento aí!).

Salar do Uyuni. Foto: Leandro Galvão

Sem contar que aquele hostel super bem avaliado que você pesquisou na internet pode te colocar num quarto com 8, 10, 12 ou mais gringos sempre bêbados – não que eu não fosse um deles, claro – e “alérgicos” a chuveiro – não que eu fosse um deles, claro. E na madrugada, você pode ter que se deparar no meio de uma grande “sinfonia de pardais” reverberando pelo quarto. O que não é exclusividade na América do Sul, evidentemente. Todo lugar do mundo tem isso. Mas nada que uma boa pesquisa e consulta com gente conhecida não possa tornar a experiência diferente.

Eu mesmo já preferi ficar num hostel bagunçado algumas vezes. Você já inicia a noite ali mesmo e dali segue com seus novos melhores amigos para as festas da região. Hoje, já prefiro algo mais calmo e bem estruturado. Até porque tem hostel na América do Sul que supera muito hotel por aí. E por um preço muito inferior, o que é o mais importante. De novo o planejamento: vale considerar se você quer sossego ou farra. Se é farra, posso garantir que a América do Sul tem os melhores hostels da Via Láctea, principalmente ali pelas bandas de Cuzco, Lima, La Paz, Cartagena

El Chalten. Foto: Leandro Galvão

A loteria da comida também faz parte. Principalmente nessas travessias na trinca Peru-Bolívia-Chile. Tenho um amigo que perdeu mais de 10 quilos somente com sua exportação de grãos pelo “Cone Sul”. Felizmente, eu só achei o gosto ruim de algumas iguarias andinas, como o onipresente ensopado de pollo com papas (frango com batatas) e não tirei esse “bilhete da sorte”. Para quem tem o intestino fresco, é sempre bom considerar um miojo e salgadinhos na mochila.

Dinheiro por experiências

Mas tal qual os grandes perrengues sofridos e lições aprendidas nessas passagens pela América do Sul, bem como a sábia reflexão daquela cholita na calçada de Uyuni, as experiências (ou “bagagens”) acumuladas ficarão para sempre marcadas para mim ou qualquer outra pessoa que se aventura pelo continente. Não importa se o formato é econômico ou com maior conforto. Vale a liberdade durante a viagem e a vivência adquirida. Vez ou outra, ainda me pego imaginando parado num exato local, num exato momento, numa exata situação em uma dessas viagens pelos países sulamericanos.

El Chalten. Foto: Leandro Galvão/ Arquivo pessoal

Tem dia que “acordo” na beira de um grande lago como quintal, tendo ao fundo o cartão postal das três grandes torres de granito conhecida como Los Cuernos, no Parque Nacional Torres del Paine, no Chile. Às vezes, eu ainda me pego “caminhando sobre as águas” do Salar de Uyuni, na Bolívia, o maior deserto de sal do mundo, e curtindo o pôr do sol com aquela incomparável ilusão de ótica de confundir céu e chão, pois a água acumulada da chuva em determinada época do ano (janeiro a abril) cria um espelho natural, que reflete no chão o céu azulado com algumas nuvens. Não há horizonte. Tudo parece ser uma coisa só. Lugar igual não há.

Salar do Uyuni. Foto: Leandro Galvão

Quando quero me transportar para outro pôr do sol, vou até a memória bem guardada da Pedra do Coyote, no Deserto do Atacama, no Chile, no meio das formações geológicas e cores “marcianas” que variam entre o vermelho, amarelo, laranja, azul, lilás… Também não dá para esquecer da primeira vez que se avista a cidade inca de Machu Picchu, após subir alguns metros montanha acima e ficar ali parado, só observando a complexidade, grandiosidade e importância daquela construção. A sensação é difícil de explicar.

Ainda na linha do mistério – com um pouco de brasilidade – ficaram impressas as lembranças dos quase 40 minutos de negociação com um guia local, que, pela minha insistência por um preço menor, já cravou logo: “Brasileño? Tenia que ser. No tenia dudas”. A pechincha envolvia o embarque em um teco-teco de procedência duvidosa para sobrevoar as linhas de Nazca, que são figuras criadas/desenhadas no solo por uma civilização há centenas de anos no meio do deserto peruano. Elas só são possíveis de serem avistadas sobrevoando o local.

Tão grandioso quanto, mas de uma maneira diferente, é o trekking sobre o glaciar Perito Moreno, na Argentina. Caminhar horas e horas sobre aquela imensidão azul e branca de puro gelo é uma experiência difícil de descrever. Mesmo debaixo de chuva, como foi no dia.

El Calafate. Foto: Leandro Galvão/ Arquivo pessoal

Por essas e outras, depois de quatro jornadas pela América do Sul, sempre recomendo a quem nunca fez que incluam em seus planos um giro por algum dos países vizinhos, assim que a vida voltar ao (novo) normal. É mais “perto”, mais barato – até mesmo se você escolher por mais conforto – e para quem não domina o espanhol ou inglês, o “portunhol” já ajuda muito – depois de quatro viagens pelo continente, o meu “portunhol” atingiu a versão 4.0. Cada vez melhor.

Afora toda a beleza natural, a cultura latina é a nossa cultura e ela precisa ser vivenciada de perto, não só nos livros, filmes ou redes sociais. A jornada, seja ela com perrengue ou conforto, será transformadora em todos os sentidos. E a experiência, no sentido de vivência, ou “bagagem”, certamente será carregada para a vida toda.

El Chalten. Fotos: Leandro Galvão/ Arquivo pessoal

Agradecemos imensamente ao Leandro Galvão por compartilhar tantos momentos e experiências maravilhosas pela América do Sul! E se quiserem conferir mais sobre a viagem dele, acessem o Instagram @leandrogalvao, onde ele compartilha outras aventuras por este mundão. E você? Já esteve em um mochilão pela América do Sul? Que tal relembrar sua última viagem compartilhando o roteiro com a gente? Aqui no MD sempre abrimos espaço para os relatos dos leitores e será um prazer publicar suas aventuras. Para colaborar é bem fácil: é só enviar seu texto e fotos para o e-mail convidado@melhoresdestinos.com.br.

O próximo roteiro de viagem publicado no Melhores Destinos pode ser o seu!