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Passaporte de imunidade: precisaremos de um nas próximas viagens?

Bruna Scirea
Bruna Scirea
21/05/2020 às 11:06

Passaporte de imunidade: precisaremos de um nas próximas viagens?

Passada a pior fase da pandemia em muitas regiões do mundo, alguns países reabrem comércios, flexibilizam políticas de isolamento social e planejam como se dará a retomada do turismo de forma segura, a fim de evitar novas ondas de contágio. Neste contexto, uma polêmica ideia entra na discussão: a possibilidade de viajantes terem de apresentar passaportes de imunidade, comprovando que já tiveram a covid-19, que estão curados e com anticorpos que os tornam imunes.

Suíça, Alemanha, ItáliaReino Unido são alguns dos países que já cogitaram a possibilidade de emitir o documento para seus cidadãos curados. A Associação de Hoteleiros de Madri planeja criar o selo “Covid-19 Free Hotel”, para estabelecimentos que atestem que tanto funcionários quanto hóspedes não têm o vírus. O CEO da Delta, Ed Bastian, também levantou a possibilidade de a companhia exigir certificados de “boa saúde” dos passageiros. Na França, os prefeitos de Nice e de Paris sugeriram que o direito de entrar e sair dos países deveria estar atrelado à apresentação de um passaporte de saúde, fosse comprovando a presença de anticorpos ou o teste PCR negativado nas últimas 48 horas. Bom, dá para ver que conversa foi longe. Tanto que atiçou até startups: uma delas, britânica, já inventou o CoronaPass, um aplicativo que armazena o status de imunidade do usuário obtido junto aos órgãos de saúde do país, que pode ser facilmente apresentado às autoridades quando solicitado.

O mundo inteiro está buscando formas de voltar à (uma nova) normalidade com responsabilidade. A exigência de um passaporte de imunidade até que seja criada e aprovada uma vacina contra o coronavírus, no entanto, é questionável. Especialistas veem a possibilidade como mais controversa do que a imposição de quarentena a turistas, como planeja fazer a Inglaterra, ou a realização de testes rápidos da covid-19 na chegada aos aeroportos de destino, como acontece em Florianópolis e como já realizou a Emirates em Dubai.

Veja como funcionaria o passaporte de imunidade e as críticas à proposta:

O que é o passaporte de imunidade?

A ideia mais comum é de um documento físico ou digital que identifique as pessoas imunes, por meio da realização de testes de anticorpos e de vírus. O passaporte de imunidade somente seria concedido àqueles que tenham resultado positivo para o teste de imunidade e negativo para o teste de vírus (ou seja, que não carregam mais o vírus).

Uma vez emitido pelos órgãos de saúde de cada país, o documento poderia se tornar um requerimento obrigatório para se retornar ao trabalho, viajar ou participar de outras atividades sociais. Assim, ao certificar que a pessoa está imune à doença, que ela não será infectada novamente e não se tornará um risco para a saúde pública, o passaporte de imunidade também poderia passar a ser exigido pelas companhias aéreas ou órgãos de migração de países turísticos.

Especialistas em saúde acreditam, no entanto, que um documento deste tipo poderia, pelo contrário, aumentar os riscos de transmissão da covid-19.

Aplicativos guardariam dados sobre a imunidade dos usuários

Por que especialistas são contra o passaporte da imunidade?

Diante da série de países que anunciaram estarem estudando a adoção de um passaporte de imunidade, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou artigos reforçando que atualmente não há garantia de que os pacientes infectados, curados e com anticorpos não venham a contrair o vírus novamente. Ainda não se sabe se os anticorpos evitam um segundo contágio e se a imunidade durará meses, anos ou pelo resto da vida.

Além disso, cientistas lembram dos chamados falsos positivos. Há chances de muitos testes darem positivo para a presença de anticorpos, mas que na verdade estão reconhecendo anticorpos que o corpo produziu para um vírus similar, não necessariamente o SARS-CoV-2. Neste caso, pessoas poderiam julgar que tiveram a doença de maneira assintomática, que estão curadas e imunes, porém, logo mais, acabar contraindo de fato o vírus, sujeitando-se à sorte da evolução da doença. Para garantir resultados verdadeiros, seriam necessários testes absolutamente confiáveis. Não é o que acontece.

Durante um mês a Emirates realizou testes rápidos da covid-19 em passageiros no aeroporto de Dubai mas, nesta semana, informou que parou os exames. O motivo: segundo a Dubai Health Authority, a taxa de precisão dos testes seria de apenas 30%, tornando-os impróprios para atestar se uma pessoa tem ou não os anticorpos. Vale lembrar que foram necessários muitos e muitos anos até que os testes de anticorpos para o HIV chegassem a 99,9% de confiabilidade. Nós, neste momento, estamos apenas no início de um longo processo em relação ao coronavírus.

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Outros possíveis riscos de um certificado de imunidade

Caso o único jeito de voltar à vida, seja ao trabalho ou às viagens, fosse com um certificado de imunidade em mãos, é de se imaginar que muitas pessoas estariam dispostas a se exporem ao vírus para adquirir a suposta imunidade (vale lembrar: uma proteção ainda não comprovada). Há quem considere o surgimento de um mercado negro de certificações forjadas, trazendo um risco altíssimo de novas ondas de contágio.

Outro ponto que enfraquece a ideia da criação de certificados “livre de riscos” é que os documentos emitidos por cada país de origem teriam de ser validados pelas autoridades do país de destino. Isso aumentaria e muito a burocracia e, possivelmente, até mesmo os custos das viagens. Além disso, até dói imaginar um contexto em que as viagens estariam condicionadas à sobreviver ao coronavírus.

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Qual a possibilidade de precisarmos de passaportes de imunidade para viajar?

Só o tempo dirá. Mas aqui vai a minha opinião: nenhuma. Por enquanto, não há embasamentos científico, nem jurídico, que justifique a criação de um passaporte de imunidade. Pelo menos não aos moldes do que está sendo especulado até então. O argumento é simples: a presença de anticorpos, até o momento, não afasta a possibilidade de um segundo contágio. Também me parece bastante distante a ideia de dividir a humanidade a partir da presença ou não de anticorpos contra um vírus, criando uma classe de imunoprivilegiados.

Mas então, enquanto não houver uma vacina contra o coronavírus, como reduzir as chances de novas ondas de contágio após a reabertura de fronteiras e a retomada do turismo no mundo?

Não tenho a menor ideia.

O que me resta é um motivo a mais para torcer para que cientistas consigam criar logo uma vacina. Porque é aquilo: a exigência de comprovantes de vacinação, como o da febre amarela, nos levam a buscar a imunização contra os vírus. Ao contrário, passaportes de imunidade incentivam a infecção: adoecer e sobreviver. E dos riscos do coronavírus, ninguém está livre.

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