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Concorde: conheça a história do avião supersônico que mudou a aviação

João Goldmeier
João Goldmeier
21/03/2021 às 6:08

Concorde: conheça a história do avião supersônico que mudou a aviação

O Concorde é um símbolo de uma época quando qualquer coisa parecia capaz de ser atingida pelo homem. Se era possível caminhar na lua, por que não seria voar duas vezes mais rápido que a velocidade do som e cruzar o Oceano Atlântico em menos de três horas?

Esse feito incrível foi atingido pelo supersônico Concorde, que reinou soberano por quase três décadas antes de se aposentar. Sua velocidade jamais foi repetida por qualquer aeronave comercial moderna e sua história é tão fantástica quanto seus números.

Nascimento do Concorde

Em 1947 o piloto americano Chuck Yeager foi o primeiro homem a quebrar a barreira do som (1.216 km/h) a bordo de uma aeronave militar. A partir daquele momento estava deflagrada a corrida para ver qual potência mundial iria desenvolver primeiro um avião supersônico para o transporte de passageiros.

Quatro países iniciaram seus projetos: Estados Unidos, União Soviética, Inglaterra e França. Em 1962 os dois últimos assinaram um tratado para desenvolver a nova aeronave em conjunto, dividindo assim os altíssimos custos de desenvolvimento.

De um lado, as britânicas British Aircraft Company (BAC) e Rolls Royce, e do outro a francesa Aérospatiale e a Société Nationale d’Étude et de Construction de Moteurs d’Aviation (SNECMA), sendo as primeiras responsáveis pelo desenvolvimento da aeronave, e as segundas pelo desenvolvimento dos motores.

Desenvolvimento do Concorde: uma fábrica de cada lado do Canal da Mancha

O nome do avião também simbolizava essa união franco-inglesa: Concorde em francês tem o mesmo significado que a palavra equivalente na língua inglesa Concord: ambas significam acordo, união, harmonia. Apesar do nome, a divisão permanecia: eram duas linhas de montagem, uma em cada país, com todo o processo em duplicidade.

Protótipo em construção do Concorde

Os desafios de engenharia eram enormes: os motores do Concorde teriam que ter o dobro da potência dos motores a jato à época e a fuselagem teria que aguentar a enorme pressão vinda das ondas de choque que surgem ao ultrapassar a barreira do som. Isso sem falar que teria que suportar as altas temperaturas causadas pela fricção com o ar.

Mas pouco a pouco as barreiras foram sendo vencidas, e em 2 de março de 1969, quatro meses antes do homem pisar na lua, o Concorde fez seu primeiro voo teste. O mundo via pela primeira vez aquele avião com formato diferente, com as asas em delta, quatro motores a jato e nariz articulado, que baixava nos pousos e decolagens dando um melhor campo de visão aos pilotos, e mantinha-se alinhado à fuselagem durante o voo para melhor aerodinâmica.

Primeiro voo teste do Concorde

O Concorde tinha 62,1 m de comprimento, 11,3 m de altura e 25,5 m de envergadura (distância da ponta de uma asa a outra). Cada um de seus quatro motores RR-Snecma Olympus 593 geravam 38 mil libras de empuxo no pós-combustor. Um detalhe interessante é que os motores internos de cada lado (2 e 3) podiam ser colocados em reverso em voo subsônico, reduzindo a velocidade na descida, já que o Concorde não possuía spoilers ou speedbreaks.

Raio-x do Concorde, um projeto altamente complexo

Sua velocidade de cruzeiro era de Mach 2.02 (2.494 km/h), mais rápido do que a rotação da Terra (1.666 km/h). Tudo isso a 60 mil pés (18.300 m) onde o Concorde voava sem turbulência alguma, mas ao custo de 25 mil litros de querosene queimados por hora.

Àquela altura, o projeto franco-inglês ganhava força e companhias do mundo todo haviam depositado pedidos do novo avião. No total eram quase 100 opções de compras, vindas de 18 companhias aéreas como American Airlines, Pan Am e United Air Lines, segundo o site Heritage Concorde.

Concorde

Apresentação ao público do Concorde

Foram necessários mais quatro anos de desenvolvimento até a sua apresentação oficial na Feira Aeronáutica de Paris de 1973, quando ele foi apresentado junto ao seu primo desengonçado, o soviético Tupolev TU-144, uma cópia descarada (e mal-feita) do desenho original.

Mera coincidência? O Tupolev TU-144 era uma cópia do Concorde

Seguindo a programação da feira, no dia 3 de junho de 1973 o Concorde fez sua apresentação de forma perfeita para um público estimado de mais de 200 mil pessoas. Na sequência, era a vez do TU-144 fazer a sua, que iniciou com uma volta de 360º antes de cair abruptamente e se despedaçar no ar. O acidente matou os seis tripulantes do avião e oito civis em solo.

O catastrófico evento selou o destino do avião russo que, por questões políticas, chegou a fazer alguns voos domésticos antes de ter sua produção interrompida. Lamentavelmente também contribuiu para o cancelamento de diversas ordens de compra do Concorde.

Fracasso comercial

O custo de desenvolvimento do Concorde foi tão grande que seria impossível recuperá-lo apenas com as vendas, mas como vimos havia questões políticas que fizeram o projeto seguir adiante.

Mesmo assim, se o Concorde havia arrebatado dezenas opções de compra de companhias aéreas de todo mundo, o que deu errado?

Concorde da Air france durante o pouso, com o nariz abaixado para melhor visão da pista

Ainda na fase de testes o Concorde fez uma volta ao mundo promocional para tentar angariar mais compradores. Apesar de ter conquistado duas novas encomendas na parada no Irã, o barulho do avião ao atingir a velocidade do som e a fumaça negra que saia de seus motores causou diversos cancelamentos.

Nos Estados Unidos estes problemas também foram objeto de protestos do nascente movimento ambientalista. Como o país havia descartado seu projeto de avião supersônico, o Boeing 2707, foi a deixa perfeita para proibir o avião de atingir velocidades supersônicas ao sobrevoar seu território. Isso afastou por completo o interesse das companhias aéreas americanas.

O acidente com o TU-144 durante o Paris Air Show só fez piorar as coisas, pois trouxe uma desconfiança enorme aos aviões supersônicos como um todo – e não ajudava em nada o fato do avião soviético ter forma idêntica à do Concorde.

Mas a maior dificuldade foi mesmo econômica. Levando apenas 100 passageiros a bordo, com um consumo descomunal de combustível a conta não fechava. E pra piorar, veio a crise do petróleo dos anos 70, e o preço do combustível de aviação disparou, tornando inviável realizar qualquer operação rentável com o Concorde.

O interior do Concorde era apertado, aqui com a última atualização da British Airways

A bem da verdade, nem British Airways, nem Air France, queriam operar o avião, mas elas não tiveram escolha. Os respectivos governos tinham investido dinheiro demais para desistir do projeto, e assim acabaram sendo as únicas a operar o Concorde.

No fim apenas 20 aeronaves foram construídas, sendo 6 protótipos usados no desenvolvimento e 14 aeronaves para uso comercial, 7 para cada lado do Canal da Mancha.

Primeiro voo comercial do Concorde

O Concorde não teve um, mas dois voos inaugurais ao mesmo tempo. No dia 21 de janeiro de 1976 decolaram ao mesmo horário, sincronizados por rádio, um voo da British Airways de Londres para o Bahrein e outro da Air France de Paris para o Rio de Janeiro, com escala de abastecimento em Dakar, no Senegal.

Concorde

Comissárias de bordo da Air France em frente ao Concorde

Mesmo com a parada para reabastecimento, a viagem entre Paris e o Rio de Janeiro e Paris durava apenas 6 horas, metade do tempo que levavam os outros aviões que faziam a rota de forma direta.

Chegada do Concorde ao Rio de Janeiro. Foto: Acervo O Globo.

O voo para o Rio durou até 1982, quando foi extinto por conta da baixa ocupação, que não chegava a 50%. Eram poucas as pessoas que podiam pagar os mais de US$ 10 mil que custava a passagem na época.

A rota para Nova York

Com as restrições legais de sobrevoo e alto custo de operação, restou às companhias um único destino possível: Nova York. Na cidade onde o tempo é dinheiro, banqueiros, estrelas de cinema, políticos, modelos, autoridades e presidentes de empresas estavam dispostos a pagar o preço para chegar antes.

E chegar antes não é figura de linguagem: era literalmente voltar no tempo. O voo de Londres para Nova York tinha uma duração de 3h30. Como entre as duas cidades existe um fuso horário de 5 horas, o passageiro chegava mais cedo (no horário local) do que o horário que havia partido.

Para justificar o alto preço do bilhete, além da velocidade os passageiros tinham um serviço de primeira classe, com os melhores champagnes, caviar e refeições assinadas pelos melhores chefs de cozinha da época, como Alain Ducasse. Voar no Concorde era como pertencer a um clube seleto, já que os passageiros variavam pouco e já eram conhecidos pela tripulação.

O serviço de bordo era requintado, com direito ao melhor Champagne e caviar

O serviço acompanhava a qualidade dos comes e bebes. Alain Verschuere, que foi comissário da Air France no Concorde, conta que as preferências de cada passageiro eram passadas para a tripulação do próximo voo: “Nosso briefing era muito completo, com o objetivo de satisfazer as necessidades e vontades”, dando ainda mais detalhes: “A comida era a melhor, servida em três etapas, como em um restaurante francês. Tínhamos opções diferentes de pratos quentes, servíamos caviar com vodca e blinis, lagosta e foie gras, finalizado com queijo e sobremesa, com café e o melhor champanhe Don Pérignon ou equivalente”, disse Verschuere.

Foi essa rota que permitiu à British Airways passar a ter lucro com o Concorde. Nos anos 80 ela entendeu o apelo que o avião tinha e subiu os preços para o dobro do que costumava cobrar pela primeira classe nos aviões subsônicos.

Tendo apenas uma rota em atividade, a British passou a oferecer o resto da frota para voos charter que foram um sucesso! Com isso o Concorde chegou a mais de 250 destinos. Havia até excursões de um dia saindo de Londres para o Cairo, algo só possível com um avião como o Concorde.

Com essa virada o Concorde operou no azul até o acidente do voo AF-4590 e também nos últimos meses antes da aposentadoria, pelo menos do lado britânico. No lado francês não há relatos de que o avião deu algo além de prejuízo.

Acidente do Concorde voo Air France 4590

Em 25 de julho de 2000, um dos Concordes da Air France teve um acidente fatal, caindo em um hotel pouco depois de decolar, matando 109 pessoas a bordo e mais 4 no em solo.

Apesar da versão oficial apontar como culpada uma peça que caiu de um DC-10 da Continental que decolou poucos minutos antes para o mesmo destino, diversas investigações independentes apontam que a causa mais provável foi uma sequência de erros que veio desde a manutenção até às decisões tomadas pela cabine de comando. Se tiver interesse em saber mais sobe o assunto, o resumo feito pelo site Heritage Concorde é super detalhado.

O acidente do Concorde da Air France deixou 113 mortos. Foto: Acervo O Globo.

Logo após o acidente, tanto Air France como British Airways cessaram todos os voos com o Concorde, enquanto a investigação sobre as causas seguia seu curso. Com o inquérito terminado, diversas modificações foram feitas para aumentar a segurança do avião, dentre elas novos pneus e um reforço de Kevlar para os tanques de combustível.

Com as alterações o Concorde voltou aos céus para obter sua re-certificação. Quase no fim do processo, um destes voos teste ocorreu entre Londres e Nova York no dia 11 de setembro de 2001, pousando poucos minutos antes dos atentados terroristas às torres gêmeas. E aí, o mundo mudou.

Fim da linha para o Concorde

Mesmo com os atentados, o Concorde retornou à atividade no dia 7 de novembro de 2001, com dois voos para Nova York. Um da British Airways saindo de Londres e um da Air France saindo de Paris. Porém, o seu público não estava mais disposto a voar.

As pessoas ficaram com medo de voar e com isso a ocupação de todos os voos caiu vertiginosamente, só voltando aos números de antes dos atentados em julho de 2005.

A situação piorou quando em 2003 a Airbus, então responsável pela manutenção do Concorde, informou que seriam £ 40 milhões em manutenção para que o avião pudesse seguir em atividade.

Com isso, em 10 de abril de 2003, saiu o anúncio oficial que as duas companhias não iriam mais voar com o Concorde depois de outubro daquele ano. A Air France inclusive acabou antecipando a data, sendo que seu último voo ocorreu em 31 de maio de 2003.

Já a British, que aproveitou o aumento da procura pelos últimos voos do Concorde, e manteve o avião voando lotado até o dia 24 de outubro de 2003. Seu último voo (BA002) saiu do aeroporto John F. Kennedy em Nova York e fez seu pousou no aeroporto de Heathrow em Londres sob o som do aplauso de uma multidão que se reuniu para dar o adeus ao Concorde.

O rival soviético Tupolev Tu-144

Durante os anos 60 e 70 o mundo vivia o clima ferrenho da Guerra Fria, com as potências mundiais vigiando cada passo das demais e tentando conquistar a primazia de qualquer tecnologia nova.

O presidente soviético Khrushchev, vendo que o projeto europeu do avião supersônico caminhava a passos largos, ordenou que a KGB descobrisse tudo que pudesse sobre o Concorde.

Em 1965 a França prendeu o espião russo Sergei Pavlov por obter informações privilegiadas do projeto supersônico. Em 1968, poucos meses antes do primeiro voo de teste do Concorde, outro espião soviético foi preso pelo mesmo motivo. E sabe-se lá quantos outros espiões conseguiram obter informações sem serem presos.

O fato é que o Tupolev TU-144 é tão parecido com o Concorde que foi jocosamente apelidado de “Concordski”. Com as informações obtidas de forma ilegal, foi possível realizar seu primeiro voo teste em 31 de dezembro de 1968, três meses antes do primeiro voo teste do Concorde. E o avião soviético foi o primeiro a atingir a velocidade supersônica (2 vezes a velocidade do som) em junho de 1969 – algo que o Concorde só conseguiu em outubro do mesmo ano.

Tupolev TU-144 – o rival soviético do Concorde

Com o acidente em 1973 a situação do TU-144 só se sustentou por questões políticas, e o projeto foi adiante. Os primeiros voos “comerciais” do TU-144 ocorreram em 1975, mas eram essencialmente voos de teste, já que ao invés de passageiros levavam apenas correspondência. Foi só em 1977 que o avião soviético fez seus primeiros voos com passageiros.

Mesmo com os anos de desenvolvimento, o avião ainda continha falhas terríveis: os painéis do teto tinham frestas, os carrinhos de serviço empacavam no apertado corredor, as persianas das janelas caiam sozinhas, a configuração de 5 assentos por fileira era apertadíssima, nem todos os banheiros funcionavam e havia um problema ainda maior: o barulho a bordo era tão ensurdecedor que os passageiros se comunicavam através de bilhetes.

Ainda mais apertado que o concorde, o Tupolev TU-144 tinha cinco assentos por fileira

Com problemas de sobra, uma conta para os cofres públicos que parecia infinita, o fim foi marcado por outro acidente. Em 1978 um TU-144 caiu durante um voo de teste, marcando o fim do projeto soviético. Ao todo o TU-144 realizou 102 voos comerciais, sendo apenas 55 com passageiros a bordo e nessa curta trajetória teve 220 panes, sendo 80 delas críticas.

Air France – Concorde “Pepsi”

Em meados da década de 90 a Pepsi buscava se reposicionar no mercado, lançando uma nova marca e novos produtos. Querendo causar o maior impacto possível, a Pepsi procurou os dois operadores do Concorde, British Airways e Air France, com a proposta de pintar um avião com as novas cores da marca. A companhia francesa topou a parceria, mas não pense que foi tão simples como pintar o avião e sair voando!

Havia um motivo para todos os Concorde serem pintados de branco: a temperatura. A aprovação do fabricante veio, mas com a ordem de manter as asas pintadas de branco, pois abaixo estavam os tanques de combustível.

A Air France também recebeu o conselho de permanecer voando na velocidade máxima (Mach 2,02) por no máximo 20 minutos. Foram necessários 200 litros de tinta e 2 mil horas de trabalho para concluir a tarefa.

Foram 16 voos pelo mundo ao total, incluindo o voo de Paris para Londres onde o avião foi revelado ao público em uma festa lotada de celebridades. O resultado ficou lindo demais!

Curiosidades do Concorde

  • O Concorde podia voar até 60 mil pés de altitude (18.288 metros), muito acima das nuvens de tempestade, correntes de ar e outros aviões. Assim, praticamente não sofria turbulência;
  • Voando tão alto, os passageiros podiam ver a curvatura da terra;
  • Devido ao intenso calor provocado ao voar em velocidade supersônica, o Concorde se expandia de 6 a 10 polegadas durante o voo, e era possível sentir o calor ao tocar as janelas no final do voo;
  • Em 27 anos de atividade, o Concorde fez 50 mil voos e transportou 2,5 milhões de passageiros;
  • No início dos voos do concorde não só era permitido fumar a bordo, como aos passageiros eram oferecidos charutos cubanos como parte do serviço de bordo;
  • Para demonstrar a rapidez do Concorde, a Air France fez uma jogada de marketing genial em 1985. Decolaram ao mesmo tempo de Boston um Concorde e de Paris um 747. O Concorde voou para Paris, reabasteceu e voltou para Boston, chegando 11 minutos antes da chegada do 747;
  • No Live Aid de 1985 o cantor Phil Collins tocou no show de Londres, pegou um voo em um Concorde para chegar a tempo de tocar no show de Nova York. Tudo isso no mesmo dia.

O Concorde decolou de Boston, foi a Paris e voltou a Boston, pousando 11 minutos antes do 747, que havia feito Paris-Boston. Eles decolaram ao mesmo tempo mas em cidades diferentes.


Será que um dia teremos novamente aviões supersônicos? O que achou da história do Concorde? Será que temos algum leitor que teve a oportunidade de voar em um Concorde? Deixe seu comentário!

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