Será? Governo da Rússia volta a levantar possibilidade de voos diretos para o Brasil
Será? Governo da Rússia volta a levantar possibilidade de voos diretos para o Brasil
O governo da Rússia voltou a falar neste mês sobre a possibilidade de voos diretos para o Brasil. Em declarações publicadas pela agência de notícias russa Interfax, o ministro do Transporte, Andrei Nikitin, disse que a iniciativa “depende amplamente dos colegas brasileiros”.

As falas aconteceram durante a visita do primeiro-ministro russo Mikhail Mishustin ao Brasil para reuniões da Comissão de Cooperação de Alto Nível Rússia-Brasil.
“Propusemos ao lado brasileiro o lançamento de voos diretos. Estamos prontos para criar as condições mais favoráveis possíveis na Rússia para as companhias aéreas brasileiras e, de modo geral, esse é um dos temas na agenda.”
Nikitin, porém, afirmou que é muito cedo para dizer quando os voos vão começar. “Estamos prontos para começar a qualquer momento […]. Nossos colegas [brasileiros] deveriam decidir e parar de temer algumas restrições […]. Eles estão, é claro, com medo de riscos de sanções, mas muitos russos voam para cá, e brasileiros voam para a Rússia, e portanto eu espero que possamos avançar.”
É a primeira vez que Brasil e Rússia discutem voos diretos?

Além de não existir nada definido neste momento, não é a primeira vez que a Rússia sugere voos para o Brasil em tempos recentes. Em dezembro de 2024, o governo russo incluiu verbalmente o nosso país em uma lista de possibilidades que incluía também a Malásia e o Paquistão.
As tentativas, portanto, não são novas, e até agora têm se mostrado infrutíferas. Fato é, porém, que a Rússia tem buscado explorar novos mercados em um momento em que enfrenta uma série de sanções econômicas por conta da invasão da Ucrânia em 2022. Países do grupo do Brics, que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, entre outros, têm sido prioritários.

No fim do ano passado, o embaixador brasileiro na Rússia Sergio Rodrigues dos Santos afirmou à agência de notícias TASS que o Brasil poder ser um “hub” para turistas russos para outros países da América Latina. Ele disse que o lançamento desses voos estava em discussão em “nível intergovernamental”.
“Teoricamente, um voo direto pode não só trazer passageiros para o Brasil, mas servir de trânsito para outros países da América do Sul, usando Rio de Janeiro ou São Paulo como hubs”, afirmou o embaixador.
Brasil pode ter voos diretos para a Rússia?
Neste momento, a possibilidade de voos diretos do Brasil para a Rússia é remota por várias questões relacionadas, sobretudo, às sanções econômicas que já mencionamos por conta da invasão da Ucrânia.
Além disso, a sugestão de que a operação seja feita por companhias aéreas brasileiras também esbarra em diversos obstáculos.

Em primeiro lugar, vale olhar para a frota. A Gol não tem aviões com alcance suficiente para voos diretos do Brasil para a Rússia. A Azul e a Latam, por sua vez, têm aviões capazes de operar voos sem escalas do Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, para Moscou, como o A330-900neo (Azul), o Boeing 777 e o Boeing 787 (Latam), mas é necessário considerá-los com ressalvas.
De acordo com as especificações básicas de Airbus e Boeing, o A330-900neo tem alcance de 13.612 km, enquanto o 787 voa de 13.530 a 14.010 km e o 777 percorre 13.650 km sem paradas. A distância entre São Paulo e Moscou é de cerca de 11.767 km, enquanto a partir de uma cidade como Fortaleza, por exemplo, o trajeto é de aproximadamente 9.485 km.

Essas aeronaves, no entanto, precisariam decolar perto de seu peso máximo, especialmente por conta do combustível, dada a distância entre os países. Esse cenário pode gerar restrições de carga ou de passageiros, o que torna a operação menos atrativa do ponto de vista de receita. Além disso, eventuais desvios de rota também podem prejudicar a operação.
Outro problema passa pelo fato de que Airbus e Boeing não estão fazendo negócios com a Rússia neste momento. Por isso, peças para manutenção chegam com mais dificuldade ao território russo, por meio de mercados secundários ou indiretos.
A ausência de um suporte oficial em caso de necessidade na Rússia pode representar um risco para as companhias aéreas, o que pode desmotivar uma ligação direta.

Também cabe mencionar a questão do espaço aéreo. Atualmente, a Europa e os Estados Unidos proíbem, desde 2022, voos de companhias aéreas russas de/para seus territórios. Em retaliação, a Rússia fechou o seu espaço aéreo para o tráfego de empresas europeias e norte-americanas.
Companhias aéreas de outros países, porém, podem operar voos para a Rússia ou para a Europa passando pelo espaço russo. É o caso, por exemplo, de empresas da Ásia e do Oriente Médio.