Exclusivo! Rio de Janeiro negocia voos com 4 novas companhias internacionais, mas esbarra na crise do petróleo
Exclusivo! Rio de Janeiro negocia voos com 4 novas companhias internacionais, mas esbarra na crise do petróleo
A prefeitura do Rio de Janeiro está negociando a operação de novos voos com ao menos quatro companhias aéreas internacionais. No radar estão Aeromexico, Ethiopian, Turkish Airlines e uma empresa chinesa, segundo o presidente da Invest.Rio, Sidney Levy, em entrevista ao Melhores Destinos.
A ofensiva do braço de atração de investimentos da prefeitura é mais uma etapa da tentativa de ampliar a internacionalização do Aeroporto do Galeão, que ganhou mais tração depois do anúncio dos voos da Gol para Nova York, Paris, Lisboa e Orlando. Há, porém, um grande empecilho: a crise do petróleo.

“Nesse exato momento, todas as nossas ofertas estão em banho-maria por causa do aumento do querosene da aviação. Então, esse não é um bom momento para nós, porque todo mundo está dando um passo atrás”, afirmou Levy.
Desde o início da guerra no Oriente Médio e dos impactos no Estreito de Ormuz, controlado pelo Irã e por onde passa 20% da produção global de petróleo, o preço da commodity passou de US$ 100 o barril, o que também fez disparar o valor do combustível de aviação. Esse cenário tem feito muitas empresas cortarem voos e deixarem alguns planos para depois.

Atualmente, na visão do presidente da Invest.Rio, atrair novas companhias aéreas é o pilar mais sensível de todo o ecossistema que precisa ser colocado de pé para atrair visitantes ao longo de todo o ano. Além de mais aviões pousando e decolando no Galeão, a prefeitura está tentando ampliar a rede hoteleira e criar um calendário de eventos de janeiro a janeiro para sustentar a demanda.
Turkish Airlines, Aeromexico e Ethiopian já operam no Brasil. Entretanto, pousam e decolam por meio do Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo.
Em relação à companhia aérea chinesa, cujo nome Levy pediu para não ser revelado por conta das tratativas, ele afirma que é a negociação “mais complicada” entre todas as propostas que estão na mesa ao redor do mundo.
Entre os aspectos que envolvem as conversas com os chineses, a isenção de visto brasileiro, anunciada recentemente pelo governo brasileiro, pode ser um argumento positivo para que a rota eventualmente saia do papel.

“Eu acho que [a isenção de visto] é algo que o Brasil devia encarar realmente. Acertou em abrir mão dos chineses, tem que abrir mão dos Estados Unidos também, na minha opinião. Mas aí vai ter que abrir mão do conceito da reciprocidade [no caso americano]”, destacou Levy.
Norte-americanos recusaram novos voos para o Rio de Janeiro
Nos Estados Unidos, as portas se fecharam rapidamente. “A gente fez uma oferta para a American Airlines [ampliar voos], ela recusou”, afirmou o chefe da Invest.Rio. “E aí começamos a oferecer às outras americanas, ninguém quis fazer, porque tem o hub [centro de operações] de Guarulhos, a Latam tem o hub de Guarulhos”.
Uma das intenções era abrir uma linha direta para São Francisco, na costa oeste do país.

Não à toa, a preferência por São Paulo continua forte. A partir da capital paulista, várias companhias aéreas internacionais conseguem captar mais passageiros por meio de conexões de outras partes do nosso país.
Os números evidenciam o tamanho da diferença entre Guarulhos e o Galeão. Segundo dados da GRU Airport, concessionária do terminal internacional da capital paulista, houve 85.111 movimentos de pousos e decolagens internacionais no ano passado. No Rio, foram 34.542, de acordo com a RIOgaleão, administradora do aeroporto fluminense.

Questionado sobre o motivo de voos para os Estados Unidos serem apenas sazonais no Rio, geralmente de outubro a março, Levy afirmou que ouviu das aéreas norte-americanas que a prioridade de março a outubro é o tráfego para a Europa. As aeronaves acabam alocadas para o verão do outro lado do Atlântico, o que reduz oportunidades no Brasil.
Programa de incentivos é uma das estratégias da prefeitura
Como acontece em muitos aeroportos ao redor do mundo, uma das formas de atrair novas companhias aéreas e novas rotas é por meio do dinheiro. No caso do Rio, a estratégia passa pelo programa “Novas rotas”.

“A gente fez um programa oficial da prefeitura chamado ‘Novas Rotas’, em que nós damos um incentivo. E a Gol, então, respondeu, se entusiasmou e acabou fazendo os quatro destinos”.
No caso da aérea brasileira, a administração municipal reservou cerca de R$ 6 milhões, que, segundo Levy, só serão usados caso a companhia não alcance o breakeven da operação para Nova York. O breakeven acontece quando a receita total de um negócio ou operação se iguala aos custos totais.
“[O incentivo] é uma mitigação do risco inicial. Não é dinheiro para sempre”, afirmou o líder da Invest.Rio.

No caso das companhias aéreas internacionais, a prefeitura também tem colocado incentivos financeiros na mesa, mas em menor volume do que em comparação ao que foi oferecido à Gol.
“Porque a empresa, quando compara as rotas, se tem alguém que dá um empurrãozinho, ele testa ali primeiro. Porque ele também não sabe o resultado da rota. […]. Você tem uma previsão, você tem um estudo”, explicou Levy.
Qatar Airways não tem planos de voar para o Rio

Enquanto busca o tão sonhado “sim” ao redor do mundo, algumas companhias já disseram “não” ao Rio de Janeiro. É o caso da Qatar Airways, que, neste momento, descarta a possibilidade de desembarcar no Galeão. “A Qatar não quer vir. Eu já falei com eles, não querem [operar no Rio]”, afirmou Levy.
Um dos motivos, mais uma vez, é Guarulhos. A Qatar é uma grande parceira da Latam, que mantém um grande volume de operações em São Paulo. Não à toa, a aérea do Oriente Médio chegou a ter três voos por dia (21 semanais) entre Doha e a capital paulista antes de estourar a guerra no Oriente Médio.

Agora, a companhia está em fase de reestruturar a sua malha aérea, e, em junho, deve chegar a 18 semanais entre o Brasil e o Catar. Com o apoio da Latam, a companhia consegue alimentar seus voos por meio da conectividade da aérea brasileira em Guarulhos.
Aena no Galeão: voos Congonhas-Paris?
Outro tema abordado na entrevista do Melhores Destinos com Sidney Levy diz respeito à chegada da operadora de aeroportos Aena ao Galeão. Depois de anos de uma operação claudicante, agravada por uma crise econômica após a Copa e Olimpíada e uma pandemia, o terminal receberá a nova administradora ainda neste ano.

A Aena é o maior operador aeroportuário do mundo em número de passageiros. Sediada na Espanha, onde administra 46 aeroportos, a companhia também atua em países como Reino Unido, México e Colômbia. No Brasil, o grupo gerencia o aeroporto de Congonhas, em São Paulo, e outros 16 terminais no Sudeste, Nordeste, Norte e Centro-Oeste.
Esse portfólio pode abrir um leque de oportunidades para o terminal fluminense. Uma das possibilidades é a ampliação da rota Congonhas-Galeão, o que incluiria até mesmo uma ligação Congonhas-Paris.
“O nosso sonho dourado é o dia em que a Aena conseguir fazer o São Paulo-Paris via Galeão, saindo de Congonhas”, disse o presidente da Invest.Rio.

Neste caso, estamos falando, por exemplo, de um passageiro que embarca em um voo da Gol no Boeing 737 de Congonhas para o Galeão para depois entrar no Airbus A330 que a companhia usará nas novas operações internacionais.
Atualmente, a maioria das ligações Rio-São Paulo acontece entre os aeroportos de Congonhas e Santos Dumont – cenário que não deve mudar. Mas a conexão entre as cidades pode ganhar mais destaque via Galeão com a entrada da Aena.
Chegada e saída do Galeão ainda é entrave
Assunto recorrente no Rio de Janeiro, as formas de chegada e saída do Galeão ainda são escassas em comparação a outras grandes cidades do mundo. Hoje, as opções são táxi, carros de aplicativo e ônibus. Uma reportagem recente do jornal O Globo, inclusive, denunciou o “assédio” de pessoas que oferecem serviços de transporte no terminal.

A alternativa mais imediata para o Rio deverá ser aquática. Sem dar muitos detalhes, Levy afirmou que a prefeitura está “estudando muito intensamente” a criação de uma barca entre os aeroportos Santos Dumont e Galeão. A implementação do serviço seria em parceria com um investidor europeu.
Segundo o chefe da Invest.Rio, a barca poderá transportar 300 passageiros por hora, com saídas que acontecerão a cada 20 minutos.

Essa é mais uma tentativa de criar modais alternativos para o Galeão. Anteriormente, a administração local já havia trabalhado com projetos de barcas e até mesmo de transporte sobre trilhos. Nenhuma das iniciativas, no entanto, saiu do plano das ideias.
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Mateus Tamiozzo
Sou jornalista com 10 anos de experiência em aviação - e completamente apaixonado por tudo o que envolve aviões e aeroportos. No Melhores Destinos, fico bem de olho nas companhias aéreas e na movimentação sempre intensa do setor, tudo para levar a você informações úteis e atualizadas.
Na bagagem, 26 países, incluindo a Coreia do Norte, e 17 companhias aéreas. E é só o começo!