Guerra no Oriente Médio: por que o aumento no preço do petróleo afeta tanto as companhias aéreas?
Guerra no Oriente Médio: por que o aumento no preço do petróleo afeta tanto as companhias aéreas?
Nos últimos dias, o preço do petróleo teve diversos solavancos. Em razão da guerra no Oriente Médio e da preocupação com o escoamento da produção da commodity na região, o que reduz a oferta, o valor do barril já ultrapassou a marca de US$ 100. Isso não acontecia desde meados de 2022, no contexto da forte retomada das economias após a pandemia.

Esse sobe e desce da cotação, e particularmente a manutenção de preços em patamares mais elevados, tem impacto direto na operação de todas as companhias aéreas ao redor do mundo. Veremos alguns desses aspectos na sequência deste post.
O petróleo é especialmente sensível ao que acontece no Oriente Médio porque pelo Estreito de Ormuz – uma passagem marítima que separa Irã e Emirados Árabes Unidos – trafega 20% da produção mundial da commodity. E, praticamente desde o início da guerra, o trecho está fechado para a circulação de navios.

Por isso, com a oferta reduzida, a tendência natural é a de aumento dos preços, exatamente o que vem acontecendo desde então. Para tentar segurar a cotação, os 32 países que integram a Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês) vão liberar 400 milhões de barris de petróleo de suas reservas de emergência. O Brasil não integra o grupo.
“Os desafios que estamos enfrentando no mercado de petróleo são sem precedentes em escala”, afirmou o diretor-executivo da IEA, Faith Birol”. “O mercado de petróleo é global, portanto a resposta a grandes interrupções também precisa ser global”, afirmou.
Baixe o aplicativo do Melhores Destinos e receba em primeira mão as melhores ofertas e promoções de passagens aéreas!
Quais são os impactos da menor oferta de petróleo para a aviação?

Assim como no caso de outros combustíveis, o petróleo é a matéria-prima do querosene de aviação (QAV). O líquido que ajuda a mover os aviões representa nada menos do que 30% dos custos das companhias aéreas, o que acende um alerta imediato quando o preço da commodity avança substancialmente.
A Associação Brasileira das Companhias Aéreas (Abear) afirmou que a indústria observa com preocupação a escalada do preço do barril do petróleo nos últimos dias devido aos conflitos internacionais. Segundo a entidade, as oscilações no preço do QAV tendem a pressionar os custos operacionais e o equilíbrio do mercado, “prejudicando o acesso da população ao transporte aéreo”.
Em outras palavras, estamos falando de um potencial aumento no preço das tarifas aéreas ao redor do mundo, incluindo o Brasil, e cancelamentos de voos.

Segundo o professor Amando Furtado, do curso de Aviação Civil da Universidade Anhembi Morumbi, o aumento nos custos totais das companhias aéreas pode ficar em torno de 5% a 10% no curto prazo, considerando a participação do combustível nos custos das empresas e o fato de que o petróleo subiu até 58% em algumas regiões desde o início do conflito.
“Em termos absolutos, grandes companhias aéreas como United ou Delta podem enfrentar custos adicionais de US$ 1 a 2 bilhões por trimestre se os preços persistirem”, afirma o professor.
O impacto para o setor é imediato?

O impacto só não é imediato para todas as companhias aéreas devido a hedges (contratos futuros) que cobrem de 70% a 80% do consumo de combustível para o primeiro e o segundo trimestres do ano.
O combustível usado agora, por exemplo, em muitos casos foi negociado meses atrás a preços mais baixos do que o praticado atualmente. Isso não impede, porém, que o valor das passagens aéreas suba neste momento, o que já tem acontecido (confira mais na próxima seção deste post).
“Se o conflito se prolongar além de abril, o efeito será sentido nos próximos meses, com renovação de contratos a preços mais altos”, explica Furtado.
Passagens aéreas podem ficar mais caras? Voos fora do Oriente Médio podem ser cancelados?

A tendência natural, e que se repete em praticamente todos os setores da economia, é que esses custos mais elevados sejam repassados para os consumidores na forma de passagens aéreas mais caras. As companhias aéreas Azul, Gol e Latam já sinalizaram publicamente que essa é uma possibilidade.
“Espera-se um aumento de 10% a 20% na tarifa média em rotas internacionais e longas, com exemplos atuais de voos da Ásia para Europa subindo até 30% a 40%”, explica Furtado. No Brasil, as companhias aéreas podem ajustar tarifas em rotas afetadas por combustível importado.
Na nossa região, a Aerolíneas Argentinas já está aplicando uma taxa extra aos passageiros para amenizar os custos inesperados com combustível. De acordo com a companhia aérea, o valor adicional é de 7.500 pesos por trecho (em torno de R$ 28 na cotação de hoje). Para voos internacionais, a cobrança é de US$ 10 a US$ 50 por trecho (R$ 52 a R$ 261).
Na Europa, a Air France e a KLM já aumentaram o preço de passagens para voos de longa distância (o que inclui o Brasil). Na classe econômica, o bilhete pode ficar € 50 (cerca de R$ 300) mais caro por cada viagem de ida e volta. Segundo as companhias, “o atual contexto geopolítico no Oriente Médio tem provocado um aumento significativo e repentino nos preços dos combustíveis, afetando especialmente o querosene de aviação.”

Além disso, revisões de malhas aéreas são comuns em crises de combustível. Estimativas da Cirium apontam que cerca de 40 mil voos para o Oriente Médio já foram cancelados desde o início da guerra. Outras rotas menos rentáveis em outras regiões também podem ser eventualmente suspensas para reduzir custos e priorizar eficiência.
Como as companhias aéreas podem aliviar o impacto da alta do petróleo?

As companhias aéreas podem adotar algumas estratégias, com maior ou menor efeito, para serem menos chamuscadas pela crise atual do petróleo. O professor da Anhembi Morumbi aponta cinco saídas principais:
- Hedging com contratos futuros e opções para fixar antecipadamente preços (já adotado por 60-80% das grandes aéreas);
- Otimização de rotas e carga de combustível via análises avançadas (reduzindo reservas em até 3 a 5%);
- Operações de descida contínua (CDO, na sigla em inglês), quando a aeronave desce para o pouso com potência mínima e sem nivelamentos intermediários, ajudam a economizar de 2% a 5% de combustível;
- Aumento de eficiência com aeronaves mais modernas, o que já vem sendo feito gradualmente por várias empresas ao redor do mundo;
- Ajustes em tarifas e capacidade para equilibrar demanda.
O que vai acontecer quando a crise atual terminar?

Ainda não se sabe exatamente quando a guerra no Oriente Médio vai acabar, mas a tendência é que o mercado se acalme e os preços do petróleo caiam rapidamente após o fim do conflito. Segundo Furtado, o efeito pode ser imediato, em questão de dias a semanas, se o tráfego de navios for restaurado, “mas demoraria meses para estabilizar se houver danos em infraestrutura”.
Mesmo com o encerramento da guerra, os indicadores financeiros das companhias aéreas não devem escapar de números ruins nos relatórios referentes ao segundo trimestre (abril a junho) deste ano.

Na visão de Furtado, espera-se um aumento de 20% a 30% nas despesas com combustível, reduzindo margens de lucro em 5% a 10%, bem como uma queda no lucro atribuído por ação.
Os custos totais adicionais podem ficar entre US$ 5 e 6 bilhões para as principais companhias aéreas dos Estados Unidos, isso sem falar na possível retração na demanda de viagens, o que deve afetar as receitas financeiras das empresas do setor. Esse impacto, embora menor, também pode ser sentido por Azul, Gol e Latam.
Mateus Tamiozzo
Sou jornalista com 10 anos de experiência em aviação - e completamente apaixonado por tudo o que envolve aviões e aeroportos. No Melhores Destinos, fico bem de olho nas companhias aéreas e na movimentação sempre intensa do setor, tudo para levar a você informações úteis e atualizadas.
Na bagagem, 26 países, incluindo a Coreia do Norte, e 17 companhias aéreas. E é só o começo!