Preço e escassez de combustível podem forçar companhias europeias a cancelar voos a partir de abril
Preço e escassez de combustível podem forçar companhias europeias a cancelar voos a partir de abril
Companhias aéreas da Europa já se preparam para cancelamentos de voos a partir do mês que vem em rotas que não envolvem o Oriente Médio. As medidas, se tomadas, ocorrem em meio à escalada do preço do petróleo em razão da guerra entre Israel, Estados Unidos e Irã e a escassez da commodity, matéria-prima do combustível de aviação, o principal custo do setor.

Atualmente, 20% da produção mundial de petróleo passa pelo Estreito de Ormuz, controlado pelo Irã e que está parcialmente fechado. O espaço está atualmente no centro das atenções do conflito por conta de sua importância e dos impactos que já provoca ao redor do mundo.
Quais são as preocupações da Europa?
Lideranças de companhias do continente falam em dificuldades de obter garantias de combustível a partir do próximo mês, segundo reportagem do Financial Times. Em entrevista ao jornal, o CEO do Grupo Air France-KLM, Benjamin Smith, disse que a empresa está “elaborando planos […] sobre como lidaríamos com a escassez de combustível”.

Isso inclui o cancelamento de rotas para a Ásia por dificuldades de reabastecimento na região para os voos de retorno à Europa. O Sudeste Asiático é muito mais dependente do petróleo do Oriente Médio, por exemplo, do que a Europa.
“Nós conseguimos combustível saindo da Europa, mas quando vamos para uma cidade do Sudeste Asiático, nós não teremos como trazer o avião de volta. Se não há combustível, você não pode voar”, disse Smith.
O Vietnã, por exemplo, já alertou para a possibilidade de que voos de e para o país terão de ser limitados em um futuro próximo caso a crise continue.

O CEO da low cost EasyJet, Kenton Jarvis, disse que fornecedores de combustível já não estão fornecendo informações sobre disponibilidade de combustível para além do próximo mês. Especialistas ouvidos pelo Financial Times afirmam que a escassez de combustível em algumas partes do mundo vai ser inevitável.
Por outro lado, o CEO da também low cost Ryanair, Michael O’Leary, disse que a empresa, que voa apenas na Europa e norte da África, não espera escassez de combustível nos próximos dois meses, considerando as condições atuais do mercado.
Quais companhias aéreas podem sofrer mais?
A consequência mais imediata fica para as companhias que não praticam o chamado hedge na compra de combustível – uma compra a um preço fixo para entrega posterior. Por exemplo, uma empresa que adquire combustível em janeiro, a preços praticados na época, para entrega em abril. Assim, ficam mais protegidas no caso de choques como o que está acontecendo atualmente.

Neste sentido, e em uma das atitudes mais drásticas até aqui, a Scandinavian Airlines (SAS), que integra o Grupo Air France-KLM, disse na semana passada que vai cancelar cerca de 1.000 voos por conta do preço do combustível. A companhia aérea escandinava não pratica o hedge.
Empresas já repassam custos aos passageiros
Na América do Sul, a Aerolíneas Argentinas já está aplicando uma taxa extra aos passageiros para amenizar os custos inesperados com combustível. De acordo com a companhia aérea, o valor adicional é de 7.500 pesos por trecho (em torno de R$ 28 na cotação de hoje). Para voos internacionais, a cobrança é de US$ 10 a US$ 50 por trecho (R$ 52 a R$ 261).

Na Europa, a Air France e a KLM já aumentaram o preço de passagens para voos de longa distância (o que inclui o Brasil). Na classe econômica, o bilhete pode ficar € 50 (cerca de R$ 300) mais caro por cada viagem de ida e volta.
Segundo as companhias, “o atual contexto geopolítico no Oriente Médio tem provocado um aumento significativo e repentino nos preços dos combustíveis, afetando especialmente o querosene de aviação.”
Qual é a situação do Brasil?
Por aqui, a situação tende a não ser tão grave, mas requer atenção. O Brasil não depende diretamente do petróleo do Oriente Médio, e 80% do combustível de aviação (QAV) é produzido internamente, segundo dados da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear).
A escassez, portanto, não é necessariamente um problema. Por outro lado, há uma expectativa de que a Petrobras suba os preços do QAV nos próximos dias. Atualmente, o preço médio de venda da Petrobras para as distribuidoras é de R$ 3,58/litro.

(Foto: Reuters)
A Petrobras afirma que, no acumulado desde dezembro de 2022, reduziu os seus preços de QAV em 29,5%, equivalente a um decréscimo de R$ 1,50/litro. Considerando a inflação no período, essa redução é de 38,6%.
As companhias aéreas Azul, Gol e Latam já manifestaram que acompanham de perto os impactos da guerra no mercado nacional, e estão em contato com o governo para buscar medidas que mitiguem eventuais impactos financeiros. Assim como em outras partes do mundo, há o temor de cancelamento de rotas e aumento no preço das passagens.

Na semana passada, o Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) confirmou que está conversando com o Ministério da Fazenda para a adoção de medidas para segurar o preço das passagens e garantir as operações.
Um documento elaborado pela Secretaria Nacional de Aviação Civil (SAC), subordinada ao MPor, reúne sugestões como a redução temporária de impostos incidentes sobre o querosene de aviação (QAV), redução do IOF sobre operações financeiras das empresas aéreas e do Imposto de Renda sobre operações de leasing (aluguel) de aeronaves.
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Mateus Tamiozzo
Sou jornalista com 10 anos de experiência em aviação - e completamente apaixonado por tudo o que envolve aviões e aeroportos. No Melhores Destinos, fico bem de olho nas companhias aéreas e na movimentação sempre intensa do setor, tudo para levar a você informações úteis e atualizadas.
Na bagagem, 26 países, incluindo a Coreia do Norte, e 17 companhias aéreas. E é só o começo!