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O que esperar da parceria entre Azul e Latam? Confira a nossa análise!

Leonardo Cassol
Leonardo Cassol
16/06/2020 às 15:26

O que esperar da parceria entre Azul e Latam? Confira a nossa análise!

Hoje o Brasil foi surpreendido com o anúncio do compartilhamento de voos e de programas de fidelidade da Azul e da Latam. Em meio à grave crise provocada pelo coronavírus, duas concorrentes se tornaram parceiras no mercado nacional. Será que é o começo de algo mais sério, como uma fusão? Ou apenas uma parceria para atravessar a crise? Quais os impactos para os passageiros e para o preço das passagens aéreas? E a Gol, como deve reagir? Confira a nossa análise inicial sobre essa impactante novidade.

O que está nas entrelinhas do comunicado conjunto da Azul e da Latam

A Azul e a Latam anunciaram uma integração dos programas de fidelidade, que em breve vai permitir o acúmulo e o resgate de pontos de voos de qualquer uma das duas empresas por ambos os programas. Além disso, um compartilhamento de voos (codeshare), inicialmente em 50 rotas domésticas não sobrepostas de/para Brasília (BSB), Belo Horizonte (CNF), Recife (REC), Porto Alegre (POA), Campinas (VCP), Curitiba (CWB) e Guarulhos (GRU).

Nesse tipo de acordo, as empresas têm autonomia para definir suas malhas aéreas, mas comercializam os voos uma das outras, nas rotas em que o acordo for implementado. Ou seja, com uma passagem da Azul você pode acabar num voo operado pela própria empresa, ou da parceria, e vice-versa. Mas, será que é só isso???

As evidências mostram que se trata de uma parceria de longo prazo. O comunicado enviado pelas duas companhias enfatiza que o compartilhamento de voos “INICIALMENTE” terá com 50 rotas. Claramente há uma intenção de expandi-lo. O mais óbvio seria cada empresa adicionar outras partes de suas rotas nacionais. Mas a cereja do bolo talvez seja a Latam conseguir acessar os mais de 50 destinos que a Azul opera sozinha, sem concorrência. E, para a Azul, alcançar a ampla malha internacional da Latam na América Latina e na Europa, além dos voos para os Estados Unidos e para a África do Sul.

O segundo ponto que precisa ser destacado é que se fosse somente um acordo operacional para otimizar as malhas durante a pandemia, a integração dos programas de fidelidade seria desnecessária. Ou seja, tudo indica que a coisa é séria! É pra valer! Não dá para dizer se tem uma fusão ou compra acertada por ambos os lados, mas claramente houve uma transformação da relação, onde concorrentes se tornaram parceiras. Se aproximaram, vão se conhecer melhor e ganhar intimidade operacional. Daí, as chances desse namoro caminhar para um casamento são grandes. Ou seja, por mais que neguem inicialmente, é razoável esperar por algum tipo de consolidação. Especulando, eu diria que o mais provável seria uma futura fusão. Mas não descarto uma parte comprar a operação da outra.

Hoje, numa rápida teleconferência com jornalistas feita após o anúncio da parceria, o presidente da Azul, John Rodgerson, descartou uma fusão com a Latam. Segundo ele, o acordo está em implementação e deverá estar disponível para os clientes em agosto. “O codeshare vai permitir que 60 cidades no Brasil sejam atendidas a partir de agosto… Mas queremos chegar a 200 rotas rapidamente.”, destacou Rodgerson. “A parceria é uma forma de ajudar a recuperar a malha aérea brasileira. É só uma forma de chegarmos a novos destinos”, despistou o executivo, já que os jornalistas questionavam sobre uma eventual fusão.

Já o CEO da Latam, Jerome Cadier, disse em entrevista a CNN Brasil que não descarta uma fusão com a Azul. “Se me perguntassem em janeiro se teríamos um codeshare com a Azul, eu certamente diria que não. Esse acordo foi feito em função dessa crise”, disse o executivo. E complementou: “negociações para uma eventual união são complexas e inviáveis neste momento, por causa da crise, enquanto esse tipo de acordo é bem mais simples”, ressaltou.

O acordo de codeshare não precisa de aprovação prévia do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Mas o órgão regulador pode pedir explicações por iniciativa própria, se considerar necessário.

Malhas aéreas da Azul e da Latam são complementares

De fato, as malhas aéreas da Azul e da Latam são bem complementares. Enquanto no Brasil a Azul concentra a maioria de seus voos e conexões em Campinas, Belo Horizonte e Recife, a Latam tem seus centros de operação (hubs domésticos) em Guarulhos e em Brasília. A Latam é ainda líder no aeroporto de Congonhas (SP), onde a Azul tem uma participação pequena. São poucas sobreposições e muitas sinergias, como fica claro no mapa de rotas das duas empresas antes da pandemia:

Já no mercado internacional, a Latam tem ampla vantagem sobre a Azul na quantidade de destinos e de rotas:

“Como vamos fortalecer as nossas malhas? Como podemos conectar mais cidades do Brasil? Essas são as perguntas a se fazer e, se respondidas favoravelmente, ambas as empresas vão se beneficiar”, informou o presidente da Azul na conferência.

Frotas da Azul e da Latam também são complementares

Além disso, com a parceria as empresas juntas vão contar com uma grande diversidade de frota para os voos domésticos.

A Azul opera o ATR-72, com capacidade para 70 passageiros, voltado para rotas regionais de baixa e média demanda. Já os aviões da Embraer podem transportar entre 106 a 136 passageiros. O Airbus A320neo e A321neo têm capacidade para 174 e 214 assentos, respectivamente, sendo utilizados pelas duas empresas. Tem ainda as aeronaves Grand Caravan, com capacidade para até 9 passageiros, que a Azul assumiu após adquirir a Two Flex. Ou seja, são aeronaves adequadas para operar em rotas com qualquer tipo de demanda, reduzindo as chances de terem que voar com aviões vazios, perdendo dinheiro durante o período em que a procura estiver reduzida, ou oscilante, como vemos agora.

“Quando a demanda é menor, usamos aviões de oito lugares. Quando há demanda grande, usamos aeronaves maiores. É um diferencial!”, ressaltou o presidente da Azul, na conferência com os jornalistas.

Já a GOL mantém uma frota padronizada de Boeing 737 (com capacidade para 138 ou 186 passageiros), o que por um lado reduz custos, como manutenção e treinamento e certificação de pilotos e tripulantes, mas por outro limita sua operação a destinos com uma demanda que comporte esse tipo de aeronave.

O que muda na prática para os passageiros? Qual o impacto no preço das passagens aéreas?

Juntas, Azul e Latam detinham mais de 60% do mercado de voos doméstico no Brasil antes da pandemia. No caso de uma fusão, se tornariam a maior empresa doméstica e o país passaria a ter apenas dois grandes concorrentes.

A parceria, por um lado, vai oferecer aos passageiros das duas empresas mais opções de voos e de conectividade, como destacaram seus presidentes. Isso pode ser especialmente importante nos próximos meses, quando é esperado um retorno gradual da demanda por viagens. Com apenas uma passagem e um único despacho de bagagem será possível fazer um voo da Azul e outro da Latam compartilhado na mesma viagem.

“Nossos passageiros poderão, por exemplo, voar até Brasília pela Azul e depois até Rio Branco com a Latam”, afirmou John Rodgerson, fazendo questão de indicar para os jornalistas que a Azul não voa para a capital do Acre.

Além disso, com a integração entre os programas de fidelidade TudoAzul e Latam Pass será possível escolher onde creditar os pontos da viagem e, também resgatar voos das parceiras usando pontos, como confirmou o presidente da Azul. Outra possibilidade é que seja possível ter os mesmos benefícios de passageiros frequentes com status nas duas empresas (isso ainda não foi confirmado, mas geralmente é o que ocorre nesse tipo de parceria).

Por outro lado, as empresas vão deixar de competir da mesma forma que antes, já que se tornaram parceiras. Ainda que no setor existam acordos de compartilhamento de voos entre concorrentes, é óbvio que a relação muda e que haverá uma integração de informações e esforços mútuos, com impacto para a concorrência.

O acordo vai permitir que as empresas cortem uma maior quantidade de rotas e de frequências, já que poderão contar com os voos uma da outra. É provável que tenhamos uma redução da oferta. Também deve desestimular a competição por preços nas rotas e horários onde Azul e Latam competem diretamente. Claro que o embate ainda vai se manter com a GOL. Mas aqueles destinos onde a Azul estava entrando e declarando guerra, como na ponte aérea Rio-SP, os novos voos em Brasília e algumas outras rotas em Congonhas e no Santos Dumont, isso podemos esquecer…

O fato é que com esse acordo Azul e Latam aumentam significativamente suas chances de sobrevivência em meio à crise provocada pelo coronavírus. E isso é bem melhor do que uma eventual quebra de uma das empresas. Mas, pensando nos consumidores, não é algo para comemorar!

Um efeito dessa mudança é que a pressão sobre a GOL vai aumentar. Depois de perder a parceria e o investimento da Delta para Latam, agora sofre outro golpe, vendo suas concorrentes se unirem. Será que uma fusão da GOL com a VoePass (fruto da união da Passaredo com a MAP) vem por aí? Será que a parceria com a American Airlines vai ficar mais séria? Certamente a empresa não vai ficar parada.

Por fim, vale relembrar que esse tipo ação não é inédita no mercado nacional. Quem aí se lembra do compartilhamento de voos (codeshare) da TAM com a Varig, que ocorreu em 2003 e 2004? A justificativa era evitar a quebra das duas empresas, mas acabou tendo efeitos colaterais, como a alta nos preços das passagens aéreas.

Vamos aguardar e acompanhar as novidades!

E você, o que acha que vai acontecer? Comente e participe!

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