O que esperar da aliança estratégica da Delta com a Latam? Confira como ela pode impactar você!

Leonardo Cassol
27/09/2019  ·  16:23Publicado 27 · set · 2019  ·  16:23Atualizado 4 · out · 2019

O que esperar da aliança estratégica da Delta com a Latam? Confira como ela pode impactar você!

O mundo da aviação foi surpreendido pelo acordo de compra de 20% do grupo Latam pela Delta Airlines. Isso inclui todas as operações do grupo no Brasil, Chile, Argentina, Peru, Colômbia e Equador. A companhia aérea norte-americana ainda anunciou que vai vender sua participação de 9% nas ações da GOL. E a Latam informou que pretende deixar a aliança Oneworld. Quais as possíveis implicações desse negócio para o mercado brasileiro e para os passageiros? Como ficam a GOL e a Smiles? O que vai acontecer com a Latam e com seu programa de fidelidade? Devemos nos preocupar ou comemorar? Estas são algumas das questões que abordamos neste post especial.

 

O que está por trás da aliança estratégica da Delta com a Latam?

Alguns especialistas em aviação acreditam que, dentro de uma década, existirão em torno de dez grandes grupos globais de companhias aéreas no mundo. A competição no setor acontecerá de forma global, com uma participação secundária de empresas regionais ou focadas em mercados específicos. Se isso for verdade, e até agora os fatos caminham nessa direção, ainda vamos assistir a muitos movimentos de fusões, aquisições e alianças estratégicas entre empresas aéreas.

A surpresa com a divulgação dessa nova aliança estratégica foi grande porque, até então, a Delta era não apenas acionista, mas uma super parceira da GOL. Já a Latam era aliada a American Airlines e juntas elas trabalhavam há alguns anos para montar uma Joint Venture (uma parceria mais ampla). No entanto, deixando as emoções e os relacionamentos pregressos de lado, é possível entender com mais clareza esse movimento, um importante passo da Delta para reforçar sua presença como um dos principais grupos da aviação mundial.

A Delta tem participações relevantes nas seguintes empresas: Air France, KLM, Aeroméxico, Virgin Atlantic, China Eastern e Korean Air. Além disso, negocia a compra de uma fatia da Alitalia. Isso mostra bem seu apetite e ambição em âmbito global. Agora, vejam: trocando a GOL pela Latam, a Delta sai de uma escala nacional (a GOL é muito relevante no mercado brasileiro, mas inexpressiva no mercado internacional) e ganha uma presença enorme no continente sul-americano como um todo, justamente onde uma de suas principais concorrentes era muito forte (a United Airlines tem participações na Azul, Copa e Avianca, por exemplo). Além disso, a Delta não só ganha uma nova parceria importante na América do Sul, como tira a Latam de perto da American Airlines, outra principal concorrente nos Estados Unidos.

Analisando as malhas aéreas das duas empresas, o movimento se mostra ainda mais certeiro. São extremamente complementares, muito mais do que os mercados da Latam em relação aos da American Airlines.

A Delta possui seu principal centro de operações em Atlanta, além de bases importantes em Detroit, Nova York, Minneapolis, Salt Lake City e Los Angeles. Tirando Nova York, não há voos conflitantes com a Latam para o Brasil. Isso vai fortalecer rapidamente o alcance da Delta no continente, através do compartilhamento de voos. Além disso, a Latam poderá ter mais facilidade para fortalecer suas operações nos mercados onde já atua, sem se preocupar em desagradar a nova parceira (a Latam e a American Airlines estavam coordenando a capacidade de voos por conta da criação da Joint Venture, o que levou as empresas a reduzir ou encerrar voos em algumas rotas entre Brasil e Estados Unidos).

O CEO do Grupo Latam Airlines, Enrique Cueto, comentou hoje que as conversas com a Delta começaram há 3 meses, após a decisão da Suprema Corte de Chile de impedir a implementação da Joint Venture da Latam com a American Airlines. Segundo ele, a Delta buscava um parceiro estratégico na América Latina, e a Latam ocupava uma posição relevante nesse mercado.

 

O que vai acontecer com as atuais parcerias da Latam e da Multiplus após a saída da aliança Oneworld?

Ainda é cedo para dizer. Mesmo após sair da Star Alliance em 2012, a Latam manteve parcerias e acordo comerciais com a Lufthansa, Swiss e com a South African, por exemplo. Os acordos não conflitavam com a Oneworld, que não conseguiria suprir a conectividade regional nesses mercados. Dessa forma, nada impede que a Latam mantenha alguma integração com a British e a Iberia, por exemplo, ou com outras empresas da Oneworld, após a saída da aliança. O que é certo é o fim da parceria com a American Airlines. Seria inviável conciliar algum negócio relevante após a efetivação do acordo com a Delta. Um duro golpe para a American Airlines. É só questão de tempo…

O CEO da Latam destacou que os procedimentos de saída da Oneworld devem levar mais de um ano e que isso implica na manutenção dos acordos dentro da aliança durante esse prazo.

Oneworld

SkyTeam

Star Alliance

A Latam, por sua vez, não confirmou a mudança para a Skyteam. Informou apenas que irá deixar a Oneworld. É possível que ela fique como uma empresa independente, fechando acordos bilaterais que fizerem sentido – ou que essa postura seja apenas uma formalidade, ganhando tempo para um futuro anúncio, já que a Delta sozinha não poderia garantir a Latam na Skyteam (é uma decisão que precisaria do aval da Air France, KLM e de mais empresas).

Falando de Multiplus: a saída da Oneworld deve levar alguns meses e não vai atingir quem já tem bilhete emitido. A data será comunicada com antecedência e os benefícios serão mantidos até lá. Após o desligamento, é possível que as parcerias sejam descontinuadas. Mas nada impede da empresa manter acordos para continuar oferecendo o inventário das empresas em seu programa de fidelidade. Certamente a Latam vai se movimentar para não esvaziar sua rede de parceiros, que deve ganhar a presença da Delta. Mas ainda é cedo para fazer projeções.

Se você tem interesse em voar com a American Airlines ou com parceiras Oneworld usando pontos Multiplus, é prudente tentar emitir a passagem o quanto antes – isso se houver disponibilidade, pois isso anda bem intermitente desde a mudança do sistema de reservas da Latam. Vale destacar que após esta mudança no sistema ficou impossível emitir passagens da Qatar, Cathay entre outras, usando pontos da Multiplus.

 

O que pode acontecer com a GOL? É o fim da Delta na Smiles? Como ficam as demais parcerias do programa?

Inicialmente a GOL vai enfrentar a desconfiança de investidores. Especulações em relação ao que levou a Delta a tomar essa decisão e sobre a capacidade da empresa de reagir à perda da parceira e investidora. O fato é que a GOL consegue sobreviver sem a Delta. Mas o mais provável é que ela procure outra(s) empresa(s) para ocupar o lugar da Delta (ou seja procurada).

Ações da GOL e da Latam na bolsa de Nova York hoje

Uma parceira natural que surge, num exercício especulativo, mas puramente racional, é a própria American Airlines. A empresa já foi parceira da GOL no passado e, após o fim da parceria com a Latam, vai precisar de outra companhia aérea nacional para fazer a distribuição dos passageiros de seus voos que chegam dos Estados Unidos dentro do Brasil, e vice versa.

Claro que, depois dessa surpresa, nada impede que a United troque a Azul pela GOL, ou que a American faça uma aliança com a Azul. Mas esses seriam novos movimentos surpreendentes, analisando o histórico das empresas.

É importante destacar que haverá um processo de transição. Quem tem voo marcado com a Delta em conjunto com GOL não precisa se preocupar. As empresas já comunicaram que vão honrar os contratos de quem já comprou passagem e manter os serviços compartilhados por algum tempo. Os executivos da Delta e da Latam estimaram de 12 a 24 meses o tempo necessário para a concretização do negócio. Largar a GOL muito antes de plugar a Latam seria rasgar dinheiro e prejudicar os clientes. Da mesma forma, para a GOL, perder imediatamente a Delta seria oneroso e arriscado. A data deve ser anunciada com antecedência.

A grande incógnita é o que pode acontecer com a parceria entre a GOL e o grupo Air France-KLM, que também detém participação acionária na empresa brasileira. Será que, por influência da Delta (dona de uma parte da Air France e da KLM), também vão abandonar a empresa e se unir à Latam? A empresa daria conta do recado.

Ou, indo além, será que a criação da Globalia no Brasil, filial da Air Europa que promete iniciar voos domésticos por aqui, a Air France e a KLM não precisem mais da GOL para ajudar na distribuição de passageiros em sua base no Nordeste? Por enquanto, tudo isso é apenas especulação.

Falando de Delta na Smiles: o mais provável é que a parceria seja encerrada. Mas, se isso ocorrer, não vai atingir quem tem bilhete emitido. Também não implica numa saída obrigatória dos demais parceiros. É bom lembrar que a Smiles possui parceria com a Qatar, membro da Oneworld, e com TAP, Copa, Air Canada e South African, membros da Star Alliance. Além disso, conta com Emirates, Etihad e outras empresas sem aliança.

Portanto, se você tem como objetivo usar milhas Smiles para viajar de Delta, um bom movimento é reservar logo esse bilhete. Não sabemos quanto tempo vai demorar para o acordo da Delta com a Latam atingir a parceria.

Eu acredito que a Smiles vai fazer parceria com a empresa que a GOL escolher para substituir a Delta. Uma curiosidade é que, segundo um diretor da Smiles, a Air Europa não virou parceira antes por conta do veto da Air France-KLM. Com a entrada da Air Europa na SkyTeam, tudo ficou mais fácil. Talvez a Delta também tenha imposto alguma condição que passe a não fazer mais sentido agora, liberando a Smiles para conectar novas empresas. Será que vem American Airlines mesmo por aí? Por enquanto, nada disso é certo.

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É tudo muito recente e surpreendente. São muitas perguntas e apenas poucas respostas! Vamos acompanhar tudo de perto…

E você, o que achou de tudo isso? Quais são suas apostas? Ficou com alguma dúvida? Comente e participe.