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JetSmart planeja operar voos nacionais com passagens super baratas no Brasil

Denis Carvalho
Denis Carvalho
01/07/2020 às 12:18

JetSmart planeja operar voos nacionais com passagens super baratas no Brasil

O Brasil pode ter futuramente uma companhia ultra low cost operando voos nacionais com passagens aéreas super baratas. Trata-se da JetSmart, empresa aérea chilena que no ano passado começou a voar de Santiago para Foz do Iguaçu e Salvador e tem planos para operar também em São Paulo. Na última semana, a agência de notícias Reuters divulgou um encontro ocorrido entre a companhia e a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), no qual a JetSmart apresentou planos de operar voos entre cidades brasileiras, com seu modelo de baixo custo e baixa tarifa. Mas o que mudaria com a chegada de uma ultra low cost ao Brasil? Teria a JetSmart potencial para produzir impacto no setor de aviação brasileiro, que é bem maior que o do Chile? É do que trataremos nesse post.

JetSmart e Anac

Segundo revelou a Reuters, com ampla repercussão na imprensa nacional, o encontro da direção da JetSmart com a Anac ocorreu em 10 de março, dias antes da crise da Covid-19 se acentuar no continente. No entanto, a companhia afirmou que ainda considera uma expansão no Brasil: “Apesar da pandemia ter reduzido substancialmente a demanda, ainda estamos analisando novas operações na região, embora estejamos acompanhando a forma e a velocidade da recuperação no Brasil e em outros países”, disse em comunicado à Reuters o presidente-executivo da JetSmart, Estuardo Ortiz.

Procurada pelo Melhores Destinos, a Anac confirmou o encontro e que a companhia informou a intenção de operar voos domésticos no Brasil “em breve”: “No dia 10 de março deste ano, o CEO da JetSmart, Estuardo Ortiz, participou de um evento interno da Agência e apresentou os planos da empresa. Neles, havia o interesse em operar rotas domésticas no Brasil, em breve. Entretanto, tendo em vista os impactos do novo coronavírus no setor, somente a JetSmart poderá precisar o seu planejamento atual”, informou a agência.

A Anac explicou ainda que atualmente não há nenhum pedido formal para operação de rotas domésticas no Brasil pela empresa.

O que descobrimos sobre o caso

Consultada pelo Melhores Destinos, a JetSmart manteve o discurso de que segue avaliando as oportunidades, sem mais detalhes. Junto a um diretor da companhia, porém, obtivemos a confirmação de que a JetSmart mantém o plano de criar uma nova companhia no Brasil para operar voos domésticos no país.

Segundo a fonte revelou ao MD, o plano apresentado à Anac em março poderá ser revisto, já que a companhia acompanha com cautela os desdobramentos da pandemia no Brasil. É possível que haja inclusive uma redução nos voos e cidades a serem atendidas inicialmente. No entanto, em nenhum momento a companhia pensou em desistir de operar no Brasil, mercado que considera estratégico para seu planejamento de longo prazo.

JetSmart Brasil

Para operar voos domésticos no país, a JetSmart teria de criar uma nova filial, a JetSmart Brasil, a exemplo da JetSmart Argentina, que iniciou voos entre cidades do país no ano passado. Antes do início da pandemia, a companhia operava 11 destinos argentinos com um frota de quatro aviões, mas deu passo ousado ao comprar a rival Norwegian Argentina em dezembro.

No momento, a JetSmart tem duas empresas registradas na Junta Comercial de São Paulo: a JetSmart Airlines SA e a JetSmart Airlines SPA, ambas com sede no mesmo endereço em São Paulo e filiais nos aeroportos de Guarulhos, Foz do Iguaçu e Salvador, bases onde opera no Brasil.

Como informou a Anac, no entanto, a companhia ainda tem licença apenas para operar voos internacionais de passageiros e cargas (Classes V e VI) para que fizesse voos nacionais, a nova empresa teria que ser enquadrada como operador nacional de transporte público de passageiros com aeronaves com capacidade para mais de 30 pessoas (Classe IV-B).

Quem é a JetSmart?

À primeira vista, a JetSmart pode não parecer grande coisa: uma companhia low cost fundada há apenas três anos no Chile, com frota de 17 aviões. Mas por trás da companhia tem um poderoso fundo de investimentos, o Indigo Partners. Com sede nos Estados Unidos, ele controla a JetSmart e a low cost americana Frontier Airlines, além de ter participações na europeia Wizz Air e na mexicana Volaris.

Em 2017, o fundo assinou um memorando de compra de 430 aviões da Airbus, dos quais 70 seriam destinados à JetSmart: 56 A320neo e 14 A321neo. Com uma frota desse tamanho, a companhia planeja se tornar a maior low cost da América do Sul até 2026, quando planeja chegar à marca de 100 milhões de passageiros transportados.

“Estamos preparados para enfrentar essa situação de pandemia e continuar com o plano de longo prazo que nós traçamos para 2026 e oferecer nossos serviços de custo ultra baixo em toda a América do Sul. Temos o apoio da Indigo Partners e acreditamos que também haverá oportunidades”, destacou o CEO da companhia em entrevista ao site colombiano Torre Eldorado, especializado no setor aéreo.

Segundo Ortiz, a crise da Covid-19 fará com que a companhia reduza o ritmo de crescimento até o ano que vem, mas não deve alterar os planos para o longo prazo: “Sem dúvidas essa crise mudará nossa rota, mas não nosso crescimento até 2026. Temos previsto um aumento de nossa frota que teremos de ajustar nos próximos 12 meses para termos um ritmo menor de crescimento que o previsto, mas provavelmente em 2023 e 2024 teremos de acelerar para cumprirmos nosso propósito de sermos a companhia aérea ultra low cost líder da região”.

O que mudaria com a chegada da JetSmart Brasil?

O maior impacto da criação da JetSmart Brasil com voos nacionais para os passageiros pode ser definido em apenas três palavras: passagens mais baratas! Tanto no Chile quanto na Argentina, onde enfrenta quase monopólios da Latam e da Aerolíneas Argentinas, respectivamente, a chegada da companhia foi marcada por promoções agressivas e preços baixos. Além de favorecer diretamente os passageiros, a chegada da low cost e o aumento da concorrência levaram as demais companhias aéreas a ajustarem seus preços.

No Chile, a companhia começou a operar em 2017, com uma promoção arrasadora: passagens por menos de 1 dólar e taxas incluídas!  Com um ritmo acelerado de crescimento e uma estratégia muito agressiva de promoções chegou a 5,8% do mercado em janeiro de 2020, atrás da Sky, outra low cost, e da Latam. Além de oferecer preços menores, com passagens por R$ 50, a JetSmart inovou ao oferecer voos entre regiões chilenas, que não passam pela capital Santiago, algo que era raro até então.

“São uma companhia bastante ‘kamikaze’. Quando chegaram ao Chile ninguém dava um peso por ela. Nas outras companhias diziam que a JetSmart ia quebrar em poucos meses. Mas são de risco: tudo o que assusta as demais empresas eles aproveitam e atacam. Aqui chegaram com orçamento para operar dois anos com prejuízos e as ofertas iniciais incluíam até pagar as taxas de embarque aos passageiros. Foram muito agressivos e em apenas seis meses ocuparam seu espaço no mercado” explica a editora do Mejores Destinos Chile, Yenifer Contreras.

Na Argentina, a companhia tem seguido o mesmo roteiro, ao lado de outra low cost, a Flybondi. A companhia ainda não é capaz de desafiar a soberania de décadas da estatal Aerolíneas Argentinas, mas tem feito barulho, como na última CyberMonday, em que vendeu passagens pela Argentina por R$ 66 com taxas incluídas.

No Brasil temos uma situação um pouco mais favorável aos passageiros, com três grandes companhias disputando o mercado: Azul, Gol e Latam. Com o fim da Avianca Brasil e o recente acordo entre a Azul e a Latam, que pode inclusive evoluir para uma fusão entre as empresas, a queda na concorrência pode levar ao aumento nos preços das passagens e redução das promoções. A chegada de uma nova concorrente, especialmente de uma low cost como a JetSmart, focada sobretudo em oferecer passagens baratas, poderia ser benéfica nesse sentido, forçando as demais a manterem baixas suas tarifas.

Não há como falar no tema e não se lembrar da Webjet, a última low cost brasileira. Quem tem mais tempo de Melhores Destinos vai se lembrar com saudades de quando postávamos passagens nacionais a partir de R$ 9 com a companhia. Com poucas rotas e aviões antigos, a Webjet incomodava as gigantes Latam e Gol, tanto que a última acabou comprando a concorrente em 2011. Seria a JetSmart capaz de trazer de volta esses bons tempos?

Avião da Webjet. Foto: aeroprints.com/Wikimedia commons

Um estudo de tarifas feito com exclusividade pelo Melhores Destinos mostrou que o preço das passagens aéreas caiu 33% nas rotas internacionais onde as companhias low costs começaram a operar no Brasil é de se esperar que algo semelhante ocorra com os voos nacionais.

Como é voar com a JetSmart?

A JetSmart é uma ultra low cost, como a Frontier ou a Ryanair. O principal foco dessas companhias é oferecer o menor preço possível para transportar o passageiro, com máxima eficiência, pontualidade e segurança. Serviço de bordo? Sistema de entretenimento? Milhas? Esqueça! Nenhum desses mimos fazem parte do serviço de uma ULCC.

No caso da JetSmart, o modelo da companhia é apostar em aviões de última geração da Airbus, mas com muitos assentos que sequer reclinam. Nossa editora  Yenifer Contreras fez uma avaliação de um voo doméstico da JetSmart no Chile, entre Concepción e Santiago e revela alguns detalhes.

Para selecionar um assento é cobrado uma taxa que varia de 7 a 16 dólares – as poltronas da frente são mais espaçosas. A companhia não oferece nenhuma bagagem gratuita, mesmo nos voos do Brasil a Santiago, só é permitido levar uma mochila. A bordo, nenhum tipo de entretenimento, apenas o menu de vendas a bordo, com opções de 2 a 16 dólares – vale lembrar porém que o custo de vida no Chile é bem mais alto que no Brasil.

“A JetSmart é uma boa opção para a hora de viajar. No Chile, há poucos anos, tínhamos somente uma opção para voos domésticos. Agora contamos com três companhias, sendo duas de baixo custo”, definiu Yenifer, que deu nota 8 para a companhia.

Já a editora do Mejores Destinos Argentina, Leila Aisen, fez o voo inaugural da JetSmart no país e escreveu uma avaliação bem detalhada da rota do aeroporto El Palomar em Buenos Aires a Mendoza: o avião estava tão novo que ainda mantinha os plásticos nos assentos.

Por lá não houve grandes diferenças no serviço: bancos que não reclinam, mas com um espaço aceitável e uma taxa de R$ 5 para quem quisesse mudar de assento durante o voo. O menu de vendas tinha preços convenientes e até vendia água quente para quem quisesse tomar o tradicional mate argentino.

“No geral minha primeira experiência com a JetSmart foi muito positiva. Eu nunca havia voado em um avião tão novo e foi incrível em relação ao preço cobrado. É muito barato pelo que oferece!”, concluiu Leila, que deu nota 9 à companhia.

Mesmo nos voos internacionais, o serviço muda pouca coisa. Basta ler a avaliação de nosso editor Thiago Ibrahim no voo da JetSmart de Salvador a Santiago: “De modo geral, valeu a experiência de voar com a JetSmart e experimentar o jeito simples da companhia de fazer aviação. O valor pago pelas passagens compensa, caso você queira ou precise passar uns dias em Santiago. Mas na volta, quando normalmente se está mais cansado, um conforto a mais faz um pouco de falta”, definiu.

Confira a avaliação em vídeo:

A JetSmart virá mesmo para o Brasil?

Neste momento de crise é impossível dizer com certeza o ocorrerá com qualquer companhia aérea nos próximos anos. No entanto, dadas as evidências, existe uma grande chance da JetSmart lançar uma companhia aérea no Brasil para fazer voos nacionais de baixo custo. O investimento na companhia é alto e o foco é que ela se torne a maior low cost da América do Sul até 2026. É difícil atingir essa meta deixando o Brasil de lado, já que temos o maior mercado aéreo da região e um dos mais importantes do mundo.

Outro fato interessante é que a companhia deve receber nos próximos anos 12 A321-200XLR. Esse avião de maior alcance pode permitir que a companhia voe para o Caribe, Estados Unidos e mesmo para a Europa, partindo do Brasil.

Dificilmente porém, a companhia deve investir no Brasil nesse ano ou em 2021, a menos que enxergue uma oportunidade devido à retração das concorrentes em meio à atual pandemia. Por ser uma empresa menor e mais nova, a JetSmart tende a ter menos dificuldades a adequar suas operações e a retornar ao estágio de antes da crise do que as brasileiras Azul, Gol e Latam, que possuem uma estrutura mais robusta com dezenas de bases.

E você? Acredita que a JetSmart vai operar voos domésticos no Brasil? Participe nos comentários!

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