Grupo dono da Gol vai ao Cade para questionar investimento da American Airlines na Azul
Grupo dono da Gol vai ao Cade para questionar investimento da American Airlines na Azul
O Grupo Abra, do qual fazem parte as companhias Gol e Avianca, entrou com um pedido ontem à noite no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) para ser aceito no processo que envolve o aporte financeiro da American Airlines na Azul, em análise desde o início deste mês. A holding afirma ser a “principal afetada” pelo movimento e cita questões concorrenciais.

O aporte de US$ 100 milhões da American Airlines na Azul foi acordado no contexto da recuperação judicial da companhia aérea brasileira. O mesmo movimento foi feito em relação à United Airlines, que já teve um aporte de US$ 100 milhões na Azul aprovado, com ressalvas, pelo Cade.
O grupo dono da Gol afirma que quer entrar no processo para “garantir que todas as salvaguardas sejam devidamente atestadas e/ou estabelecidas” pelo Cade. A holding quer impedir que a Azul “se torne um centro e/ou hub de alinhamentos comerciais, empresariais e de negócio entre American Airlines, Azul e United Airlines”.

O movimento do Grupo Abra no Cade ocorre em um contexto no qual a American Airlines tem uma participação financeira na Gol. Por si só, isso já justificaria o receio da holding que controla a companhia aérea brasileira. Além disso, as notícias recentes de que a United tentou uma fusão com a American teriam ampliado as preocupações.
O que diz o pedido do Grupo Abra contra a American e a Azul?
O Grupo Abra partiu para a ofensiva no documento de 30 páginas protocolado no Cade. A holding afirma que “embora formalmente apresentada como aquisição de participação societária minoritária sem controle, a operação não corresponde a um mero investimento financeiro passivo da American Airlines na Azul”.
Na visão da Abra, a operação deve ser analisada no contexto de uma “aquisição coordenada de controle de um concorrente em rotas aéreas entre Brasil e Estados Unidos – a Azul – pelo líder histórico de tal mercado – a American Airlines – e por sua respectiva principal concorrente nos Estados – a United Airlines”.

A holding também acusa o novo Comitê Estratégico da Azul, que terá cadeiras para seus sócios, de ser um “ambiente propício para alinhamentos entre os concorrentes American Airlines, Azul e United Airlines”, e diz que os norte-americanos terão “poder decisório” em questões como custos, oferta e preços.
A Abra enxerga, na prática, American e United “deliberando e decidindo sobre como a Azul competirá efetivamente no mercado nos próximos anos”.

Nesse contexto, na opinião da controladora da Gol, a American e a United Airlines não terão apenas mera participação societária na Azul, mas “efetivo acesso a suas informações concorrencialmente sensíveis, bem como controle e influência permanente sobre as suas decisões comerciais”.
Na petição enviada ao Cade e que deu início à análise do investimento, a Azul afirma que a representação da American Airlines no Comitê Estratégico não dá à empresa “capacidade de determinar, bloquear ou influenciar materialmente a conduta concorrencial da Azul”.

Outro ponto de destaque no documento é o questionamento sobre resultados financeiros da Azul. O Grupo Abra afirma que a própria companhia divulgou desempenho positivo no ano passado – e de fato o fez – , antes do aporte da American.
Por isso, na visão da Abra, a alegação de que o investimento seria indispensável para a sobrevivência “deve ser colocada em perspectiva a despeito da volatilidade do setor aéreo como um todo”.
Preocupações de concorrência em rotas e destinos
Com impacto mais direto ao passageiro, o Grupo Abra destacou em outro trecho do documento que a American e a United Airlines “não voam para os principais hubs [centros de operação] da Azul no Brasil”. Nesta linha, a holding diz que o “argumento [apresentado por Azul e American] de que a operação ampliará conectividades de O&Ds [origens e destinos] aos consumidores brasileiros no país também é questionável”.

Mapa de rotas da Azul (meramente ilustrativo)
A Azul mantém hubs em Campinas, Recife e Belo Horizonte, onde não há presença de American Airlines e United Airlines. Em sua petição ao Cade, a Azul diz que a parceria com a American resultará em “uma malha aérea mais ampla e totalmente otimizada […], resultando em maior e melhor conectividade com cidades do Brasil/América do Sul e EUA”.
A Azul também disse ao Cade que, “considerando a abordagem de O&D, não haveria sobreposição entre as empresas em voos diretos”.
A Abra aponta que a operação conjunta das três companhias resulta em uma fatia de mercado de mais de 50%, o que acentuaria as preocupações em torno dos aportes na Azul. Para a empresa, o investimento dificulta acordos comerciais, como codeshare e interline, de outras companhias brasileiras com American, United e Delta – esta, já parceira da Latam.

O grupo também alertou para os destinos atualmente operados pela Gol nos Estados Unidos – Miami e Orlando -, em relação aos quais o investimento em avaliação no Cade geraria “sobreposições horizontais” de, no mínimo, 30% entre American Airlines e Azul.
A petição aponta, ainda, como ponto sensível os voos da Gol para Nova York. O destino também é atendido pela American a partir dos aeroportos de Guarulhos, em São Paulo, e do Galeão, no Rio (este, sazonal). Vale lembrar, no entanto, que as operações de Gol e American entre a capital fluminense e Nova York serão alternadas.

Por fim, o Grupo Abra foi taxativo ao dizer que a operação pode resultar em “menos competitividade à Azul e perdas aos consumidores brasileiros no que se refere a transporte aéreo regular de passageiros entre Brasil e Estados Unidos” e que o cenário “tende a gerar prejuízos concretos aos consumidores brasileiros, na medida em que pode reduzir a variedade de O&Ds disponíveis”.
O que dizem os envolvidos?
Procuradas pelo Melhores Destinos a respeito do processo no Cade, a Azul e o Grupo Abra não comentaram. Também estamos em contato com a American Airlines, e aguardamos retorno. Esse espaço será atualizado caso a empresa se manifeste.
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Mateus Tamiozzo
Sou jornalista com 10 anos de experiência em aviação - e completamente apaixonado por tudo o que envolve aviões e aeroportos. No Melhores Destinos, fico bem de olho nas companhias aéreas e na movimentação sempre intensa do setor, tudo para levar a você informações úteis e atualizadas.
Na bagagem, 26 países, incluindo a Coreia do Norte, e 17 companhias aéreas. E é só o começo!