Caverna de Nerja: cinco jovens, uma fresta e a história subterrânea de 5 milhões de anos no sul da Espanha
Caverna de Nerja: cinco jovens, uma fresta e a história subterrânea de 5 milhões de anos no sul da Espanha
No sul da Espanha, a Cueva de Nerja guarda vestígios de quem viveu na região durante a Pré-História — e continua sendo redescoberta pela ciência. Atraída pela beleza da Costa do Sol, encontrei um lugar onde conhecer mais também significa entender até onde é possível chegar.
Cinco jovens, duas lanternas, um martelo e uma fresta misteriosa por onde morcegos passavam, mas eles não. Pelo menos, ainda não. Era inverno em Maro, um vilarejo de Nerja, no sul da Espanha, e aquele 12 de janeiro de 1959 podia ter sido um dia comum. Mas uma abertura estreita entre as rochas havia deixado uma pergunta no ar: o que existia do outro lado? Os rapazes decidiram descobrir.
Eram os irmãos Miguel e Manuel Muñoz Zorrilla, de 13 e 18 anos; José Luis Barbero de Miguel, de 15; José Torres Cárdenas, de 16; e Francisco Navas Montesinos, o mais velho, de 21.

Pequena abertura pela qual os 5 rapazes entraram é protegida na Caverna de Nerja e homenageia os descobridores — Foto: IICN–Instituto de Pesquisa da Caverna de Nerja / Arquivo
Com um martelo nas mãos, abriram passagem e avançaram pela fenda estreita — e perigosa. A pouca luz não dava conta da escuridão e revelava o caminho aos poucos. Até que o espaço se abriu e, diante deles, surgiu uma cavidade muito maior do que seus olhos eram capazes de alcançar.
“Eu não sabia que algo assim pudesse existir. Naquela época, em Maro, não havia nada e o acesso ao conhecimento era nulo; não sabíamos com certeza o que tínhamos descoberto”, relembrou o descobridor José Torres Cárdenas, 67 anos depois deste dia histórico.

Panorâmica da Caverna de Nerja, na Espanha, dá ideia da dimensão de uma das salas do atrativo. (Foto: IICN – Instituto de Investigación Cueva de Nerja)
O que eles tampouco sabiam era que aquele mundo subterrâneo começara a se formar cerca de 5 milhões de anos antes. Nessa primeira exploração, as formas da rocha apareciam recortadas pela luz, enquanto todo o resto permanecia mergulhado na escuridão.
Miguel, o mais novo do grupo, ficou encarregado de vigiar a fresta enquanto os demais exploravam a cavidade. Sozinho do lado de fora, no escuro do fim do dia, ficou assustado e acabou entrando atrás dos outros. Lá dentro, porém, a impressão não foi menos intensa:
“O espaço que vimos nos causou uma sensação de medo tão grande quanto a de admiração”, disse ao revisitar a memória da primeira impressão daquele lugar.
Até que o caçula pisou no que lhe pareceram galhos secos. Mas ao afastar o material que os cobria, percebeu que eram ossos humanos. Havia dois esqueletos.

Três dos cinco jovens que descobriram a Caverna de Nerja – Foto: José Padial/ Diario Sur, 1959 (IICN – Instituto de Investigación Cueva de Nerja)
Com o susto, os jovens imaginaram que outras pessoas tivessem entrado ali antes deles, se perdido e não conseguido encontrar a saída. Decidiram ir embora enquanto era tempo.
Eles estavam enganados sobre o que havia acontecido com aquelas pessoas. Mas acertaram algo essencial: outros seres humanos tinham realmente entrado naquela caverna muito antes deles. Milhares de anos antes.
Os cinco haviam atravessado uma abertura entre as rochas e chegado à Caverna de Nerja (Cueva de Nerja, em espanhol), uma cavidade moldada pela natureza ao longo de milhões de anos e cuja história continuaria sendo revelada nas décadas seguintes.

O Instituto de Pesquisa da Caverna de Nerja foi criado, em 1999, com o objetivo de pesquisar, conservar e divulgar o patrimônio natural e cultural da caverna e de seus arredores. — (Foto: IICN – Instituto de Investigación Cueva de Nerja)
A curiosidade que levou à descoberta daqueles rapazes ficou entre as lembranças mais fortes que levei de Nerja. A beleza das fotografias ajudou a colocar a caverna no meu roteiro pela Andaluzia, mas a busca deles me fez reconhecer algo familiar.
Viajando sozinha pelo sul da Espanha, eu também era movida pela vontade de conhecer o mundo, seguir uma pergunta e descobrir o que existia além. Claro, minha aventura era outra. Havia ingresso, luzes e um caminho preparado. Mas o impulso era reconhecível.
E Nerja parecia alimentar essa vontade de descobrir algo novo a cada passo. Quanto mais eu conhecia, mais percebia que parte do extraordinário estava justamente no que não se revelava de imediato.

Cheguei a Nerja atraída pela beleza da Costa do Sol e encontrei muito mais do que esperava dentro dessa caverna cheia de história – Foto: Mari Kateivas/ Arquivo pessoal
A primeira surpresa estava sob meus pés: como um mundo daquele tamanho podia existir escondido no interior rochoso da Serra de Almijara?
O passado que a serra esconde
A resposta começa com algo aparentemente simples: água! A Caverna de Nerja começou a se formar há cerca de 5 milhões de anos, quando a chuva encontrou caminho pelas fissuras do mármore da Serra de Almijara.

A costa de Nerja é cercada pelas montanhas do Parque Natural das Serras de Tejeda, Almijara e Alhama, que também guardam em seu interior a famosa caverna. – Foto: Alinson Torres/ Pexels
Ao absorver dióxido de carbono, a água torna-se levemente ácida e, pouco a pouco, dissolve a rocha. As fraturas se ampliam, os espaços se alargam e, ao longo de um tempo difícil de imaginar, surgem as cavidades. Mas o processo não termina aí. No interior, a água libera parte do dióxido de carbono e os minerais que carregava começam a se depositar sobre a pedra.
Gota após gota, surgem estalactites descendo do teto, estalagmites crescendo do chão e colunas que parecem unir os dois. Em algumas paredes, os minerais se espalham em formas que lembram véus, cortinas e cascatas petrificadas.
A mesma água que abriu os vazios também ajudou a construir as formas que hoje os ocupam.
- A Caverna de Nerja se formou gota a gota
- Fotos: IICN
Durante a visita, meus olhos dançavam para todos os lados, tentando acompanhar a dimensão das formações. As fotografias que tinha visto antes mostravam a beleza da caverna, mas não davam conta das proporções.
Lá dentro, sentia-me pequena diante de algo que vinha sendo construído gota a gota numa escala de tempo difícil de compreender.

A água abriu caminho pela rocha e também moldou muitas das “esculturas” de pedra da Caverna de Nerja – Foto: Mari Kateivas/Melhores Destinos
Para quem percorre a Caverna de Nerja, esse universo se revela por etapas. O caminho aberto ao público passa por cinco salas: Vestíbulo, Belém, Cascata ou Ballet, Fantasmas e, por fim, Cataclismo. Elas compõem as chamadas Galerias Turísticas.
O mapa, porém, mostra que há muito além desse trajeto: as Galerias Altas e as Galerias Novas ficam fora da visita regular. Mas não poder entrar não significa não poder vê-las. Nerja encontrou uma maneira de mostrar justamente alguns dos lugares onde nossos passos não podem chegar — e volto a isso mais adiante.

Fonte: Caverna de Nerja (IICN – Instituto de Investigación Cueva de Nerja)
Na Sala do Cataclismo, a escala ganha uma dimensão absurda: uma coluna de cerca de 32 metros de altura se ergue entre o chão e o teto. Lembro-me do audioguia chamando atenção para aquele número, mas ele só fazia sentido quando eu olhava para cima.
A surpresa não era só minha. David Giménez conhece bem a Espanha: o viajante catalão deu a volta à Península Ibérica a pé, percorrendo mais de 6 mil quilômetros por Espanha e Portugal. E mesmo depois de tanta estrada, Nerja o marcou.
“Me convidaram para ir e fiquei chocado. Nunca tinha visto uma coluna tão grande. E isso é incrível […]. Quer dizer, uma das coisas mais impressionantes que já vi na Espanha”, contou.

A coluna de 32 metros da Sala do Cataclismo foi reconhecida pelo Guinness, em 1977, como a maior coluna de caverna do mundo. (Foto: IICN – Instituto de Investigación Cueva de Nerja)
E aquela coluna é apenas uma parte da história registrada na pedra. Algumas das estruturas minerais mais antigas conhecidas ali têm mais de 800 mil anos. Na mesma sala, grandes blocos desprendidos da rocha guardam vestígios de um terremoto ocorrido aproximadamente naquela época.
O que para um visitante pode parecer apenas uma paisagem subterrânea é também o registro de acontecimentos que nenhum ser humano poderia ter testemunhado. Um arquivo mineral que a ciência aprendeu a ler.
Quando se tenta colocar a Caverna de Nerja no mapa, sua grandeza aparece de outra maneira. Somadas, as galerias mapeadas alcançam 4.823 metros, uma medida que acompanha o traçado dos condutos e não corresponde a uma linha reta. Se considerarmos outra métrica, a cavidade da gruta ocupa aproximadamente 35 mil metros quadrados, o equivalente a quase cinco campos de futebol.

A caverna fica entre as montanhas e o Mediterrâneo, a 158 metros de altitude e a cerca de 800 metros da costa. Pela entrada do atrativo, é difícil imaginar tudo o que esse subterrâneo abriga. — (Fotos: IICN – Instituto de Investigación Cueva de Nerja)
E talvez um dos detalhes mais curiosos seja justamente este: do lado de fora, quase nada denuncia o que existe ali. A Serra de Almijara se ergue junto ao Mediterrâneo sem revelar, à primeira vista, os vazios que foram se abrindo em seu interior, pouco a pouco, num tempo que escapa à escala humana.
Mas a geologia explicava apenas uma parte daquilo que me intrigava. Porque, muito antes de cinco rapazes atravessarem uma fresta em 1959, outras pessoas já haviam entrado naquele mundo — e deixado ali sinais capazes de atravessar milênios.
Rastros dos que vieram antes
Durante meu passeio, percebia que havia poesia em não me deparar com tudo de uma vez. A iluminação suave acompanhava os contornos da rocha: destacava algumas formas, deixava outras à sombra e criava cenas que quase pareciam pinturas. Enquanto admirava aquele cenário, sentia-me abraçada pela própria montanha.
A escuridão, porém, estava domesticada para quem entrava ali como turista. Havia escadas, corrimãos e um caminho preparado. Pequenos focos guiavam o percurso e faziam surgir, lentamente, uma coluna, uma curva da pedra, uma passagem adiante.

A paisagem subterrânea se revela aos poucos com os focos de luz ao longo do caminho turístico da caverna (Foto: IICN – Instituto de Investigación Cueva de Nerja)
Foi nesse cenário que me esforcei para imaginar aquelas mesmas galerias sem lâmpadas, degraus ou sinalização. Essa ideia mudava completamente o que eu estava vendo.
Muito antes de 1959, quem avançou para regiões onde a claridade natural não chegava precisou carregar consigo o próprio fogo.

Pesquisas contínuas na Caverna de Nerja ajudam a revelar quem foram os humanos que passaram por ali ao longo de milhares de anos. (IICN – Instituto de Investigación Cueva de Nerja)
No passado, nas áreas próximas à entrada da gruta, a história era diferente. Ali, onde o sol alcançava, os vestígios arqueológicos ajudam a reconstruir parte da vida de quem ocupou a Caverna de Nerja.
Essas populações caçavam coelhos, cervos e cabras-montesas, recolhiam frutos e também buscavam alimento no Mar Mediterrâneo. Na Sala do Vestíbulo, por exemplo, arqueólogos encontraram uma camada de quase um metro de espessura formada praticamente por mexilhões.
“Ali se desenvolviam atividades vitais cotidianas: abrigo, confecção de instrumentos, armazenamento e preparação de alimentos. Nesse sentido, eles não eram tão diferentes de nós”, explica o arqueólogo e conservador Luis-Efrén Fernández Rodríguez, chefe de conservação e investigação da Fundação Caverna de Nerja.
As escavações também revelaram utensílios de pedra e osso, cerâmicas e adornos deixados pelas populações pré-históricas.

O “Ciervo Negro”, pintado com carvão, fica nas Galerias Altas, em uma área fechada à visitação. (IICN – Instituto de Investigación Cueva de Nerja)
Há, porém, uma imagem popular que Rodríguez considera importante desfazer: a ideia de que essas populações viviam permanentemente nas profundezas escuras da caverna. Segundo ele, a vida cotidiana se concentrava nas áreas de entrada, onde havia luz natural.
As galerias profundas não funcionavam como moradia. Chegar até elas exigia fogo e estava relacionado a outros usos, entre eles refúgios temporários e atividades de caráter simbólico ou ritual.

O “Camarín de los Pisciformes”, fechado à visitação, guarda pinturas rupestres já associadas a formas de focas e ainda sem datação precisa. (Foto: Instituto de Investigación Cueva de Nerja)
A relação com aquele espaço também mudou ao longo do tempo. Houve usos ligados a armazenamento, animais e práticas funerárias. Para ter uma ideia, foi na Sala da Torca que arqueólogos encontraram Pepita, um esqueleto de 10.000 anos, preservado e hoje exposto no Museu de Nerja, no centro da cidade.
Pepita não é um dos dois esqueletos que assustaram os jovens em 1959. A história daqueles restos mortais é outra. Sua presença, porém, ajuda a mostrar que os ossos encontrados pelos descobridores eram apenas uma pista de uma relação humana com Nerja muito mais antiga do que eles poderiam imaginar.

Pepita foi encontrada na Sala da Torca e hoje está exposta no Museu de Nerja. Esqueleto ajuda a revelar a longa presença humana na caverna. — Foto: Museu de Nerja (IICN – Instituto de Investigación Cueva de Nerja)
E essa presença não ficou restrita às áreas alcançadas pelo sol. Pesquisas mostram que grupos humanos avançaram repetidamente pelas zonas mais profundas, enfrentando trechos que ainda hoje são difíceis de acessar. Para iluminar o caminho, usavam pequenas fogueiras, pontos fixos de luz e, sobretudo, tochas de madeira.
Foram justamente essas tochas que deixaram uma das pistas mais fascinantes da presença humana ali. Enquanto alguém avançava pelos corredores subterrâneos, pequenos fragmentos de carvão se desprendiam e caíam pelo caminho. A fumaça também deixava vestígios.
Na Sala do Cataclismo, por exemplo, pesquisadores conseguiram estudar uma pequena estalagmite que cresceu incorporando sucessivas e finíssimas camadas de fuligem. Sem saber, aqueles humanos deixavam no fogo que iluminava seu caminho pistas para uma investigação que só aconteceria milhares de anos depois.
O mesmo fogo que permitiu a eles enxergar também ajudaria a ciência a descobrir quando haviam passado por ali.

Única arte rupestre da Caverna de Nerja com datação direta: traços de carvão na Sala dos Pisciformes. (Foto: IICN – Instituto de Investigación Cueva de Nerja)
A análise de carvões preservados na gruta revelou 12 grandes fases de incursões humanas, distribuídas entre cerca de 41 mil e 3.300 anos atrás. Em um dos períodos estudados, entre aproximadamente 8 mil e 3 mil anos atrás, as evidências apontam para pelo menos 64 entradas distintas nas zonas mais profundas da caverna.
Isso não significa que 64 pessoas passaram por ali: cada incursão pode ter envolvido uma ou várias delas. O que os rastros permitem afirmar é talvez ainda mais intrigante: elas voltaram. Muitas vezes.
A pedra guardava não apenas marcas de terremotos e transformações do clima, mas também a passagem de seres humanos carregando fogo pela escuridão.

A cabra-montesa, pintura rupestre preservada nas Galerias Altas, inspirou o logotipo da Fundação Cueva de Nerja. (Foto: IICN – Instituto de Investigación Cueva de Nerja)
Alguns daqueles humanos também pararam diante das paredes. Nas regiões internas permanecem pinturas e sinais rupestres: pontos, traços, figuras de animais e até grafismos cujo significado não chegou até nós.
Na formação conhecida como Órgão, assim chamada por lembrar os tubos do instrumento musical, concentra-se uma grande quantidade de sinais em vermelho. Dispostos em séries de pontos e traços, eles são interpretados como evidências de um possível código gráfico e, segundo as pesquisas, podem representar uma das formas mais antigas de comunicação gráfica da humanidade.

Essa formação geológica é chamada de “Órgão” por lembrar os tubos desse instrumento. Em suas dobras está a maior concentração de arte rupestre da caverna, com 286 elementos pintados em vermelho. (Foto: IICN – Instituto de Investigación Cueva de Nerja)
Segundo Rodríguez, as galerias profundas também foram frequentadas para atividades simbólicas e rituais, das quais essas marcas podem ser alguns dos vestígios.
Mas elas ainda escondem um mistério: quem as fez? É isso que os cientistas tentam descobrir hoje. Para isso, a Fundação trabalha em colaboração com o Instituto Max Planck e com o projeto FirstArt, estudando a idade das pinturas e procurando vestígios de DNA humano nos pigmentos.
A ideia é saber se alguns daqueles sinais foram feitos por Homo sapiens ou por neandertais. Por enquanto, ninguém tem essa resposta.

Pesquisadores estudam as pinturas rupestres de Nerja para descobrir quem deixou alguns daqueles sinais: Homo sapiens ou neandertais. – (Ilustração: IICN – Instituto de Investigación Cueva de Nerja)
Sabemos o que algumas daquelas pessoas comiam. Descobrimos como iluminavam o caminho e por onde avançavam. Encontramos vestígios de seus mortos e, na fuligem, sinais de que voltaram repetidas vezes às profundezas.
Mas ainda não sabemos o que muitos daqueles desenhos queriam dizer — ou, em alguns casos, quem exatamente os fez. Assim, permanece talvez a pergunta mais humana de todas: por que essas pessoas continuavam entrando?
“A inquietação humana pela descoberta e pela exploração, juntamente com o magnetismo da paisagem geológica da caverna, deve fazer parte da explicação. Mas acredito que nunca saberemos com certeza qual era o verdadeiro motivo”, comenta Rodríguez.
A (re)descoberta não terminou em 1959

Os cinco descobridores da Cueva de Nerja – (Foto: IICN – Instituto de Investigación Cueva de Nerja)
Quando os cinco rapazes voltaram para Maro naquele 12 de janeiro, levaram com eles uma história difícil de acreditar. Tinham atravessado uma passagem entre as rochas, encontrado salões enormes e dois esqueletos. Fora dali, porém, nem todos estavam convencidos de que havia algo tão extraordinário escondido no coração da montanha.
Miguel Muñoz se lembra de que o próprio pai desconfiou do relato. Imaginou que os meninos talvez tivessem encontrado apenas uma toca de raposa e exagerado no restante da aventura.
Quatro dias depois, eles voltaram acompanhados por professores. Dessa vez, levavam uma fonte de luz mais forte. Só então conseguiram perceber melhor as proporções daquele espaço que, na primeira incursão, as lanternas mal haviam permitido enxergar.

Primeira fotografia feita da Caverna de Nerja e publicada no jornal Diario Sur, em 1959. – Foto: José Padial (Foto: IICN – Instituto de Investigación Cueva de Nerja)
A descoberta começava, pouco a pouco, a deixar de ser apenas a história de cinco jovens. Fotografias feitas nos meses seguintes ajudaram a mostrar ao povoado o que existia dentro da montanha. Pesquisadores começaram a entrar. A caverna passou a ser medida, estudada, mapeada — e também visitada.
A transformação foi rápida. Em 12 de junho de 1960, apenas um ano e cinco meses depois da descoberta, a Caverna de Nerja foi oficialmente aberta ao público. A inauguração teve ainda uma apresentação do Ballet Le Tour de Paris na Sala da Cascata, dando início à tradição do Festival de Música e Dança da caverna.

Aberta ao público em 1960, a gruta já recebeu mais de 20 milhões de visitantes. Hoje, recebe cerca de 450 mil pessoas por ano. (Foto: IICN – Instituto de Investigación Cueva de Nerja)
A parte encontrada pelos rapazes em 1959 estava longe de ser tudo. Anos depois, correntes de ar percebidas entre as rochas levantaram uma suspeita: se o vento passava por ali, talvez houvesse outros espaços além daqueles já conhecidos.
Novas explorações confirmaram a hipótese e levaram às chamadas Galerias Altas. Mais tarde, expedições espeleológicas alcançariam também as Galerias Novas.
O mapa da Caverna de Nerja aumentava. E a maneira de explorá-la também mudava. Martelos e lanternas deram lugar a equipamentos de espeleologia, instrumentos de medição, escavações arqueológicas, análises laboratoriais e sensores capazes de registrar aquilo que os olhos não percebem.
Inclusive, desde 1999, a gruta conta com o Instituto de Investigación Cueva de Nerja (IICN), dedicado à pesquisa, à conservação e à divulgação de seu patrimônio natural e cultural.

A Cueva de Nerja adota um modelo de pesquisa interdisciplinar para atualizar continuamente os protocolos de conservação da caverna. – (Foto: IICN – Instituto de Investigación Cueva de Nerja)
A cada campo de estudo, a montanha começou a contar uma parte diferente da própria história. Pela arqueologia, surgiram os vestígios de quem passou por ali milhares de anos atrás. Já a geologia permitiu reconstruir a formação das galerias e acontecimentos muito anteriores à presença humana.
A biologia também descobriu muito mais: quatro espécies de pequenos invertebrados que só existem na Caverna de Nerja e são adaptadas ao ambiente subterrâneo.
E as descobertas continuam. Segundo Rodríguez, novos grafismos e sinais pré-históricos são identificados praticamente todas as semanas. Ou seja, Nerja ainda tem muito a revelar.
Essa produção de conhecimento ganhou também uma ambição institucional nova. A Cueva de Nerja lidera uma candidatura conjunta de 12 cavernas com arte rupestre paleolítica da província de Málaga ao título de Patrimônio Mundial da Unesco. A iniciativa reúne oito municípios e começou a ser articulada em 2025.

A Fundação Cueva de Nerja lidera uma iniciativa que reúne cavernas da Andaluzia em busca do reconhecimento como Patrimônio Mundial da Unesco. – (Foto: Mari Kateivas/ Melhores Destinos)
E Nerja não continua se revelando apenas para a ciência. Para algumas pessoas, a descoberta também não termina na primeira visita.
A malaguenha Encarna Campos, de 60 anos, voltou à caverna em diferentes momentos da vida: primeiro com os pais e os irmãos, mais tarde com o marido e os filhos e, anos depois, novamente com o marido.
“Tenho o olhar de uma criança e adoro aproveitar tudo como se fosse a primeira vez”, contou ao explicar por que lugares como aquele ainda conseguem surpreendê-la.

Cada detalhe é único na Caverna de Nerja – (Foto: IICN – Instituto de Investigación Cueva de Nerja)
Os cinco rapazes abriram uma passagem. Nas décadas seguintes, a ciência abriu perguntas. E uma delas mudaria também a maneira como eu entendia a minha própria visita: o que acontece na caverna quando milhares de pessoas entram no mesmo lugar que se quer preservar?
Tudo muda quando entramos
A resposta começa por um gesto tão banal que quase passa despercebido: respirar.
Cada pessoa que entra na Caverna de Nerja altera, ainda que minimamente, o ambiente ao redor. O corpo libera calor, dióxido de carbono e vapor d’água pela respiração. Também levamos pequenas quantidades de matéria orgânica da pele, do cabelo e das roupas.
Sozinhas, essas contribuições são mínimas. Mas, repetidas por milhares de visitantes ao longo do tempo, passam a fazer parte do ambiente e a ser acompanhadas pela ciência.

Mesmo sem perceber, cada visitante interfere no ambiente da caverna. Por isso, a ciência acompanha os efeitos dessa presença ao longo do tempo. – (Foto: IICN – Instituto de Investigación Cueva de Nerja)
Isso não significa que cada visitante esteja destruindo a caverna. Significa que a nossa presença ali pode ser medida.
Alguns desses efeitos também envolvem os chamados bioaerossóis, partículas do ar que podem carregar microrganismos para dentro da caverna. Com a circulação de visitantes e a abertura dos acessos, eles podem entrar na gruta e, se encontrarem condições favoráveis, se instalar nas superfícies.
“Estamos diante de um ecossistema vivo e extremamente sensível”, explica Valme Jurado Lobo, pesquisadora do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC), em Sevilha, e especialista em microbiologia de cavernas e conservação do patrimônio cultural.
Segundo a cientista, estudos feitos na Caverna de Nerja encontraram mais bactérias nas salas abertas ao público do que nas áreas restritas. É um sinal de que a presença dos visitantes deixa marcas invisíveis.

As estalactites são formações minerais alongadas que pendem do teto de uma caverna. – (Foto: IICN – Instituto de Investigación Cueva de Nerja)
Onde eu via apenas uma parede de rocha, a microbiologia encontrava uma comunidade de microrganismos invisível aos meus olhos. E isso também mudou a forma como passei a pensar a visita.
As regras mais visíveis eram simples: não tocar nas formações, seguir o caminho indicado e fotografar apenas onde fosse permitido. O que eu não via eram as mudanças provocadas simplesmente pela nossa presença.
Por isso, sensores acompanham temperatura, umidade, dióxido de carbono e circulação do ar. Outros estudos ajudam os cientistas a perceber alterações que passam despercebidas para quem está apenas visitando a caverna.
Para Valme, esse conhecimento é a base das decisões de conservação: “Não existe uma receita única válida para todas as cavernas, pois cada cavidade possui características ambientais próprias. No entanto, há um princípio comum: só é possível conservar aquilo que se conhece bem. Por isso, a pesquisa científica e o monitoramento contínuo são ferramentas fundamentais para garantir a preservação desses ecossistemas e de seu patrimônio geológico, arqueológico e cultural.”

O trabalho de espeleologia na Caverna de Nerja estuda sua formação, seus ecossistemas e os vestígios que ela preserva. – (Foto: IICN – Instituto de Investigación Cueva de Nerja)
A ciência que antes nos ajudou a descobrir a idade das rochas e os rastros deixados por populações antigas passa, então, a observar algo muito mais recente: nós.
De certa forma, a história se repete. Durante milhares de anos, seres humanos deixaram marcas na Caverna de Nerja sem imaginar que um dia seriam estudadas. Hoje, nossa passagem também deixa sinais — a diferença é que agora temos instrumentos capazes de percebê-los.
Talvez por isso, depois de décadas aberta ao público, algumas das decisões mais importantes tomadas ali sejam justamente sobre limites: onde não entrar, o que não tocar, quais áreas manter fechadas e até onde levar luz.
Um exemplo está no tradicional Festival de Música e Dança: desde 2019, os espetáculos deixaram de acontecer dentro da caverna como medida de conservação.
Mas eu já havia encontrado uma maneira inesperada de atravessar alguns desses limites antes mesmo de colocar os pés dentro da caverna.
Onde os passos não chegam
Fui até Nerja para conhecer uma caverna. Por isso, estranhei quando a visita começou com uma fila para uma sala de realidade virtual. Não era exatamente o que eu esperava encontrar ali, mas segui.

A experiência de realidade virtual da Caverna de Nerja dura 12 minutos e apresenta a gruta em um vídeo imersivo de 360°. (Foto: IICN – Instituto de Investigación Cueva de Nerja)
Em uma grande sala, sentei-me em uma das cadeiras giratórias, coloquei os óculos e, por alguns instantes, tudo ficou escuro. Restou aquela pequena ansiedade de esperar que alguma coisa começasse.
Até que a montanha apareceu diante de mim de um jeito impossível do lado de fora. A experiência apresentava como a Caverna de Nerja havia se formado e me conduzia por partes que eu não percorreria fisicamente.
Com os óculos, tinha a impressão de atravessar aqueles espaços quase flutuando, chegando visualmente a lugares onde meus pés não poderiam chegar. Foi muito mais interessante — e mais convincente — do que eu havia imaginado.
Só depois viria a caverna de verdade: as escadas, as luzes suaves, as formações rochosas e as cinco salas abertas aos visitantes. E foi justamente depois de percorrê-las que aquela experiência inicial ganhou outro sentido.
Turistas acessam apenas um terço da Caverna de Nerja. As Galerias Altas e as Galerias Novas continuam montanha adentro, além do circuito regular. Há também espaços próximos às áreas visitáveis que permanecem fechados, como as salas da Torca e da Mina, onde são realizadas pesquisas arqueológicas. Outras regiões guardam pinturas rupestres que não recebem iluminação turística.
Mas nem todos esses limites existem pelo mesmo motivo. Há trechos difíceis e perigosos de alcançar. Outros precisam permanecer preservados para investigação ou por sua fragilidade.
Em comum, lembram que abrir uma caverna ao turismo não significa abrir cada uma de suas passagens. E isso cria uma situação peculiar em Nerja: parte do que existe ali pode ser conhecida justamente porque não precisamos entrar.

A experiência é feita com óculos de realidade virtual e vídeo em 360°, com participação do personagem Tadeo Jones, e está incluída no ingresso da caverna. – (Foto: IICN – Instituto de Investigación Cueva de Nerja)
A tecnologia permite aproximar o visitante de espaços que permaneceriam inacessíveis sem transformar cada descoberta em uma nova rota turística.
Foi só depois de percorrer a caverna que essa primeira experiência da realidade virtual ganhou, para mim, outra dimensão. Eu havia começado a visita diante de uma representação digital e, minutos depois, caminhava pela formação rochosa verdadeira.
Uma não substituía a outra. A realidade virtual não reproduzia a sensação de olhar para cima diante de uma formação gigantesca, nem o jogo de luz e sombra que me fazia sentir como se eu voasse por dentro da montanha. Mas mostrava algo que a experiência física, sozinha, não poderia oferecer: o que continuava além do caminho.
Talvez esse seja um dos paradoxos mais reveladores da Caverna de Nerja. Durante séculos, descobrir significou avançar: atravessar uma fresta, seguir uma corrente de ar, alcançar uma galeria ainda desconhecida. Hoje, conhecer também pode significar saber onde parar.
Para quem quiser entrar

O trajeto para visitar a Caverna de Nerja não é difícil, mas exige atenção e há degraus. – (Foto: IICN – Instituto de Investigación Cueva de Nerja)
Conhecer a parte aberta ao público da Caverna de Nerja não exige horas de caminhada. O percurso turístico tem 546 metros e costuma levar cerca de 50 minutos tranquilos.
É uma visita para fazer sem pressa. O caminho tem subidas e descidas e soma 458 degraus ao longo do percurso completo: 159 de subida e 299 de descida. Não achei difícil, mas é bom chegar sabendo e ir preparado para caminhar um pouco.

Como o percurso turístico na caverna é circular, é preciso passar duas vezes por 99 degraus. Isso totaliza 458 degraus no trajeto de visitação. (Foto: IICN – Instituto de Investigación Cueva de Nerja)
Eu tinha cerca de uma hora para percorrer as salas e fiz isso no meu ritmo, parando para observar as formações e ouvir as explicações do audioguia. O conteúdo está disponível em um aplicativo para celular, inclusive em português.
Também vale considerar as limitações físicas. O trajeto não é acessível para cadeiras de rodas e carrinhos de bebê e pode ser difícil para pessoas com mobilidade reduzida. A realidade virtual oferece uma alternativa para conhecer parte desse universo sem enfrentar o percurso subterrâneo.
- Aproveite a trilha da Caverna de Nerja
- Foto: Caverna de Nerja/ Divulgação
O complexo tem ainda a Praça dos Descobridores, acesso ao jardim botânico e caminhos que levam até Maro e à Serra de Almijara. Do próprio local também parte uma trilha sinalizada em direção à serra.
Dica prática: dentro da caverna a temperatura média é de 19°C, então não é preciso se preparar para um frio intenso. O mais importante é ir de calçado fechado e que não escorregue.
Também vale comprar o ingresso antecipadamente pelo site oficial. A tarifa é de 16 euros no período regular e 18 euros na alta temporada. A entrada inclui a experiência de realidade virtual (exceto nas modalidades gratuitas) e o acesso ao Museu de Nerja.
O audioguia é gratuito, está disponível em português e pode ser baixado pelo aplicativo “Cueva de Nerja”. E, se tiver tempo, não vá embora logo depois da visita!
A viagem não termina na caverna

Málaga é uma cidade mediterrânea, onde o centro histórico, o mar e as montanhas já anunciam a paisagem que se estende pela Costa do Sol.
A Caverna de Nerja fica em Maro, um vilarejo a poucos quilômetros do centro de Nerja e a cerca de 60 quilômetros de Málaga, principal porta de entrada para quem visita essa parte da Costa do Sol.
Dá para chegar por conta própria, mas escolhi conhecê-la em uma excursão que saía de Málaga e seguia depois para Frigiliana e Nerja.
- Cidade de Nerja
Maro ajuda a entender a geografia desse lugar antes mesmo de entrar na caverna. O pequeno povoado branco fica entre o Mediterrâneo e as montanhas da Serra de Almijara. Logo adiante está Nerja, conhecida pelas praias, pelo clima ameno e também pela própria gruta, que se tornou um dos grandes símbolos da cidade.
Essa escolha de roteiro acabou sendo importante. A caverna é extraordinária, mas não existe isolada da paisagem que a cerca. Entre Málaga, os vilarejos brancos, as praias e as montanhas da Costa do Sol, há muito mais para conhecer — e Nerja se encaixa com facilidade em uma viagem maior pela Andaluzia.
- Conhecendo Málaga, na Costa do Sol
- Frigiliana é uma das belas “cidades brancas”
De volta à superfície
Quando deixei a Caverna de Nerja e voltei à superfície, a Serra de Almijara continuava ali, recortada contra o céu e o Mediterrâneo. Vista de fora, nada denunciava a dimensão do que permanecia escondido dentro da rocha.

As Serras de Tejeda, Almijara e Alhama, onde está a Caverna de Nerja, integram uma Zona Especial de Conservação (ZEC) europeia da Rede Natura 2000. – Foto: Alleksana/ Pexels
Sob aquela paisagem estavam galerias que eu havia percorrido e outras onde meus passos nunca chegariam; marcas de terremotos antigos, vestígios de pessoas que carregaram fogo pela escuridão, pinturas cujo significado ainda desconhecemos e formas de vida pequenas demais para serem percebidas durante uma visita.

A Caverna de Nerja, na Costa do Sol, começou a se formar há cerca de 5 milhões de anos. — (Foto: IICN – Instituto de Investigación Cueva de Nerja)
Tudo isso existia sem se oferecer inteiro aos olhos. Talvez por isso Nerja tenha permanecido comigo de forma tão vívida.
Cinco jovens começaram essa história moderna seguindo morcegos por uma fresta. Décadas de pesquisa mostraram que descobrir aquele lugar não significava apenas avançar por novas passagens, mas aprender cada vez melhor o que havia nelas — e até onde fazia sentido chegar.
Quando olhei novamente para a serra, quase nada havia mudado do lado de fora. A paisagem era a mesma. Eu é que já não conseguia olhar para ela do mesmo jeito.

As montanhas do Parque Natural das Serras de Tejeda, Almijara e Alhama compõem a paisagem da costa de Nerja
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* Foto de capa: imagem cedida pela Cueva de Nerja (IICN – Instituto de Investigación Cueva de Nerja)
Viajar, pra mim, nunca foi só conhecer lugares, mas descobrir algo maior. Assim tudo começou: vendendo bombons na faculdade para bancar minha primeira viagem de avião e um curso de cinema em Paris. Eu só queria uma chance e acabei descobrindo um caminho. Nunca mais parei! Hoje, já são mais de 30 países na bagagem que guarda memoráveis histórias. Sou jornalista, com pós-graduação em Linguagem Audiovisual, e editora multimídia no canal do YouTube do Melhores Destinos, onde compartilho tudo isso com quem também sonha em sentir mais do mundo. Meu trabalho é transformar informação em possibilidade e mostrar que, com planejamento, dá para viajar mais gastando menos, sempre!