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Cuba unifica suas duas moedas (CUP e CUC): o que muda para os turistas?

Wendell Oliveira
Wendell Oliveira
06/01/2021 às 16:19

Cuba unifica suas duas moedas (CUP e CUC): o que muda para os turistas?

Desde 1º de janeiro de 2021, Cuba unificou as duas moedas oficiais do país (CUP e CUC). Com a unificação monetária e a fixação da taxa de câmbio em 24 pesos cubanos por 1 dólar, somente uma moeda está em circulação na ilha. Embora as mudanças econômicas sejam benéficas ao turista e evite a cobrança de “preços diferenciados”, elas vêm acompanhadas de um expressivo aumento de salários, causando uma alta nos preços que poderá ser sentida até mesmo pelos visitantes.

Anteriormente, quem planejava uma viagem para Cuba precisava entender o complexo funcionamento das duas moedas do país — o peso cubano (CUP), utilizado pela população nos gastos do dia a dia, e o peso cubano conversível (CUC), atrelado ao dólar e preferencial para o pagamento de serviços turísticos, como hotéis e táxis. Confira agora como os gastos para o turista em Cuba serão afetados:

Unificação das moedas em Cuba

Acabar com o peso conversível (CUC) e manter apenas o peso cubano (CUP) seria relativamente simples: bastaria retirar uma das moedas de circulação e converter nominalmente os valores (1:24), sem aumento real de preços. Mas a medida adotada por Cuba está longe de ser apenas isso.

Unificação das moedas em Cuba

População terá prazo de seis meses para trocar os pesos conversíveis por pesos cubanos (Foto: Yamil Lage/AFP)

A reforma econômica, chamada de “Tarefa de Ordenamento”, inclui seis ações financeiras planejadas e aprovadas desde 2013. São elas:

  • Eliminação do peso conversível (CUC);
  • Unificação das taxas de câmbio (US$ 1 = 24 CUP);
  • Desvalorização da moeda;
  • Aumento de preços;
  • Eliminação de subsídios;
  • Aumento médio de 450% a 500% nos salários e aposentadorias.

No dia 1º de janeiro foram publicados na Gaceta Oficial de Cuba os decretos que complementam a reforma monetária e estabelecem um aumento geral de todos os salários e pensões (que foram quintuplicadas, em média), juntamente com os preços. Além disso, foi aprovada uma série de faixas salariais para acabar com o fenômeno da pirâmide invertida — por exemplo, um gerente de restaurante em Cuba pode ganhar menos que um garçom que receba gorjetas dos clientes em dólar.

O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, afirmou que a reforma monetária não é uma “solução mágica” para os problemas econômicos, mas que “colocará o país em melhores condições de realizar as transformações que necessita”.

Os preços em Cuba vão aumentar com a unificação?

Resposta rápida: Sim. Aliás, isto já era previsto por decreto. Mas o aumento provavelmente será sentido muito mais pela população local do que pelos turistas.

Economistas alertam que, a curto prazo, a decisão poderá desencadear um processo inflacionário. Cuba enfrenta uma grave crise econômica, agravada pela epidemia de Covid-19, a queda do turismo e o endurecimento do embargo dos Estados Unidos na administração Trump. Para o turista, no entanto, a moeda estrangeira continua valorizada, aliada à pouca demanda de serviços turísticos e a possíveis mecanismos de mercado paralelo de dólar.

Possíveis consequências inesperadas

A medida “não é isenta de riscos”, como afirmou o próprio presidente cubano, Miguel Díaz-Canel. Um dos principais problemas citados por ele é a possibilidade de uma inflação superior às previsões, agravada pelo deficit de oferta, além de potenciais preços abusivos e especulativos. Isto é, a criação de um mercado paralelo de dólar, tal como já vimos acontecendo na Argentina com o “dólar blue”.

Com o câmbio de 24 pesos cubanos por 1 dólar fixado por decreto, é natural que existam pessoas dispostas a “burlar” as regras para lucrar. Jornais cubanos dizem que já era possível encontrar dólar sendo vendido a 60 pesos antes mesmo de 1º de janeiro, data da unificação monetária. Curiosamente, esse é um fator favorável aos turistas, que levam moeda estrangeira (e valorizada).

Cuba atualmente é um dos países reabertos para brasileiros. Em breve, comentários de viajantes na internet poderão confirmar algumas previsões.

Como funcionava o CUP e o CUC na prática

O sistema de duas moedas locais em Cuba era único no mundo e vigorou por 26 anos. O peso cubano (CUP) era usado pelo Estado para pagar salários e cobrar serviços básicos. Já o peso conversível (CUC), cujo câmbio era pareado ao dólar (1:1), era preferencial para serviços turísticos como hotéis e táxis, e equivalia a 24 CUP. No dia a dia, as moedas eram intercambiáveis entre si. Não era incomum receber trocos nas duas moedas, exigindo complexos cálculos mentais. Em larga escala, as duas moedas causavam confusão contábil e distorções econômicas.

Peso Cubano (CUP) e Peso Cubano Conversível (CUC)

Peso Cubano (CUP) e Peso Cubano Conversível (CUC)

Para muitos visitantes, o CUC atrelado ao dólar causava a impressão errada de que os preços em geral eram altos, facilitando golpes de viagem. Alguns turistas não raramente pagavam preços diferenciados em relação à população local, para utilizar os mesmos serviços. Por exemplo, um cafecito de 1 CUP na padaria era convenientemente inflado para 1 CUC (isto é, 24 vezes mais!) ao menor sinal que o cliente se tratava de um turista desavisado.

No entanto, para outros, Cuba era um dos países mais baratos do mundo para viajar. Bastava trocar dólares por CUP nas casas de câmbio (CADECA) — um procedimento até então normal e permitido — e aproveitar a cotação vantajosa para pagar o equivalente a centavos nos gastos do dia a dia.

Como economizar em Cuba

Com as novas medidas econômicas, os preços em Cuba deverão sofrer um forte reajuste — ao menos nominalmente. O que não significa que seja impossível viajar barato pela ilha.

Quem estiver planejando uma viagem a Cuba pode optar por se hospedar nas casas particulares, facilmente encontradas no AirBnb. Muitos cubanos alugam quartos ou casas inteiras a partir dos US$ 10 a diária, uma fração do que cobram os hotéis. Ao invés de ir aos restaurantes caros pega-turista, fazer uma refeição nos paladares — como são chamados os pequenos restaurantes populares — pode gerar uma economia de mais de 90%, sem perda na qualidade e autenticidade do sabor.

Ou seja: até os viajantes que já tenham ido a Cuba e achado o destino “caro”, poderão adaptar o orçamento e fazer uma viagem mais barata, mesmo que os preços tenham tecnicamente aumentado. Basta se planejar.

Cuba ainda será um destino barato?

Vale lembrar que, até o ano passado, o salário médio de Cuba era de 879 pesos (US$ 37), de acordo com o Escritório Nacional de Estatísticas. Mesmo um aumento expressivo de 500% resultaria em US$ 190, ainda bem baixo se comparado à média mundial.

Cuba deve continuar sendo um destino barato no Caribe

Cuba deve continuar sendo um destino barato no Caribe, mesmo com a unificação das moedas

A unificação monetária sem dúvidas é um passo decisivo para corrigir as distorções econômicas de Cuba, mas deve pesar muito pouco no bolso do turista. Afinal, um cafecito de 1 CUP (US$ 0,04), mesmo que tenha o preço quintuplicado, continua sendo barato.

*Créditos da foto de capa: Yamil Lage/AFP.


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