Cicloturismo: A arte de viajar de bicicleta

Wendell Oliveira
27/04/2020  ·  16:1027 · abr · 2020  ·  16:10

Cicloturismo: A arte de viajar de bicicleta

De todas as frases que ouvimos na vida, poucas delas são tão inverídicas como “viajar é caro”. Há quem diga não ser possível viajar por falta de dinheiro, quando às vezes a solução está bem perto, empoeirada em algum canto da casa: uma bicicleta. Ela te leva do ponto A ao ponto B, dependendo basicamente da sua disposição em pedalar até o destino. Muita gente já percebeu a liberdade que uma bicicleta oferece, tornando o cicloturismo cada vez mais popular como alternativa econômica e ecológica de viagem.

Viajar de bicicleta é fácil. O veículo mais utilizado do mundo é democrático e não se importa com quem você é ou quanto tem na conta. Se quem tem boca vai à Roma, colocar os pés no pedal pode te levar a qualquer lugar do mundo!

cicloturismo

Viajar de bicicleta é ter tempo para parar e admirar a paisagem

A história da invenção da bicicleta é imprecisa. Os chineses juram de pedal junto que foram eles que inventaram, há mais de 2.500 anos. Mas como naquela época o Instagram era bloqueado na China, ninguém pode provar. Os alemães também entraram na briga, dizendo que em algum momento do século XVI eles criaram o primeiro veículo com duas rodas interligadas e movido à tração humana. Mas foram os franceses que levaram a melhor, batizando de bicyclette um modelo com guidão e freios que ajudaram a moldar a visão da bicicleta como temos hoje.

Eu particularmente prefiro a velha (e contestada!) versão de que o veículo tenha sido projetado por Leonardo da Vinci. Gosto de acreditar que certo dia Leo estava entediado, pegou uma pizza velha e dura, equilibrou-se nela e foi visitar um de seus discípulos. Plim, estava inventado o protótipo da bicicleta! E do iFood.

Não demorou muito tempo para descobrirem que aquela geringonça teria mais serventia do que fazer entregas. Sim, é possível viajar de bicicleta!

O que é cicloturismo

“A vida é como andar de bicicleta. Para ter equilíbrio, você tem que se manter em movimento”. (Albert Einstein)

Mesmo com veículos ainda rudimentares, viajar de bicicleta já era relativamente comum na Europa no século XIX. Em 1820, na França, adolescentes já eram vistos passeando em grupos pelas cidades do interior. Em 1869, na Inglaterra, três amigos resolveram pedalar de Londres até Brighton, um percurso de 90 km, levando cerca de 15 horas. O evento chamou atenção da mídia, que chamou a aventura de “um feito extraordinário”. E a moda foi se espalhando…

Curiosamente, os primeiros ciclistas eram parte da população mais rica, com condições de adquirir uma bicicleta. Com o advento do carro, os mais abastados foram abandonando a bicicleta, que durante muito tempo ficou estigmatizada como “transporte de pobre”. Foram necessários alguns anos, congestionamentos, fatalidades, crises de petróleo e um aquecimento global para mudar esse conceito. As ideias progressistas de cidades como Amsterdã, ainda na década de 70, também foram cruciais. Pedalar estava novamente na moda!

cicloturismo guiana

“Onde Judas perdeu as botas”: viajar de bicicleta pode te levar a lugares que você nunca imaginou.

Seja para quem quer estar antenado, fazer exercícios, poupar dinheiro ou salvar o planeta, a bicicleta se encaixa como uma solução perfeita na hora de viajar. Distâncias curtas ou longas, não há limite. Dá só uma olhada nessas más influências:

O cicloturista Ricardo Martins, autor do projeto Roda Mundo, saiu de casa com com R$ 385 no bolso para viajar de bicicleta pela América do Sul durante 4 anos, visitando 6 países! Não satisfeito, ainda empreendeu uma viagem de volta ao mundo… com uma bicicleta de bambu! Outro ciclista famoso no mundo do cicloturismo, o Arthur Simões, do projeto Pedal na Estrada, passou por 46 países em 5 continentes numa viagem de mais de 3 anos. Tudo documentado, em um livro e diário de estrada.

E se você acha que é perigoso para mulheres sair pedalando por aí, conheça a Pã Marangoni, do 100 Frescura e 1000 destinos. Ela é uma cicloturista profissional, colecionando mais de 18.000 km pedalados em 23 países, com várias dicas para as meninas que também desejam se aventurar 🙂

O mais interessante é que na hora de botar a bicicleta na estrada, pouco importa se ela é de aço inoxidável ou bambu, grande ou pequena, velha ou nova. No meu caso, sempre tive preferência por bicicletas dobráveis de aro 20 (menores que as bicicletas convencionais) e sem marcha. O que jamais me impediu de encarar serras ou terrenos acidentados. Você deve usar a bicicleta que preferir, a que melhor lhe servir ou simplesmente a que tiver!

Dizem que há algo de infantil no uso da bicicleta. Muitos de nós ganhamos nossas primeiras bikes ainda crianças. Elas nos remetem aos bons tempos, onde a vida era mais simples e sem preocupações. E esse sentimento é contagiante.

Viajar de bicicleta é mágico. Experimente chegar a uma cidade de bicicleta, equipado com seus alforges e capacete. A curiosidade dos outros é imediata, de crianças a adultos. Ninguém tem medo de um cara numa bicicleta.

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Antigas pinturas rupestres da cultura carioca ? – Rio de Janeiro (RJ)

A comunidade de cicloturistas no Brasil é grande. Muitos, inclusive, sequer são familiarizados com o termo. É gente simples, que pega a bicicleta e simplesmente sai por aí pedalando. Dedique-se a conhecer as histórias da estrada, elas são experiências de vida e fontes de enormes aprendizados!

Como começar a viajar de bicicleta

Para começar a viajar de bicicleta, basta disposição. Ah, claro: saber pedalar e dispor de uma bicicleta é essencial. Se você é adulto e não sabe andar de bicicleta, não há nada do que se envergonhar. Tem até vídeo no YouTube ensinando a pedalar, então você não tem mais desculpas.

Você não precisa de uma super bicicleta para começar a viajar. O importante é a manutenção estar em dia. Você pode usar até aquela sua bicicleta velha mesmo, parada em casa. Se não tiver, peça emprestado ou compre uma. Dica: sabe o que é mais barato do que uma bicicleta? Uma bicicleta usada 🙂

cicloturismo

Às vezes você começa a pedalar num estado e vai parar em outro…

Para viagens de média e longa distância, ter uma mochila ou alforje é interessante para guardar água, comida e demais utensílios como kit de reparos e câmara extra. Não precisa ser perfeito, improvise!

Uma boa ideia é combinar o estilo de vida do cicloturismo com campings. Dependendo da sua viagem, você pode acampar e cortar custos. Mas isso requer um peso extra de bagagem para a barraca. Avalie bem se vale a pena. Um dos maiores erros de quem começa a viajar de bicicleta é querer levar a casa toda.

Cicloturismo também tem tudo a ver com distâncias curtas. Muitas cidades possuem sistemas informatizados de aluguel de bicicleta, você pode alugar uma para explorar o destino!

bicicleta bangkok

Pedalando em Chinatown (Bangkok – Tailândia)

Dicas de cicloturismo

Não tenha pressa. Você não é um desses ciclistas com bicicletas caras e roupas apertadinhas disputando segundos de velocidade. Ser cicloturista é, acima de tudo, ter calma. Uma pedalada em ritmo normal e terreno plano pode te fazer avançar em média 15 km/h, o que já está ótimo para desfrutar da paisagem.

– Viajar de bicicleta é para todos. Há desde viajantes solitários a amigos e famílias que pedalam juntos. Procure por grupos de cicloturismo pela internet, troque ideias e marque uma grande aventura!

Seu bumbum vai doer no começo. É assim mesmo. A prática vai fazer seu corpo se acostumar, e com o tempo o selim também vai se “moldar” ao formato do seu você-sabe-o-quê. Mas se puder, invista em um bom selim (banco de bicicleta), confortável o suficiente para longas jornadas.

selim bicicleta

Se o selim da sua bicicleta estiver nesse estado, talvez seja a hora de trocar

– O combustível da sua bicicleta é o que você come. Mantenha-se hidratado sempre e evite refeições pesadas antes de pedalar. Barrinhas de cereal e frutas são boas opções para repor rapidamente as energia. Há quem recomende o consumo de bananas para evitar câimbras.

– Use a internet para calcular distâncias e relevos. Ferramentas como o Google Maps são úteis na hora de calcular a quilometragem e altitude dos trajetos a serem percorridos. Isso ajuda a se planejar e evita surpresas no meio do caminho, como uma ladeira inesperada.

– Aprenda fazer manutenção básica. Trocar uma câmara de ar furada não é tão difícil. Ter um pequeno kit com remendos, espátula e bomba de ar é imprescindível para longas viagens, dando muito mais autonomia.

– Segurança é importante. Embora capacete e espelhos retrovisores não sejam itens obrigatórios, é recomendável tê-los. Se possível, utilize roupas com cores fortes para se destacar no trânsito.

– O Código de Trânsito Brasileiro considera a bicicleta um veículo, com direito a trafegar nas vias e prioridade sobre os carros. Nem sempre os trajetos na cidade contarão com ciclovias, por isso mantenha o bom senso ao pedalar em ruas e estradas, sem medo de usar o acostamento quando preciso. Conheça seus direitos e deveres, e respeite as regras!

Apenas comece. Vá aos poucos, pedale até o trabalho, pelo seu bairro, sua cidade. Crie o hábito de usar a bicicleta. Com o tempo, ideias de viagem vão aparecer e você poderá se planejar para elas. O importante é começar!


E você, já viajou ou tem vontade de viajar de bike? Deixe seu comentário!