Avianca Holdings tem prejuízo de R$ 1,9 bilhão no 1° semestre de 2019 e pode enfrentar recuperação judicial

Leonardo Cassol
19/08/2019  ·  4:55Publicado 19 · ago · 2019  ·  4:55Atualizado 16 · set · 2019

Avianca Holdings tem prejuízo de R$ 1,9 bilhão no 1° semestre de 2019 e pode enfrentar recuperação judicial

Depois de uma campanha para desvincular sua imagem da Avianca Brasil, é a vez da Avianca Holdings, ou Avianca Internacional, enfrentar sérias dificuldades financeiras. O grupo, que tem sedes na Colômbia e no Peru, divulgou uma perda líquida de US$ 475,94 milhões no primeiro semestre de 2019, aproximadamente R$ 1,9 bilhão no câmbio atual. E também mantém suspensos os pagamentos de leasing de aeronaves e fornecedores desde junho.

O balanço divulgado revelou perdas no segundo trimestre que chegaram a US$ 408 milhões, bem mais que os US$ 67,9 milhões de prejuízo nos meses de janeiro, fevereiro e março desse ano, ou do que os US$ 31,9 milhões de prejuízo registrados entre janeiro a junho de 2018.

As receitas operacionais da Avianca Holdings chegaram a US$ 1,1 bilhão no segundo trimestre, 6,9% menor que o trimestre anterior. O prejuízo operacional foi de US$ 36 milhões (Ebit), enquanto o lucro antes de juros, impostos, desvalorização e amortizações (Ebitda) foi de US$ 116,4 milhões, com uma margem de 10,5%.

A Avianca Holdings destacou em nota aos investidores que as despesas operacionais apresentaram um forte aumento devido à deterioração do valor contábil da frota que foi classificada como disponível para a venda, sendo dez Embraer 190, dez Airbus A318 e quatro Airbus A320. Ou seja, a maior parte desse prejuízo divulgado não demandou saída de caixa. Porém, no mesmo relatório, a companhia indica que não pode garantir que terá sucesso na negociação com seus credores e contrapartes, nem que eles não irão acelerar ou executar judicialmente parte, ou toda a dívida e obrigações de pagamento, admitindo uma remota possibilidade de recuperação judicial e até falência. Você pode conferir as demonstrações financeiras da empresa e um resumo do relatório aqui (disponível em inglês).

No entanto, em videoconferência com investidores, os executivos destacaram que estão em contato direto com credores e fornecedores e que acompanham de perto a situação do leasing da aeronaves, para evitar surpresas. “Com a implantação do nosso plano de melhoria de liquidez poderemos retomar os pagamentos antes de sermos atingidos por medidas legais, ou qualquer ação para a retomada de aeronaves”, tentou tranquilizar Adrian Nerhauser, CFO do grupo.

A Avianca Holdings, cujos principais acionistas são os irmãos José e Germán Efromovich, é formada pelas aéreas Avianca (da Colômbia), Tampa Cargo, Aerogal (Equador) e Taca (Peru). Inclui ainda o programa de fidelidade LifeMiles.

Quais os planos do grupo para enfrentar a crise financeira?

O grupo espera conseguir um aporte imediato de US$ 250 milhões (aproximadamente R$ 1 bilhão) de dois dos seus investidores, a companhia aérea norte-americana United Airlines e a Kingsland Holdings. Também vai tentar captar até US$ 550 milhões (R$ 2,2 bilhões) com a emissão de notas seniores garantidas, trocando dívidas de curto prazo por notas seniores com vencimento em 2020.

Além disso, em junho desse ano suspendeu temporariamente o pagamento de credores e do leasing de aeronaves pelo período de 3 a 6 meses para manter uma liquidez mínima, enquanto renegocia sua dívida.

A empresa também colocou em curso no primeiro semestre de 2019 um plano de redução de frota e de capacidade em rotas menos rentáveis. Já foram suspensas diversas rotas, como de Bogotá a Montevidéu, Chicago e Boston, Lima – Mendoza, El Salvador – Boston, ou Guatemala – Chicago. Por outro lado, a companhia ampliou  frequências em rotas como Bogotá – Nova York, Bogotá – Buenos Aires, ou Lima – Santiago.

Mudanças no Conselho de Administração do grupo também serviram para aumentar a transparência e melhorar a credibilidade da gestão. O experiente executivo Anko Van der Werff, ex-CEO da KLM e da Qatar Airways, foi designado presidente da companhia, após o Synergy Group, do empresário Germán Efromovich, perder o comando da Avianca Holdings por descumprir um acordo de cobertura por um empréstimo da United Airlines. Com isso, o controle acionário passou para as mãos da sócia minoritária Kingsland, que possui cerca de 22% das ações com direito a voto do grupo. A presidência do conselho administrativo do grupo saiu das mãos de Germán Efromovich, do Synergy Group, para Roberto Kriete, empresário salvadorenho do Grupo Taca, representando a Kingsland Holdings.

Tenho passagem para voar com a Avianca Holdings, devo me preocupar?

Quem tem viagem planejada para os próximos meses não precisa se desesperar. A Avianca Holdings ainda tem muitos ativos para vender e capacidade para enfrentar a crise de liquidez no curto prazo. Diferentemente do que fez a Avianca Brasil, o grupo colombiano colocou dezenas de aeronaves à venda e cortou rotas antes que a situação chegasse a um patamar insustentável. Além disso, após a troca do comando tem boas chances de conseguir mais um aporte financeiro dos acionistas e de ampliar seu financiamento via mercado, ainda que com juros mais elevados.

Vamos acompanhar com atenção a evolução dos fatos e os próximos resultados da companhia, já que o risco de uma deterioração é real. Afinal, essa história de não pagar fornecedores e empresas de leasing a gente já viu recentemente como termina. E o resultado não é nada bom!

Investigação sobre suspeita de fraude

Não bastassem os problemas financeiros, a Avianca Holding descobriu, numa investigação interna, que funcionários do grupo, incluindo membros da alta administração e do conselho de administração, forneceram passagens aéreas, upgrades e benefícios para funcionários de governos em determinados países em 2017.

A empresa notificou o Departamento de Justiça dos EUA e a Securities Exchange Commission (SEC) sobre a investigação e destacou que está cooperando com o governo americano.

Em um comunicado ao mercado, a companhia destacou que fez revisões em suas políticas em 2018, para evitar esse tipo de prática, limitação inclusive o número de pessoas autorizadas a emitir passagens aéreas gratuitas ou com descontos, ou realizar alterações e upgrades em bilhetes.

Falência da Avianca Brasil

Em sessão realizada no fim de julho, três dos cinco desembargadores da 2ª Câmara Reservada de Direito Empresarial do Tribunal de Justiça de São Paulo votaram a favor da falência da Avianca Brasil. Um magistrado votou contra e outro está impedido de votar. O julgamento deve terminar 27 de agosto, quando é esperada a decisão final.

O Tribunal analisa um agravo interposto pela arrendadora Swissport, credora de aproximadamente R$ 17 milhões, alegou que o plano de recuperação judicial da Avianca é inexequível, por se basear fundamentalmente na transferência de slots, algo vedado pela legislação brasileira, e pelo fato das UPIs não ainda estarem devidamente constituídas. Além disso, suscitou manipulação do quórum de aprovação do plano.

Infelizmente, tudo indica que o capítulo final da história da Avianca Brasil se aproxima, deixando uma dívida bilionária para clientes, funcionários e credores.