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Voo de repatriação: como foi meu resgate e dos demais brasileiros retidos na Índia durante a pandemia

Voo de repatriação: como foi meu resgate e dos demais brasileiros retidos na Índia durante a pandemia

BOM Mumbai
GRU São Paulo
ET 8687
Avião Boeing 777-300ER
Classe Econômica
Poltrona 38J
Data 15/04/2020
Partida 02:46
Chegada 15:22
Duração
Por
26/04/2020 às 8:51

De acordo com o Ministério das Relações Exteriores, cerca de 16 mil brasileiros ficaram retidos no exterior após a pandemia do novo coronavírus (COVID-19) ser declarada. Turistas, estudantes e residentes, pessoas que do dia para a noite ficaram isoladas, sem poder sair devido às restrições de viagem, fechamento de fronteiras e cancelamento de voos.

Aproximadamente 10 mil brasileiros já retornaram ao país, em voos de repatriação organizados pelo Itamaraty. Eu fui um deles.

 

Situação dos brasileiros retidos no exterior

Cheguei à Índia com minha família no final de fevereiro, e logo fomos encaminhados para uma quarentena restritiva obrigatória. De acordo com a polícia local, não tínhamos autorização para sair de casa nem mesmo para comprar comida. A princípio sobrevivíamos pedindo refeições por entrega, mas até mesmo esses serviços começaram a sofrer interrupções e desabastecimentos.

voo repatriacao brasileiros

Participamos de várias entrevistas na mídia para expor a necessidade de um voo de repatriação.

Logo o lockdown geral na Índia deu início à “maior quarentena do mundo”, com 1,3 bilhão de habitantes com restrições de deslocamento. Mesmo com a evacuação emergencial garantida pelo seguro viagem, dependíamos da autorização do governo indiano para sair do país.

A situação dos brasileiros retidos na Índia era bem peculiar e consideravelmente pior do que a dos cidadãos presos na Europa ou Estados Unidos, por exemplo. Muitos haviam sido expulsos do hotel, agredidos e até assediados. No nosso caso em particular, a gravidez da minha esposa era uma preocupação extra, em um ambiente cada vez mais instável politicamente.

A crise diplomática poderia virar crise humanitária em uma fração de segundos.

Preparativos do voo

A resposta do Itamaraty veio rápida. Já estávamos mantendo contato com a Embaixada brasileira, que deu todo suporte e chegou até a oferecer suprimentos durante os dias de maior escassez. Um voo de repatriação foi autorizado pelo governo federal e logo voltaríamos para casa.

Só havia um problema: estávamos na cidade de Kochi, ao Sul da Índia. O voo só havia recebido autorização para pousar em Delhi e Mumbai —  este último com o aeroporto mais próximo, a cerca de 1.500 km de distância. Todos os voos domésticos estavam suspensos na Índia, assim como os deslocamentos interestaduais.

trajeto india onibus repatriacao

Metade da Índia de ônibus: trajeto de Kochi (Cochin) à Mumbai, passando por Cananor e Goa.

Mais uma vez foi necessária a ação do Itamaraty, dessa vez para fretar um ônibus que nos levaria numa jornada de três dias até Mumbai. Para diminuir o cansaço e os perigos da estrada, teríamos pernoite em hotéis com refeições inclusas.

ônibus repatriação brasileiros

Ônibus fretado para transportar os brasileiros até o aeroporto.

Não foi uma viagem fácil. Mesmo vazias, as estradas indianas são lentas e em mal estado de conservação. Além disso, condições climáticas desfavoráveis, ausência de banheiro e restaurantes pelo caminho, postos de gasolina desabastecidos e o medo de não chegar a tempo eram constantes.

Para piorar, checkpoints durante todo o caminho atravancavam ainda mais nosso progresso. Alguns policiais se mostravam arredios e com extrema má-vontade para ler as autorizações oficiais emitidas pelas autoridades indianas.

Checkpoints Índia

Checkpoints nem sempre amigáveis nas estradas indianas.

Voo de repatriação do Itamaraty

Placa de chegada à Mumbai

A tão esperada chegada à Mumbai, após muitos bloqueios na estrada.

Assim, foi com certa emoção que finalmente colocamos os pés em Mumbai. Recuperados após uma boa noite de sono, nos reunimos com os demais brasileiros que seriam repatriados. Ao todo, o voo teria 328 passageiros, entre cidadãos brasileiros e estrangeiros com residência no Brasil.

Preenchimento do "Formulário de Pedido de Repatriação"

Preenchimento do “Formulário de Pedido de Repatriação”.

Justamente pelo grande número de assentos ocupados, este não seria um voo operado pela FAB (Força Aérea Brasileira). O Itamaraty fretou um Boeing 777-300ER da Ethiopian Airlines, de matrícula ET-APX. A companhia já havia sido contratada para outras repatriações, mas essa seria a primeira visita do maior jato da Ethiopian ao Brasil, que opera regularmente a rota Addis Abeba x São Paulo com o Boeing 787-8 Dreamliner e o 777-200LR.

Boeing 777-300ER da Ethiopian Airlines

Boeing 777-300ER da Ethiopian Airlines

O voo estava programado para sair à tarde de Kathmandu, no Nepal. Partiria de Delhi às 23h e somente às 03:25 sairia de Mumbai até Guarulhos, com parada técnica na capital etíope.

Check-in e embarque

Por volta das 23h saímos do hotel em direção ao aeroporto. Funcionários do Consulado Geral do Brasil em Mumbai nos acompanharam, ajudando com o preenchimento de alguns formulários.

repatriação de brasileiros

O check-in seria feito na entrada do aeroporto mesmo, que a essa altura estava completamente vazio. Nosso voo seria o único do dia. Por isso, talvez, os funcionários e militares responsáveis pelo controle de entrada estavam bem desnorteados. Chegaram a me entregar o cartão de embarque errado duas vezes.

Aeroporto Internacional de Mumbai

Aeroporto Internacional de Mumbai, completamente vazio.

Ainda teríamos direito a uma bagagem de mão de 10 kg e uma mala despachada de até 23 kg, sem possibilidade de compra adicional. Mas na prática, não houve controle rigoroso sobre isso. Detalhe curioso: os assentos eram livres, embora gestantes, idosos e pessoas com necessidades especiais tivessem prioridade no embarque e lugar reservado na Classe Executiva.

Assentos livres

“Assentos livres”.

A Imigração foi confusa. Funcionários pouco habituados com passageiros brasileiros relutavam a acreditar que “GRU” era, de fato, a sigla do Aeroporto de Guarulhos, que serve São Paulo. Aliás, nem todos os passageiros falavam inglês e tiveram dificuldades de explicar isso aos mal-informados oficiais de imigração. O carimbo de saída levou mais tempo do que o esperado.

Uma vez dentro do saguão, mais espaços vazios. Quem está habituado aos locais públicos da Índia sabe que encontrar um lugar sem ninguém é raridade, ainda mais no aeroporto da maior cidade do país. Mas era exatamente isso que acontecia, para nossa total incredulidade. Do raio-x ao duty free, o cenário era fantasmagórico, quase pós-apocalíptico.

O avião já estava posicionado quando finalmente chegamos ao portão de embarque. Bem antes do horário previsto, já formávamos filas para embarcar. As prioridades foram respeitadas — o que é bem incomum em voos “normais” na Índia, a propósito.

Cabine e assento

Conforme informado no check-in, os assentos eram livres. As melhores poltronas ficaram para aqueles que chegaram primeiro. Felizmente a Embaixada havia sido avisada sobre a necessidade da minha mãe (com dificuldades de locomoção) e minha esposa (grávida) para assentos mais confortáveis, e logo elas foram realocadas para a Classe Executiva.

Para mim, meu pai e meu irmão, restaram três assentos não reclináveis colados na galley intermediária da aeronave. O que de maneira alguma foi um problema: estávamos gratos pela repatriação e teríamos embarcado até no porão se fosse necessário.

Ao contrário do que se poderia imaginar, não houve nenhum tipo de separação de assentos para o voo. Afinal, eram mais de 300 passageiros em situação de evacuação emergencial e que precisavam ser repatriados o quanto antes.

Como a maioria dos passageiros já estavam em quarentena obrigatória, não foi necessário estipular assentos separados ou distâncias mínimas. Apenas a distribuição de máscaras, luvas e álcool em gel foi feita pelos representantes consulares antes do embarque.

Voo de repatriação

Alguns passageiros foram mais criativos na proteção pessoal.

Na parada em Addis Abeba, funcionários em trajes especiais entraram para higienizar a aeronave, o que assustou muita gente. Nenhum passageiro saiu, apenas aguardamos o reabastecimento e a troca de insumos.

Aviões parados Ethiopian

Muitos aviões parados da Ethiopian em Addis Abeba.

Durante a viagem ainda seríamos surpreendidos com uma parada não-programada em Lomé, no Togo. Essa escala técnica havia sido suspensa desde 2017 nos voos comerciais da Ethiopian até São Paulo. Mas por alguma razão retornou neste voo.

Entre os passageiros, havia o rumor (não confirmado) de que a aeronave talvez estivesse pesada demais, levando um carregamento de matéria-prima para a produção de hidroxicloroquina, fornecidos recentemente pela Índia.

Entretenimento e amenidades

Embora fosse um voo fretado pelo Itamaraty, este também era um voo com características comerciais. Havia entretenimento a bordo, refeições e até o carrinho de duty free.

Serviço de bordo - Voo de repatriação

Serviço de bordo: quatro refeições foram servidas durante todo o trajeto.

Foram quatro refeições no total. Primeiro, um café da manhã com omelete e batata. No almoço, mais ovos, dessa vez com espinafre e linguiça. Nas duas refeições seguintes, finalmente tínhamos opções: chicken, beefveg. A carne bovina vinha acompanhada de macarrão. Para beber, sucos de laranja, maçã, abacaxi, tomate (quem toma isso, meu Deus?) e até cerveja e vinho.

Em comum, todas as refeições vinham com uma caixinha branca composta por pão, geleia, uma latinha de Coca-Cola e bolinho. Da segunda vez que a recebi, já parecia repetitiva; mas da quarta vez, parecia inacreditável.

A tela de entretenimento possuía uma seleção limitada de música e filmes. Infelizmente logo após o pouso em Addis Abeba as telas deixaram de funcionar. Os comissários não souberam precisar a razão e limitaram-se a dizer que havia sido uma “falha técnica”.

Ainda durante a parada na capital etíope, a equipe foi substituída e os novos comissários mudaram a versão. Disseram que havia sido uma “decisão deliberada para evitar toques na tela e a proliferação do contágio do coronavírus”. Meio tarde pra isso, né?

Comissários e equipe de solo

A equipe de solo no aeroporto de Mumbai foi improvisada por funcionários do próprio aeroporto e militares, ambos desorientados em relação aos procedimentos de check-in e imigração. Caso não tivéssemos chegado cedo, atrasos na decolagem seriam inevitáveis. Não dá para culpar a Ethiopian.

Em relação aos comissários, a equipe foi trocada duas vezes antes de pouso — tanto na parada em Addis Abeba, quanto em Lomé. Cada troca parecia um downgrade. Enquanto os primeiros comissários eram proativos e solícitos, a segunda leva parecia menos preocupada com os protocolos.

voo de repatriação

Comissárias da Ethiopian de máscara ao final do voo de repatriação.

ápice chegou na troca de comissários durante a escala técnica no Togo. Pela primeira vez víamos comissários sem o uso de máscara e permitindo a entrada indiscriminada de pessoas na Classe Executiva — até então reservada para os passageiros considerados grupo de risco e que precisavam ser isolados.

Chegada e desembarque

Perdemos um tempo considerável na parada em Addis Abeba. O que era para ser uma hora de reabastecimento passou mais que o dobro. A parada inesperada em Lomé também contribuiu para o atraso. Nossa chegada em São Paulo estava prevista para 12:50, mas só aconteceu efetivamente às 15:22.

Apesar disso, não havia o que reclamar. Estávamos em solo brasileiro, sãos e salvos. Apenas meus pais moram no Brasil, eu e minha esposa moramos na Tailândia. Mas com as fronteiras por lá também fechadas e voos suspensos, não havia alternativas. Mais do que uma decisão estratégica, a oportunidade de retornar ao Brasil foi um aprendizado pessoal e lição de humildade: jamais subestimar a importância do nosso passaporte.

A chegada ao Aeroporto de Guarulhos ainda seria marcada pelo bonito reencontro de famílias, que há muito não se viam e sabe-se lá quando poderiam tornar a se ver novamente em tempos tão instáveis como esses. Cartazes, abraços e choros de alegria tomaram conta do saguão.

Serei eternamente grato a todos os envolvidos na repatriação. Ao Luiz e ao Pedro da Embaixada do Brasil em Delhi, à Érika e ao Sérgio do Consulado Geral do Brasil em Mumbai, a todos que não pouparam esforços ao prestar assistência consular 24h por dia a toda minha família, mesmo aos que ainda nem nasceram.

Nos momentos mais difíceis, tive razões de sobra para voltar a ter orgulho de ser brasileiro.

Nota final.

Ethiopian Airlines

Mumbai - São Paulo

Voo ET 8687

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