Aurora boreal: as dicas de um especialista para ver o fenômeno

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Publicado 5 · set · 2018       10:28Atualizado 30 · maio · 2019

Se apaixonar à primeira vista é algo meio sem explicação. Acontece de uma hora para outra, mas com efeito imediato, sabe? Vale para qualquer coisa. Um ídolo, uma música, um bichinho de estimação, um desconhecido e, até mesmo, fenômenos da natureza (por que não?). Com nosso leitor Marco Brotto e a aurora boreal foi assim. O empresário de 47 anos, morador de Curitiba, não é somente um dos principais especialistas brasileiro em auroras mas, também, tem reconhecimento no mundo inteiro por suas pesquisas. Já são mais de 50 expedições a vários destinos do planeta para visualizar o fenômeno. Em uma interessante entrevista, ele dividiu sua história com o Melhores Destinos e nós contaremos tudo a seguir além de, claro, dar diversas dicas para quem quer encontrar o popular fenômeno pelo céu nas viagens. Confira!

O que é a aurora boreal?

Você com certeza já ouviu falar sobre ela. Aquelas luzes verdes que aparecem no céu em determinados lugares do mundo e são fenômenos procurados por diversos viajantes. A aurora polar é um fenômeno óptico composto de um brilho observado nos céus noturnos nas regiões polares. Isso acontece em função do impacto de partículas de vento solar com a alta atmosfera da Terra, canalizadas pelo campo magnético terrestre. Seu aparecimento depende da atividade das fulgurações solares. Dois tipos podem ser encontrados pelo mundo: no hemisfério Norte conhecemos como aurora boreal, enquanto no hemisfério Sul leva o nome de aurora austral.

Marco Brotto posa com aurora boreal ao fundo

Como tudo começou…

Marco Brotto estava com os amigos nos Estados Unidos e, em uma das noites, quis aproveitar para apreciar o céu estrelado, que costuma ser bem bonito na região em que estava. Foi quando um dos amigos entrou no assunto sobre as luzes verdes famosas no céu do Polo Norte e lembrou que se chamavam aurora boreal. “Não tinha a menor noção do que era”, conta ele, que também não imaginava que um dia seria referência no assunto.

A paixão por viajar fez com que ele comprasse passagens para o Alasca para buscar o tal fenômeno que despertou sua curiosidade. Para a sua infelicidade, nenhuma aurora boreal foi vista nesta primeira tentativa. Ele definiu a situação como “frustrante”, porém se sentiu desafiado e não parou por aí. Em outra oportunidade de viagem, estava em Milão e descobriu por meio de pesquisas que seria possível ver alguma aurora boreal na Noruega, justamente no período em que estaria na Europa. Claro que não pensou duas vezes e arriscou. Novamente não teve sorte, já que os passeios foram cancelados porque o fenômeno não apareceria.

Não satisfeito, ele insistiu e comprou outro passeio, destes que levam o turista a determinado lugar e ficam esperando pelo aparecimento das auroras. Na prática funciona assim: se a aurora aparecer, sorte a sua. Caso contrário, vamos embora e dinheiro perdido. O brasileiro achou interessante investir na tentativa, mas não teve sucesso mais uma vez. Quer dizer, não completamente. Isso porque na volta para a cidade ele até observou uma pequena aurora no céu e tirou foto, mas não era nada grande como ele imaginava. Inclusive, ele deixa um alerta: “as pessoas precisam alinhar bem a expectativa do que vão ver, porque muita coisa por aí é edição de fotos”.

Foi então que a sorte mudou. Ao chegar de volta ao hotel na Noruega, ele pegou o carro e resolveu fazer o caminho reverso, depois das duas horas da manhã. Brotto aproveitaria a ocasião para fazer algumas imagens aleatórias do céu, quando ele percebeu algo verde aparecendo na câmera. Ele relata que achou estranho, já que a olho nu não enxergava nada, somente um brilho. “Aquele verde começou a aumentar. Quando eu virei, percebi que o céu estava completamente verde. Foi um momento muito marcante em minha vida. Havia um “monstro verde” atrás de mim. Inicialmente senti medo, porque eu estava em um lugar completamente desconhecido, congelado (temperatura em torno de -15ºC), sozinho… Na sequência, quando o medo passou, veio a contemplação e a emoção enorme”.

Estudando auroras

Na sede de encontrar auroras com precisão, Brotto começou a estudar bastante sobre o assunto. Ele conta que se tornou referência com a ajuda da internet. Muita gente queria ver o fenômeno como ele e pedia dicas ao ver suas fotos nas redes sociais. Para entender mais, passou a se dedicar e então virou rotina acompanhar gráficos, ver dados da Nasa, ler artigos acadêmicos e, assim, ir se especializando cada vez mais. De 2011 para cá, ele diz que todos os dias estuda atividades da aurora boreal. “Não sou formado em Astrofísica, mas tenho um conhecimento prático muito grande sobre isso. Em função da minha paixão pelo assunto, consigo ter essa assertividade muito grande em minhas caçadas. De todas as noites que saí para caçar, somente cinco vezes não encontrei aurora. É tudo calculado”.

Pela experiência, hoje em dia quando analisa um gráfico da aurora, Brotto conta que consegue imaginar a forma como ela estará e o local exato. Há noites em que é possível encontrar cinco ou seis tipos de auroras, em perspectivas, formas e cores diferentes, de acordo com o lugar.

De uma simples curiosidade entre amigos a um estilo de vida, Brotto ressalta que fez mais de 50 expedições em busca de auroras boreais. Já passou pela Finlândia, Suécia, Rússia, Islândia, Canadá, Noruega, Groelândia, Canadá, Estados Unidos, entre outros países.

A ideia do especialista, agora, é estudar também tudo o que for possível envolvendo aurora austral e descobrir os locais em que é possível encontrar o fenômeno. Para dar início às pesquisas práticas, Brotto ficou por cerca de 15 dias na Nova Zelândia, fotografando e acompanhando gráficos para ter panoramas como tem da boreal. “Valeu como uma nova experiência para mim que sou especialista, porque agora também já observei como é a aurora austral. Eu gostei bastante, foi tudo muito válido, principalmente por ver aurora de uma maneira diferente”, disse.

Aurora boreal pelo mundo

Diante de tantos contatos pela internet, Marco Brotto achou que era hora de ajudar mais pessoas a encontrar auroras. Pensando nisso, ele passou a reunir e levar grupos para realizar as expedições. Para conhecer as datas, roteiros, valores, e outras informações sobre auroras em geral, basta acessar o site oficial, onde ele explica tudo detalhadamente.

O especialista ressalta que parece simples, mas não basta apenas procurar na internet e sair sem rumo nas caçadas. Há todo um estudo por trás de qualquer busca. Além disso, outro fator que pode ser crucial em sua viagem é se atentar às leis locais. Por exemplo, há leis do Ártico que proíbem o transporte de turistas sem credenciamento. Ou seja, qualquer condutor precisa ter uma licença, além da habilitação local. Não se encaixando neste perfil, estará fazendo de forma irregular – o que é bem ruim por diversos motivos. Entre eles, imagina se você tem algum imprevisto com a geleira nas estradas e precisa solicitar ajuda? Não será possível porque constatariam irregularidades e você seria preso.

“Nós contratamos serviços locais e eu decido o lugar que vamos caçar, tudo com responsabilidade e cautela. Procuramos mostrar a olho nu para as pessoas sentirem. Aurora para ser fotografada precisa estar fraca. Quando está forte, ela queima no céu e a emoção é tão grande que fica difícil registrar – nem a luz, velocidade, emoção e o sentimento quando se vive o momento com uma aurora”.

Dicas para ver aurora boreal

Apesar de todo o estudo, se a sorte também estiver a seu favor, melhor ainda. Uma pessoa qualquer pode estar viajando e ter a sorte de estar no lugar certo na hora certa, olhar para cima e a aurora boreal estar ali, sem nenhum planejamento. Claro que não é o que normalmente acontece. Na verdade, é bastante comum as pessoas viajarem sozinhas e voltarem frustradas por não terem encontrado auroras.

Entre os preparativos, estão o estudo do clima, a roupa certa a ser utilizada, equipamento fotográfico, entre outros. A dica principal é estudar bastante o que será feito! Por exemplo, se você não tem experiência em dirigir em estrada congelada, não faça isso. É muito comum ter acidentes. O fluxo de turistas para estas regiões é alto e as pistas não são preparadas. “Na Islândia, por exemplo, a gente usa carros grandes porque carros pequenos derrapam muito fácil e podem cair nos barrancos. A estrada tem geralmente limite de 90km/h, sem contar que o brasileiro não está acostumado com uma pista simples, congelada e sem nenhum acostamento. Então tudo deve ser observado. Com estudo tem mais chances de ver as auroras”, disse Brotto.

Se você quer saber se é possível encontrar aurora boreal em qualquer dia, inclusive no verão, a resposta está a seguir. O especialista explica que o problema do verão é a luz no céu, que dificulta a experiência. “Dá para ver quando há escuridão no hemisfério Norte. Cada latitude e longitude tem horário e período diferente em que vai ser mais ou menos provável de ver”.

Uma coisa é certa: para encontrar as auroras não basta entrar no site da Nasa, tentar “traduzir” os índices e iniciar sua viagem. Como foi explicado anteriormente, há diversos estudos por trás disso, então se informe bastante para não voltar para casa com sua experiência frustrada. Algumas pessoas pensam que é mais fácil encontrar auroras na Noruega do que na Islândia, mas na verdade não existe isso. “Aurora boreal é igual em todos os lugares. O que pode acontecer é a atividade chegar com mais força em um lugar específico, parecendo “mais bonito”. Por isso a importância de estudar bastante o local, para saber a direção da caçada.

Onde e quando encontrar aurora boreal?

De acordo com o nosso especialista, é bastante imprudente afirmar que há algum lugar específico para ver aurora. Como dito anteriormente, Brotto ressalta que todo um planejamento e estudo é necessário, mas aposta em Fairbanks (Alasca) no dia 21 de dezembro. “É a noite mais escura do ano, onde em dezembro o céu está mais limpo, além de outros fatores. O grande problema é que neste período a temperatura é de -40 graus. Eu, que gosto da temperatura negativa, suporto o frio, tenho equipamento e sei me cuidar, com certeza iria para esta região. Mas é necessário um preparo. As pessoas acham que -40 graus é uma coisa “comum”, dizendo “ah, já peguei -20 graus em Nova York”, mas não é bem assim. Com -40 graus, em um minuto a pessoa pode morrer”, lembrou ele.

Por outro lado, considerando sempre todas as informações deste texto com relação a preparo prévio, o especialista conta que é possível o viajante encontrar auroras na Finlândia, Suécia, Groenlândia (região autônoma da Dinamarca), Fairbanks (Alasca – EUA), Yellowknife (Canadá), Whitehorse (Canadá), Churchill (Canadá), Murmansk (Rússia), Tromsø (Noruega), Reykjavik (Islândia), entre outros locais que podem ser descobertos por meio de estudo técnico prévio. A vantagem é que são cidades com aeroportos internacionais, o que torna mais recomendado para uma primeira experiência.

Com relação ao melhor período para encontrar o fenômeno, Brotto conta que não há como garantir, mas existe uma faixa territorial e uma época do ano em que as auroras podem aparecer com mais facilidade. De setembro até o começo de abril em qualquer local do círculo polar as chances são as mesmas. Nesta época temos noite e dia no circulo polar, já que entre abril e agosto a luz solar impede a visualização da aurora.

Quanto custa caçar auroras?

Segundo Brotto, para uma experiência completa geralmente são necessárias 9 noites de viagem e 7 noites de caçada. Para isso, o viajante terá de investir algo entre 4 e 7 mil dólares, valor que pode variar de acordo com a região para onde você quer ir. No preço estão inclusos passeios destinados a cultura e experiência local, além de hotéis confortáveis, seguro, assistência e o principal: staff completo e dentro das normas de leis e segurança. “Recomendo essa quantidade de noites por vários motivos, até por uma divisão dos ciclos rotativos de Sol, Terra e Lua. Você até pode gastar menos dinheiro indo por conta própria, mas se fizer todas as atividades não terá muita diferença de valores. Uma recomendação é se atentar às empresas que fazem passeios com motoristas sem habilitação local, o que pode resultar até em deportação, por falta de regulamentação.”

E você, já teve alguma experiência com aurora boreal ou austral? Participe comentando abaixo e ajude outros leitores!