Quatro desafios que a Air Europa terá que enfrentar para operar voos domésticos no Brasil!

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21 · maio · 2019       4:37

Essa semana ganhou destaque a informação de que a Air Europa, uma companhia aérea espanhola de baixo custo, realizou um pedido à Junta Comercial de São Paulo para criação de uma empresa aérea no Brasil. A notícia é bem-vinda e pode trazer uma maior competição no setor, com potencial para redução de tarifas. Mas, há incertezas e desafios que precisam ser superados. Saiba mais sobre a Air Europa e as etapas que precisam ser vencidas até que a empresa se torne um competidor com fôlego para enfrentar as principais companhias aéreas nacionais, nesse post especial.

Sobre a Air Europa

A Air Europa foi fundada em 1984 com o nome de Air España. Realizou seu primeiro voo em 1986, partindo do aeroporto de Madri, sua principal base de operações até hoje. Faz parte do grupo Globalia, o maior conglomerado de turismo da Espanha, dono de marcas como “Halcón Viajes” e “Viajes Ecuador”, “Travelplan” e a rede de hotéis “Be Live”.

Ao todo, a empresa opera em 70 destinos na América do Sul, Europa, Estados Unidos, América Central, Caribe e África. No Brasil, são 18 voos semanais de Madri para três cidades: São Paulo, Salvador e Recife. A partir de novembro a Air Europa também terá voos para Fortaleza. A empresa já chegou a operar voos para o Rio de Janeiro, mas a operação foi descontinuada.

A companhia possui 44 aeronaves. Na frota de longo curso, a Air Europa possui 12 Boeing 787 Dreamliner em operação, com capacidade para 292 passageiros, e mais 16 pedidos confirmados. Além disso, possui 12 Airbus A330 em operação, com capacidade para 299 passageiros. Nos voos de curta duração, a Air Europa opera 21 Boeing 737-800 (mesmo modelo utilizado pela GOL no Brasil), além de mais 11 Embraer 195 e 7 ATR (mesmos modelos utilizados pela Azul no Brasil) na Air Europa Express, sua subsidiária de voos regionais.

A empresa faz parte da aliança global Skyteam, junto com Delta, Air France, KLM, Alitalia, Aerolíneas Argentinas, Korean Air, Aeroflot, China Airlines, China Eastern, entre outras. Possui também parceria separada com a Etihad, que não faz parte da aliança.

Skyteam

 

Quatro desafios da Air Europa para constituir uma companhia aérea no Brasil

1. Leis e regulamentação

O principal desafio é a aprovação da Lei que permitiria companhias aéreas com 100% de capital estrangeiro no Brasil. O Governo Federal editou uma Medida Provisória que perderá a validade essa semana. E não há garantia de que o projeto de Lei que está no Congresso de fato será aprovado. Nesse caso, o limite  de 20% volta a valer, conforme determinado pelo Código Brasileiro de Aeronáutica.

Além disso, o Senado incluiu duas emendas polêmicas no projeto. Uma delas acaba com a cobrança pela bagagem despachada em voos nacionais, o que, segundo a Anac, vai desestimular competidores que tenham interesse de atuar no Brasil. A outra estabelece algumas exigências para empresas estrangeiras que venham atuar no Brasil, como a oferta de 5% das operações para voos regionais, com menor viabilidade econômica.

São incertezas que, se não forem superadas, diminuem muito a chance da Air Europa, ou de qualquer outro competidor estrangeiro vir a operar no país.

2. Dinheiro e financiamento

A Air Europa não faz parte de nenhum grande grupo da aviação mundial. Muito pelo contrário, é menor do que a Latam, a GOL e a própria Azul.

Iniciar a operação de uma companhia aérea em qualquer país, especialmente em dimensões continentais como o Brasil, requer muito, mais muito dinheiro! É necessário uma escala mínima para que a operação seja viável economicamente. A questão que surge é como a Air Europa, ou a Globalia, seu grupo controlador, pretendem se financiar? O grupo tem recursos próprios suficientes? Pretende utilizá-los? Não faria mais sentido apostar no crescimento e na consolidação da própria Air Europa, antes de iniciar uma complexa operação doméstica num país complexo como o Brasil?

3. Aeronaves

A Air Europa possui apenas 44 aviões. Mas todos eles em operação nos destinos atendidos pela empresa. Para se ter um parâmetro de comparação, o grupo Latam possui 312 aeronaves (137 em operação no Brasil), a GOL 120 e a Azul 129. A Avianca chegou a ter 53 aviões, passando para 21 e, agora, apenas 4.

Comprar novas aeronaves requer de 5 a 10 anos de planejamento prévio. E, por mais que a empresa possa arrendar equipamentos ou realizar contratos de leasing, não é uma operação simples ou rápida. 

4. Tempo

Este talvez seja o maior desafio da Air Europa. A burocracia e os demais desafios que aqui apontamos vão demandar, com sorte, alguns meses. Até lá, a Avianca corre um enorme risco de falir sem conseguir leiloar os seus slots. Enquanto isso, os espaços que a empresa deixou vão rapidamente sendo ocupados. A Latam arrendou 10 aeronaves que eram da Avianca, boa parte deles já pintados com as cores da empresa. Já a GOL alugou 4 aviões da Boeing 737 que eram da Jet Airways, companhia aérea indiana que deixou de operar esse ano, e estuda arrendar outras 6 aeronaves da mesma empresa, de acordo com o site Aeroin. E a Azul segue recebendo novas aeronaves compradas anos atrás.

O fato é que em poucos meses as rotas economicamente viáveis da Avianca Brasil já terão sido ocupadas pelas três principais companhias aéreas brasileiras, com exceção aos aeroportos de Congonhas e Santos Dumont, cujos slots (horários para pousos e decolagens) são totalmente controlados pela Anac. Nesse caso, o órgão regulador deverá aguardar alguns meses até redistribuir esses horários, em cumprimento às exigências legais. Estaria a empresa criada pela Air Europa habilitada em tempo hábil para participar dessa divisão?

O grande “porém” na divisão dos slots de Congonhas e do Santos Dumont que pertenciam à Avianca é que legislação nacional determina que a redistribuição seja feita igualmente entre as empresas interessadas em operar nesses aeroportos. Só que 1/3 ou 1/4 (dependendo da quantidade de interessados) dos poucos slots da Avianca dificilmente garante uma viabilidade mínima de operação para uma nova empresa. Ou seja, essa divisão em partes iguais prevista em Lei acaba favorecendo principalmente a GOL e a Latam, que dominam mais de 80% dos horários em Congonhas, por exemplo. A Azul ainda poderia juntar uma fração desses slots com os que já possui, para emplacar a sonhada rota Congonhas – Santos Dumont. Mas, o que vai acontecer? Só o tempo dirá….


Claro que os desafios não se limitam aos citados nesse post. Mas, esses são os principais. Definitivamente a Air Europa não terá vida fácil se vier mesmo operar no Brasil. Mas quem foi que disse que o setor aéreo era fácil???

E você, o que acha? A Air Europa será mesmo a primeira companhia aérea estrangeira a iniciar operações domésticas no Brasil? Comente e participe!