De patinho feio a cisne negro? Como o Aeroporto do Galeão “renasceu” após anos de esvaziamento
De patinho feio a cisne negro? Como o Aeroporto do Galeão “renasceu” após anos de esvaziamento
O Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, tem recuperado um protagonismo outrora inquestionável. No ano passado, 17,9 milhões de pessoas passaram pelo terminal fluminense em voos nacionais e internacionais, um número recorde para o terminal e cerca de 25% superior a 2024. É o resultado mais tangível de um movimento operacional (e político) que começou em 2023.

Uma articulação iniciada pelo governo estadual e a prefeitura do Rio, e que mais tarde envolveu o governo federal, previa uma desidratação do Aeroporto Santos Dumont de olho em uma “reativação” do Galeão. A proposta avançou ao longo de 2023 até entrar em vigor em janeiro de 2024. Mas não sem resistência.
Inicialmente, as autoridades queriam restringir os voos no Santos Dumont para destinos a até 400 km. No entanto, após reação das companhias aéreas e até mesmo do Tribunal de Contas da União (TCU), a decisão final foi a de limitar o terminal a um teto de movimentação de 6,5 milhões de passageiros por ano. Em 2023, o Santos Dumont recebeu mais de 10 milhões de viajantes.
Independentemente da saída encontrada, fato é que o Galeão saiu vencedor nessa história toda. Diversas rotas foram transferidas do Santos Dumont para o seu vizinho, o que ajudou no reflorescimento de um aeroporto que foi referência nacional em décadas passadas e abrigou aeronaves icônicas como o supersônico Concorde, mas que há pouco tempo flertava com o ostracismo.
Galeão enfrentou crise e pandemia antes de retomar protagonismo

Os números da concessionária RIOgaleão, liderada até agosto do ano passado pela Changi, revelam uma redução constante no total de passageiros transportados de 2015 a 2021 – a queda foi ainda mais acentuada na pandemia.
A recuperação já era aguardada para 2022 e 2023, à medida que a aviação voltava ao normal. Mas saiu melhor do que a encomenda: o volume de viajantes transportados teve um salto impressionante de 7,9 milhões em 2023 para 14,4 milhões em 2024. Fruto, em partes, da nova configuração aeroportuária do Rio.
O Galeão sofreu dos mesmos sintomas de outros grandes aeroportos brasileiros. A crise econômica que atingiu o Brasil entre 2015 e 2016 gerou uma fuga em massa de companhias aéreas internacionais – algumas nunca mais voltaram ou retornaram com menos fôlego. Em 2016, a concessionária chegou a desativar o Terminal 1, que estava às moscas!
Em 2020, a pandemia foi outro duro golpe para o Galeão, já que mais empresas se recolheram a seus países de origem e as locais cortaram a maioria de suas rotas.

A administração do aeroporto, privatizado em 2013, também enfrentou problemas internos. O principal deles foi a saída da Odebrecht da sociedade com a Changi – acionista majoritária da concessão do Galeão até agosto, quando vendeu sua parte para a Vinci Compass. A empresa brasileira de engenharia e construção estava envolvida diretamente na Lava-Jato, o que a levou a uma mudança de rota que resultou no abandono da concessão em 2017.
A RIOgaleão bem que tentou devolver a operação já em 2023, alegando falta de rentabilidade. O governo, entretanto, costurou um acordo para que a Changi seguisse à frente do aeroporto até o novo leilão do terminal, que inicialmente aconteceria em 2024, mas só ocorreu em abril deste ano (leia mais a seguir).
Nesse meio tempo surgiu a proposta de transferência de voos do Santos Dumont para o Galeão, o que caiu como uma luva para aumentar a rentabilidade da concessionária.
Novo leilão coloca o Galeão nas mãos da Aena
O Galeão terá um novo administrador ainda este ano. A espanhola Aena, maior operadora aeroportuária do mundo em número de passageiros, venceu o novo leilão do aeroporto com um lance de R$ 2,9 bilhões. A concessão vai até maio de 2039.

Entre os principais destaques dessa nova fase do Galeão está a saída total da Infraero. O documento também prevê que o novo dono não será obrigado a construir uma terceira pista, e exige a criação de um mecanismo de “compensação” em caso de restrições de voos no Aeroporto Santos Dumont.
Vale lembrar que o terminal focado em operações domésticas no Rio tem problemas recorrentes, sobretudo climáticos, que obrigam o seu fechamento temporário.
Além disso, haverá a substituição de uma contribuição fixa por um pagamento variável de 20% sobre o faturamento até 2039, repassado à União como taxa de concessão.
Retomada do Galeão: 51 destinos e 18 milhões de passageiros
Depois de anos de crises e após a atuação das autoridades para a sua reabilitação, o Galeão viu os resultados aparecerem relativamente rápido. O aeroporto fechou 2025 com voos para 51 destinos – 25 domésticos e 26 internacionais – e 17,9 milhões de passageiros transportados.

No ano passado, o Galeão estreou ou reinaugurou voos para Cuiabá, Macapá e Curitiba. No mercado internacional, os destinos de Toronto (Canadá), Santa Cruz de la Sierra (Bolívia), Mendoza e Rosario (Argentina) foram adicionados à malha do aeroporto. E 2026 promete muito mais.
As novidades, porém, começaram já em 2024, com as adições domésticas de Goiânia, São Luís, Porto Seguro, São José dos Campos, Caxias do Sul (sazonal), Manaus e Florianópolis (sazonal). No internacional, Dallas (sazonal), Nova York (sazonal) e Montevidéu.
Além de estreias e retomadas de rotas que estavam paradas, vale destacar que algumas linhas ganharam voos a mais. Um dos casos mais emblemáticos foi o da Emirates, que cresceu sua operação no Rio para uma frequência diária após cinco anos.

As viagens domésticas e internacionais se retroalimentam, com destaque para o exterior. Com mais voos nacionais, as companhias aéreas de fora conseguem encher seus voos por meio da conectividade, o que desenha um cenário mais favorável para a implementação e manutenção de operações para outros países.
Atualmente, o Galeão só está atrás dos aeroportos de Guarulhos e Congonhas, em São Paulo, em termos de movimentação de passageiros. A capacidade anual do terminal fluminense é de 37 milhões de viajantes, o que garante uma ampla margem para crescimento frente aos números atuais.
Gol “toma conta” do Galeão e aposta em hub
Quando saiu da recuperação judicial, em junho, a Gol estabeleceu como meta transformar o Galeão em um hub (centro de distribuição de voos). E a teoria parece estar virando prática.

Ao lado do governo federal e da prefeitura do Rio, a Gol anunciou a implementação de um hub internacional no Galeão, começando com voos diretos para Nova York (Estados Unidos) a partir de julho. Segundo o CEO, Celso Ferrer, a cidade também terá ligações para Lisboa (Portugal) e Paris (França) em breve.
A novidade se soma ao avanço doméstico que a Gol já executa no Galeão, e que ajudará a aérea a alimentar seus voos internacionais de longa distância para a Europa e os Estados Unidos.
A Gol afirma estar fazendo investimentos de aproximadamente US$ 1,2 bilhão em ativos no Rio de Janeiro. São mais de 30 rotas domésticas e internacionais a partir da cidade, e de acordo com Ferrer, 85% do crescimento recente da companhia aérea aconteceu na capital fluminense.

O movimento de expansão da Gol no Galeão começou já no ano passado. A empresa fechou o segundo semestre com mais de 39 mil voos e 7 milhões de assentos no Rio de Janeiro – na soma dos aeroportos do Galeão e no Santos Dumont – de julho a dezembro. Segundo a companhia, em comparação ao mesmo período de 2024, a alta foi de 21%.
O destaque está justamente no Galeão, onde a Gol colocou mais de 29 mil voos e 5,3 milhões de assentos até o fim de dezembro. Trata-se de um aumento de 22% sobre o primeiro semestre de 2025 e de 30% contra o segundo semestre do ano passado. Frente ao período julho-dezembro de 2023, quando o Santos Dumont ainda dominava as operações no Rio, a alta é de 150%.

Por fim, a Gol teve um pico de até 170 decolagens diárias no Galeão, “maior volume já documentado nesse terminal por uma única companhia aérea”, segundo a empresa.
Segundo dados da plataforma de monitoramento de voos Flightradar24, a Latam conta, hoje, com 16 destinos a partir do Galeão. A Azul, por sua vez, chega a apenas cinco destinos.
É como se cada uma das três grandes companhias aéreas nacionais fosse dominante em um dos três grandes aeroportos brasileiros: Latam em Guarulhos, Azul em Campinas e Gol no Galeão. O terminal da capital paulista, porém, também tem forte presença da Gol e continuará sendo muito cobiçado.
Acordo de R$ 270 milhões abriu mais caminhos para o Galeão

Em 2024, a prefeitura e a RIOgaleão assinaram um acordo de Cooperação Técnica de cerca de R$ 300 milhões com o objetivo de propor soluções para ampliar a malha aeroportuária carioca. Um dos objetivos da parceria é o de viabilizar incentivos por meio de um “fundo municipal” para incentivar a aviação na cidade.
Segundo a prefeitura, a previsão é de investimentos de R$ 270 milhões em três anos. A prefeitura e governo estadual vão aplicar R$ 120 milhões, enquanto a RIOgaleão fará o aporte de R$ 150 milhões.
Rio de Janeiro continua sendo um dos destinos mais procurados por turistas
Muito do protagonismo de um aeroporto depende do interesse dos passageiros pelos seus arredores e, é claro, da oferta de voos. Não por acaso, a chegada de turistas estrangeiros ao Rio entre 2016 e 2019 registrou quedas consecutivas, segundo dados da prefeitura. Um ritmo que acompanhou a desidratação do Galeão, que deixou de receber muitas ligações internacionais.

O oposto também é verdadeiro. Com a retomada do turismo após a pandemia e a “reabilitação” do Galeão, a Embratur registrou 2,1 milhões de visitantes estrangeiros na cidade no ano passado. Segundo o órgão, o número é 43,7% superior a 2024 e está acima da média nacional, além de representar um recorde para o Rio.
Acessibilidade e estrutura ainda são desafios

Projeto de metrô leve de superfície para o Galeão (2021)
Embora o cenário geral seja positivo, uma das principais reclamações dos passageiros envolve o acesso ao Galeão. A cidade não tem, por exemplo, uma linha de metrô que chegue ao aeroporto – as formas mais comuns são carros de aplicativo e táxi, que costumam ser viagens caras. Há também opções de ônibus que saem de alguns pontos da cidade e são mais baratos.
Duas propostas de mobilidade estiveram nos holofotes nos últimos anos: uma delas era a ligação entre Santos Dumont e Galeão por meio de barcas. A prefeitura chegou a abrir um processo de licitação, mas não houve interessados.
Outra ideia envolvia a criação de uma linha de metrô leve de superfície, que ligaria o Centro do Rio ao aeroporto em um trajeto de 17 km. O projeto, revelado em 2021, custaria nada menos do que R$ 2 bilhões, mas até hoje não saiu do papel.
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Mateus Tamiozzo
Sou jornalista com 10 anos de experiência em aviação - e completamente apaixonado por tudo o que envolve aviões e aeroportos. No Melhores Destinos, fico bem de olho nas companhias aéreas e na movimentação sempre intensa do setor, tudo para levar a você informações úteis e atualizadas.
Na bagagem, 26 países, incluindo a Coreia do Norte, e 17 companhias aéreas. E é só o começo!