Turismo na Coreia no Norte: um relato de três dias na capital Pyongyang

Redação 7 · maio · 2018

Não perca mais nenhuma promoção!

Promoções no e-mail

Faça como 1 milhão de brasileiros. Cadastre seu email e receba as melhores promoções de passagens!

Promoções no Whatsapp

Agora você pode receber promoções direto no Zap! Escolha se quer receber todas ou só as melhores!

Independentemente de qualquer posicionamento político, visitar a Coreia do Norte é certamente uma experiência única. O país, que é um dos mais fechados do mundo, desperta curiosidade em muitos viajantes – são poucas as informações que se tem de lá e também não é tão simples (nem barato) o acesso ao território norte-coreano. O leitor Marcelo Bohm esteve no país no fim de 2017, justamente quando os ânimos entre  Kim Jon-un e Donald Trump estavam ainda mais acirrados. E para nossa sorte, ele escreveu um relato interessantíssimo sobre como foram os preparativos e os três dias em que esteve na capital Pyongyang. Confira!

Roteiro de 3 dias em Pyongyang

* Por Marcelo Bohm

No dia 1º de setembro de 2017 eu parti de Caxias do Sul (RS) para o destino mais difícil, incomum e misterioso entre todos os 34 países em que já estive: a República Popular Democrática da Coreia (mais conhecida como Coreia do Norte). O desejo de conhecer o país comunista mais fechado do mundo vem de longa data. Sempre quis saber o que se escondia por trás de todo aquele mistério e empecilhos criados pelo governo norte-coreano para que se possa ter acesso a essa nação. São poucas as fotos e relatos de viagens sobre a Coreia do Norte disponíveis na internet, assim como são escassas as informações sobre como chegar até lá.

Foi então que criei e coragem e comecei, ainda no final de 2016, a pesquisar em sites e blogs (internacionais, em sua maioria) sobre como conseguir a permissão para entrar no país de Kim Jon-un. As primeiras informações que obtive não foram animadoras. Constatei que o turismo na Coreia do Norte é muito restrito: não é possível ficar sozinho dentro do país, dois guias norte-coreanos ficam juntos ao turista durante todo o período  (o turista só fica sem a presença dos guias dentro do hotel, na hora de dormir).

Além disso, só é possível entrar na Coreia do Norte através de uma agência internacional de turismo autorizada pelo governo norte-coreano (existem menos de vinte em todo o mundo, a maioria está localizada na China); essa agência será responsável por entrar em contato com a KITC (Korea International Travel Company), órgão estatal responsável pelo turismo da Coreia do Norte, que analisará se autoriza (ou não) a sua entrada. A agência internacional também é necessária para a solicitação do visto de entrada norte-coreano, obrigatório para todos os países.

Depois de entrar em contato com várias agências, também constatei que fazer turismo na Coreia do Norte não é nada barato (uma média de R$ 1.000,00 por dia, além do valor dos voos). A agência mais econômica que encontrei foi a Young Pioneer Tours, a mesma agência responsável por levar Otto Warmbier a Pyongyang (turista norte-americano que ficou um ano preso por roubar um pôster do hotel e morreu em coma profundo). Apesar da fatalidade com Otto, as avaliações da agência eram satisfatórias, assim como os preços: a partir de 450 euros para pacotes de três dias em Pyongyang.

Para conseguir o visto, a agência solicita uma lista de documentos, que são analisados pelos representantes norte-coreanos e, depois de alguns meses (ou semanas, com muita sorte), o visto é liberado. A taxa para emissão do visto é de 50 euros. Ou seja, com 500 euros (cerca de R$ 2.100) é possível entrar e sair da Coreia do Norte de trem a partir de Dandong, cidade chinesa na fronteira com a Coreia.

Contudo, além de conhecer a Coreia do Norte, uma das minhas vontades era entrar na nação comunista através da Air Koryo, a única companhia aérea estatal do país. A Air Koryo é conhecida como a pior empresa aérea do mundo (o que é uma injustiça, pois já viajei com muitas empresas piores do que essa, tanto nacionais como internacionais). Só existem duas opções de voos para Pyongyang: a partir da China ou a partir de Vladivostok, cidade no extremo oriente da Rússia. Essa última opção me soou curiosa e mais interessante, tanto que foi a escolhida por um valor adicional de 350 euros. Com a compra desse voo, o total do meu pacote para a Coreia do Norte foi de 850 euros.

Após fechar o pacote com a Young Pioneer, consegui uma promoção de voos do Brasil para a China pela Aeromexico por R$ 2.100 (mais barato do que o curto trajeto até a Coreia). Depois de um ano de programação, bilhetes comprados e pacote fechado, chegou a hora de embarcar. Infelizmente essa hora chegou no pior momento possível, quando os ataques entre Coreia do Norte e EUA, Japão e Coreia do Sul tornaram-se mais intensos, fazendo com que a ONU agendasse uma reunião para tratar da “ameaça norte-coreana”. Mas eu não podia voltar atrás, a viagem estava marcada e prestes a começar.

Viagem à Coreia do Norte

O meu percurso até a República Popular Democrática da Coreia demorou alguns dias. Saí de Caxias do Sul de ônibus até Porto Alegre, onde peguei um voo até São Paulo. De lá, voei com Aeromexico com uma escala na Cidade do México e destino final em Xangai, onde fiquei por dois dias. Da China, voei com a empresa japonesa Peach para Tóquio, onde fiquei por mais dois dias. Da capital japonesa, fui até o aeroporto de Narita e peguei um voo da companhia russa Aurora (em um assustador avião turboélice, modelo De Havilland DHC-8- 400, com capacidade para apenas 70 passageiros). Depois de três horas sobrevoando o Mar do Japão, cheguei em Vladivostok, a última grande cidade do leste da Rússia, conhecida por ser o fim da Ferrovia Transiberiana.

Em Vladivostok, agendei o segundo dia para minha ida ao Consulado da Coreia do Norte na cidade. A agência internacional me avisou que, devido a minha decisão de não entrar através da China (destino de quase todos os turistas, onde os guias os esperam com o visto pronto), eu teria que ir sozinho no Consulado em Vladivostok para retirar meu visto. Chegando lá, um sistema de segurança liberou minha entrada, onde fui entrevistado por um funcionário norte-coreano.

 

Como tudo pode ficar ainda pior, a entrevista teve que ser obrigatoriamente em russo; imaginar um brasileiro e um norte-coreano conversando em russo chega a ser surreal, mas me preparei com antecedência para esse momento e tudo correu bem. Enquanto os turistas que entram pela China recebem apenas um visto provisório em um pedaço de papel que é recolhido na saída do país, eu saí do Consulado de Vladivostok com um visto da Coreia do Corte colado em meu passaporte.

Depois de passar dois dias em Vladivostok, parei e analisei as condições de segurança da Coreia do Norte naquele momento: um míssil norte-coreano havia passado sobre o território do Japão; outros novos testes nucleares foram realizados em Pyongyang; o presidente norte-americano ameaçava destruir a nação comunista completamente. Depois de um ano planejando essa viagem, nada poderia ser pior. Mas já estava tudo comprado e não havia possibilidade de cancelamento. Decidi assumir o risco e fui até o aeroporto.

No aeroporto de Vladivostok, procurei pelo check-in da Air Koryo. Lá, tive o meu primeiro contato com o povo norte-coreano: esperei em uma fila no meio de uma multidão de trabalhadores que voltavam ao seu país (a exportação de trabalhadores para China e Rússia é uma prática comum na Coreia do Norte). Um repórter russo tentava entrevistar alguns norte-coreanos, que ficavam calados ao olhar de uma espécie de líder, que prontamente expulsou a equipe de reportagem. Eu procurava não chamar a atenção para a minha presença, pois eu começava a me sentir inseguro. A tela acima do guichê informava meu próximo voo: AIR KORYO JS272 PARA PYONGYANG.

No raio-x, um médico coreano foi levado com prioridade até a frente da fila pelo “líder” do grupo, sem que ninguém reclamasse. Na sala de embarque, havia uma ala separada apenas para o voo com destino a Pyongyang. Nela, os vidros e a ponte de embarque (finger) possuem adesivos brancos, impedindo a visualização da aeronave (um Tupolev Tu-204 de fabricação russa). Além de uns quatro empresários russos, eu era o único ocidental a entrar naquele voo.

A aeronave da Air Koryo era simples, mas nada deplorável. Havia uma classe executiva e a econômica, dividida em duas fileiras de três assentos. Algumas telas no teto da aeronave mostravam cenas de shows e musicais norte-coreanos. No serviço de bordo, foi servido um hambúrguer e refrigerante da marca Air Koryo (muito comum na Coreia do Norte). Os passageiros receberam um jornal coreano; na minha vez, a comissária me entregou uma revista norte-coreana escrita em russo, a única disponível para não-coreanos. Após 1h30 de voo, finalmente aterrissei no país mais fechado do mundo.

Primeiro dia

Os primeiros minutos no Aeroporto de Pyongyang foram tensos. Após passar pela imigração, fui para a esteira de bagagens e olhei em volta. Os quatro russos não estavam lá, eu era o único estrangeiro entre os norte-coreanos. Soldados fiscalizavam tudo que se passava, a impressão é que eu poderia ser preso a qualquer momento, por qualquer atitude suspeita. Um coreano tirou a mala da esteira e derrubou em cima de minha perna; veio pedir desculpas e eu, morrendo de dor, disse que estava tudo bem (naquele momento, poderia até cair um pedaço de chumbo em cima de mim que eu não reclamaria de nada).

Depois de passar com a mala por mais um controle de segurança, finalmente me encontro livre no saguão do aeroporto, onde meus dois guias norte-coreanos me aguardavam: o guia Qwack e a Kim, dois jovens muito simpáticos, que me receberam da melhor forma possível – e que falam inglês. Todo o meu receio sobre o país foi dissipado com a recepção carismática dos meus guias.

Durante a viagem, eu teria a companhia de um grupo de oito viajantes em Pyongyang. No entanto, o grupo só chegaria pelo trem da China no final do dia; assim, eu tive o primeiro dia de viagem sozinho com os guias e uma van particular. Das janelas do automóvel, o clima socialista era visível através dos prédios cinzas e dos cartazes de propaganda comunista espalhados pelas ruas.

Do aeroporto, fomos almoçar em um restaurante tradicional coreano. Foi servido um naengmyeon (macarrão lámen frio com caldo de legumes), algumas porções de kimchi (vegetais fermentados em conserva) e refrigerante de pera. A meu pedido, consegui versões vegetarianas dos pratos tradicionais.

Depois do almoço, fui conhecer a Grande Casa de Estudos do Povo, a Biblioteca Nacional da Coreia do Norte. A instituição possui mais de 30 milhões de livros, salas de estudos, computadores, acesso à intranet norte-coreana (apenas com sites autorizados pelo governo), entre outros serviços. A Grande Casa de Estudos do Povo ainda oferece diversos cursos para a população, como cursos de inglês, chinês, russo e alemão. Todos os serviços são gratuitos.

No final da tarde, fui levado até a Praça Kim Il-sung, espaço escolhido pelos locais para caminhar, conversar e andar de patins após os seus expedientes. A presença de diversos símbolos de exaltação à pátria e ao comunismo na praça é constante.

No início da primeira noite, fui com meus guias até a estação de trem de Pyongyang para receber o grupo dos oito turistas que vinha da China para juntar-se a mim e dar prosseguimento a nossa viagem. O grupo era formado por europeus e asiáticos (somente eu era do continente americano). Já com a equipe completa, partimos para o primeiro passeio em grupo pelas ruas de Pyongyang.

No caminho, entramos em uma livraria internacional, a única do país que vende livros norte-coreanos em diversos idiomas. No fim da noite, nos dirigimos ao nosso hotel. Não é possível escolher o hotel para se hospedar na Coreia do Norte. O máximo que se pode fazer é perguntar para a agência internacional o nome do hotel incluso no pacote e, com um pouco de sorte, encontrar algumas informações superficiais sobre ele na internet. Ficamos no Hotel Chongyon, um hotel de 30 andares com piscina, bar, karokê, loja de lembranças e restaurante.  Em cada quarto ficavam dois turistas, sendo esse o único momento em que ficávamos sem a presença de nossos guias.

Segundo dia

O segundo dia da viagem era o mais esperado: dia 9 de setembro, o Dia Nacional de Fundação da República Popular Democrática da Coreia, um dos principais feriados do país. Depois do café da manhã, fomos cedo para o Grande Monumento da Colina Mansu, onde estão as duas gigantescas estátuas de bronze de Kim Il-sung, primeiro líder da Coreia do Norte, e de seu filho Kim Jon-il, segundo líder e pai do atual governante norte-coreano.

Seguindo o costume local, depositamos flores e fizemos uma reverência aos líderes, assim como fazem todos os nativos. Concordando ou não com o sistema político da Coreia do Norte, esse gesto representa um sinal de respeito ao país (se seus princípios não o permitem realizar esse gesto, é necessário repensar uma possível ida à Coreia ou a qualquer outro país que exija respeito de seus visitantes).

Após a visita ao monumento dos líderes, fomos conhecer o sistema de metrô de Pyongyang, o mais profundo do mundo, com média de 110 metros de profundidade. O transporte público é praticamente gratuito em todo o país, assim como no metrô, onde uma passagem custa apenas 5 won (cerca de R$ 0,0025, menos de 1 centavo). Conhecemos quatro estações que são verdadeiras obras de arte, com pinturas, lustres imensos e estátuas decorando os ambientes das plataformas.

Descemos na estação próxima a um parque da capital que, em dia de feriado, fica repleto de locais aproveitando o dia de descanso. Em um dos poucos momentos de interação entre coreanos e estrangeiros, pudemos dançar junto a senhoras, que não se importavam com a nossa presença.

Depois do almoço em outro restaurante tradicional, nos dirigimos ao maior monumento da Coreia do Norte: a Torre Juche, com 170 metros de altura. Um elevador nos leva até a chama no topo da torre, que oferece uma vista panorâmica formidável de Pyongyang. Na base da torre, às margens do rio Taedong, há outro monumento representado por um operário, uma camponesa e um estudante, símbolos das massas que fizeram a revolução comunista na Coreia.

Voltamos para a Praça Kim Il-Sung onde, no fim da tarde, aconteceu o evento mais esperado das festividades norte-coreanas: a Dança das Massas. Centenas de estudantes universitários se reúnem em frente à praça, vestidos com roupas tradicionais, para executar passos de dança sincronizados por mais de uma hora. Fiquei admirado com a grandiosidade e a beleza do evento.

Uma das experiências mais interessantes na Coreia do Norte foi a ida a um supermercado popular de Pyongyang. Esse é o único local do país onde podemos trocar nosso dinheiro (euro ou yuan chinês, as únicas moedas aceitas) pelo dinheiro local, o won norte-coreano. Após o câmbio, fomos às compras. Fiquei surpreso com a capacidade dos coreanos de produzirem praticamente todos os produtos necessários para o dia a dia. Diferente do que acontece em outros países socialistas, as prateleiras estavam cheias: alimentos, doces, produtos de limpeza, eletrodomésticos, tudo produzido na própria Coreia do Norte. Os corredores estavam lotados de trabalhadores, operários e donas de casa, todos fazendo suas compras de rotina. Eu tinha lido na internet que somente a elite norte-coreana tinha acesso aos supermercados; esse foi mais um (entre tantos) dos mitos sobre a Coreia do Norte que pude constatar como inverídicos.

Aproveitamos o fim da segunda noite para conhecer um bar muito frequentado em Pyongyang. Após o dia de trabalho, jovens coreanos reúnem-se no bar para beber cerveja, dos mais diversos tipos. Mesas redondas agrupam rodas de amigos formadas por homens e mulheres, sem distinção. Máquinas e telões de karaokê estão à disposição dos que procuram mais de diversão. Após algumas horas de conversas no bar e cheio de sacolas do supermercado, voltei exausto para o hotel.

Terceiro dia

No início do terceiro e último dia de viagem, desci para tomar o café da manhã no restaurante do hotel. Infelizmente, os cafés matinais nos hotéis da Coreia são uma tentativa de imitar o estilo ocidental de alimentação, com pães, café, queijo e ovos. O único traço coreano nessas refeições são os vegetais refogados em molho de soja e as saladas, comuns nessa hora do dia.

Por volta das 8h, nos dirigimos ao Museu da Vitoriosa Guerra da Libertação da Pátria, o museu mais importante e imponente da Coreia do Norte. No pátio, tanques de guerra, materiais de artilharia e navios norte-americanos que foram abatidos durante a Guerra da Coreia e nos anos posteriores estão expostos. Como o USS Pueblo, navio de espionagem dos Estados Unidos abatido em 1968. Dentro do museu, o uso de tecnologias surpreende os visitantes: telões, canhões de luzes e efeitos sonoros, tudo utilizado em prol de uma evidente propaganda política contra os norte-americanos e a favor do regime socialista. No térreo, um vídeo mostra aos turistas a versão da Coreia do Norte sobre o início da guerra: um suposto ataque norte-americano partindo de Seul.

Passamos em seguida por um cenário fúnebre: soldados mortos em um campo, com corvos sobre seus corpos e bandeiras dos Estados Unidos, França e Reino Unido rasgadas em meio à lama. Após subirmos diversas escadas rolantes, chegamos ao ápice do museu: uma gigante sala circular, onde os visitantes sentam-se nos bancos localizados no centro. Nas paredes, inicia-se o espetáculo de projeção de imagens da guerra coreana, com pinturas, sons e luzes, enquanto o centro da sala começa a girar, oferecendo uma visão de 360 graus das paredes e suas projeções. Todos saíram estupefatos com aquele espetáculo.

Antes do meio-dia, fomos até a estação de trem de Pyongyang. Nossa despedida da capital também seria, ao mesmo tempo, a única oportunidade de conhecermos o interior da Coreia do Norte. Sairíamos do país de trem, atravessando o noroeste da Coreia até chegarmos em Dandong, cidade chinesa na fronteira entre China e Coreia do Norte. Na estação, nos despedimos de nossos guias coreanos. Seguiríamos apenas com a guia da Young Pioneer, a britânica Lana.

A viagem durou seis horas. Cada compartimento do trem continha seis camas, três de cada lado, uma acima da outra. Passamos por paisagens bucólicas intercaladas com alguns centros urbanos. Os imensos campos verdes dominaram a vista, até chegarmos ao departamento de imigração norte-coreano. Nesse momento, precisamos entregar nossos passaportes, celulares e carteiras. O trem mantém-se parado por cerca de uma hora, até que todos os trâmites sejam concluídos. Como nossos guias haviam nos explicado, os oficiais norte-coreanos podem nos solicitar para que os celulares sejam desbloqueados e que as fotografias sejam analisadas. É proibido levar notas de won para fora da Coreia, por isso nossas carteiras também poderiam ser abertas.

Por alguns minutos, um pensamento passa pela minha cabeça: “será que eles podem me prender? Ficarei para o resto da vida aqui?” Algumas inspeções foram feitas mas, no meu caso, meus pertences ficaram sobre a mesa e nenhum oficial pediu para mexer. O último momento de tensão dissipou-se sem maiores transtornos e o trem seguiu para Dandong. Mais alguns minutos transcorridos e chegamos à ponte que liga China e Coreia do Norte.

A nova ponte  serve basicamente para os trens que unem os dois países, pois a ponte original foi bombardeada pelos Estados Unidos, estando apenas a metade restaurada pela China, que termina na metade do rio Yalu. Dezenas de turistas se amontoavam no final da ponte: esse é o ponto mais próximo que se pode chegar da Coreia do Norte sem que seja necessário passar por todos os difíceis trâmites burocráticos que permitem a entrada no país. A visão de minúsculas casas, do outro lado do rio, mexe com a curiosidade desses turistas.

Depois de seis horas, chegamos em Dandong, na China. Duas nações socialistas, uma aberta e outra fechada para o mundo. A diferença entre a cultura e o modo de viver desses dois países é gritante. Em Dandong, existe um comércio turístico baseado em costumes e objetos norte-coreanos: notas de won, trajes típicos, fotografias, broches: uma oportunidade de aguçar o imaginário que o mundo tem sobre esse país misterioso que eu acabara de conhecer.

Ali terminava minha viagem ao desconhecido, a um lugar que carecia de referências mais exatas. Depois de fazer uma excursão pelo interior da China, voltei ao Brasil. No fim das contas, nenhum míssil me atingiu. Nenhum ditador me prendeu. Ninguém me proibiu de conversar ou falar sobre algo. Ninguém pediu para que eu apagasse minhas fotos… Enfim, ninguém me desrespeitou ou privou minha liberdade em qualquer sentido.

Viajar para a Coreia do Norte é uma prova de coragem. Significa estar disposto a pagar caro para ir a um lugar que não se sabe como é, sem ter a certeza de que chegará ao destino (ou se sairá de lá). Ainda assim, com todos os perigos inclusos, é uma experiência única, partilhada por poucas pessoas que se dispuseram a correr os riscos. Posso afirmar com toda a certeza que foi a melhor viagem da minha vida.


Agradecemos ao leitor Marcelo Bohm pelo relato desta super experiência, que com certeza despertará curiosidade em muitos outros viajantes! Quer mandar o roteiro de sua viagem para o MD? Entre em contato com a gente pelo e-mail convidado@melhoresdestinos.com.br

Autor

Redação - redacao