O que fazer em Mianmar: dicas de um destino exótico no Sudeste Asiático!

Wendell Oliveira 28 · novembro · 2017

Quer saber o que fazer em Mianmar? Ou seria Birmânia? Vale a pena conhecer esse país tão diferente? Confira as dicas do nosso editor Wendell Oliveira, que mora na Tailândia e conhece muito bem esse e outros destinos do Sudeste Asiático!

Visitar o Mianmar é uma daquelas experiências que deixam marcas profundas na gente. No coração. Na mente. E possivelmente no estômago também. É um destino fotogênico, de uma beleza bruta. O país tem paisagens e características próprias, típicas de um lugar que passou as últimas décadas isolado em uma ditadura e que só agora começa a se abrir ao mundo – para se ter uma ideia, o primeiro caixa eletrônico só foi instalado em 2012. Imagine o resto.

Não, o Mianmar (ainda) não é um destino popular, tampouco fácil de ser visitado. Se você quer uma viagem tranquila, melhor ficar na Tailândia, bem ao lado. Mas se você sonha com uma viagem realmente autêntica, que ficará eternizada nas lembranças e nas fotos, considere seriamente a ideia.

O Mianmar muda rápido. Visite-o antes que se torne apenas mais um.

Como chegar

O jeito mais prático (e barato) de visitar o Mianmar é saindo da Tailândia, país vizinho. Os voos partindo de Bangkok duram pouco mais de uma hora e costumam ser bem baratos – abaixo dos U$100 ida e volta –, mesmo sem reservar com muita antecedência. Diversas companhias realizam o trajeto, como a Nok Air, Air Mandalay, Air Bagan e a Air Asia.

Só não esqueça de adiantar meia-hora no relógio quando chegar. Sim, isso mesmo: a diferença de fuso horário entre Tailândia e Mianmar é de 30 minutos!

É necessário visto de turismo para entrar no Mianmar. Apesar de existir uma representação diplomática do país em Brasília, o visto também pode ser obtido online através do serviço de e-visa. O visto eletrônico para o Mianmar custa U$50 e fica pronto em até 3 dias úteis após a confirmação do pagamento. Mas atenção: a estadia máxima é de até 28 dias e a validade é de até 90 dias após a data de emissão.

Mianmar ou Birmânia?

Os dois nomes do país ainda confundem muita gente. Na verdade o termo Birmânia (do inglês, Burma) refere-se à principal etnia do país, e foi escolhido pelos colonizadores britânicos.

Em 1989 o regime militar decidiu que o nome era uma herança colonialista carregada de preconceito e optou pelo nome Myanmar, de igual significado. Embora pareçam completamente diferentes na escrita, “Myanmar” e “Burma” têm a mesma pronúncia no idioma local. Na prática, os dois nomes viraram alvo de uma disputa político-ideológica e é comum ver a mídia internacional ainda utilizar o termo “Burma”.

A confusão é tanta que recentemente a atual Chefe de Estado e Prêmio Nobel da Paz, Aung San Suu Kyi, precisou esclarecer que estrangeiros são livres para usar ambos os nomes, já que “não há na Constituição do país nada que determine o uso de um termo em particular”. A ONU optou pelo uso de “Mianmar”, e faremos o mesmo aqui, respeitando desde já a declaração da presidente. Ou seria presidenta? 🙂

Costumes locais

O domínio britânico no Mianmar de 1824 a 1948 certamente causou influência no país, mas não tanto a ponto de fazê-lo perder sua essência. Ainda nos dias de hoje alguns costumes tipicamente birmaneses podem ser vistos na rua.

Não estranhe a pasta branca no rosto das pessoas: é a thanaka, cosmético artesanal feito à base de casca moída, uma tradição milenar usada pelo povo para se proteger do sol forte e deixar a pele mais macia. Estranho mesmo, no entanto, são as manchas vermelhas no asfalto. Mais cedo ou mais tarde você vai perceber que são resquícios de vigorosas cusparadas. Calma, não é sangue. É apenas noz de betel, que alguns birmaneses adoram mascar por conta das propriedades estimulantes. Os dentes avermelhados no sorriso fácil da população local são uma característica bem comum, quase fashion – para o desespero dos dentistas.

Mais vermelha ainda são as vestes dos monges. Esqueça o alaranjado típico da Tailândia, pois no Mianmar o tom vermelho escuro domina nos monastérios.

Se você conseguiu aceitar todas essas diferenças numa boa, é capaz de não se surpreender com os gigantes e nutritivos insetos sendo vendidos nas barraquinhas de rua espalhadas pela cidade. Dica: não são para enfeite.

O que ver e fazer

YANGON

Não foi só o nome do país que mudou. A antiga capital Rangoon virou Yangon, mas sem perder sua personalidade desorganizadamente charmosa.

Parte da arquitetura histórica do período colonial vem sendo demolida para dar espaço a estradas mais amplas, a fim de amenizar os congestionamentos. Alguns edifícios centenários permanecem de pé, mas não se sabe até quando. As condições de preservação não são exatamente as melhores, e sem planos de restauração a tempo, boa parte da história pode ser perdida em pouco tempo.

Mas não se engane, Yangon é cheia de contrastes. A Shwedagon Pagoda, uma estupa dourada de quase 100 metros, se destaca imponente no horizonte. Construída há 2.600 anos, é o templo budista mais antigo do mundo e possui verdadeiras relíquias em seu interior, como fios de cabelo do próprio Buda!

A entrada custa 8,000 kyats (~ U$6), mas o acesso é gratuito durante os períodos de lua cheia, que são considerados feriados no Mianmar!

Uma das principais atrações de Yangon é o trem circular. Por 100 kyat (algo em torno de U$0,10), é possível passear ao longo das 39 estações espalhadas pelo interior da cidade, aprendendo um pouco mais sobre a vida das comunidades locais em uma viagem de 3 horas de duração.

BAGAN

Bagan está para o Mianmar assim como a Capadócia está para a Turquia. Destino obrigatório em qualquer roteiro pelo Mianmar, a cidade é famosa pelos seus passeios de balão com vista para os mais de 2.200 templos e pagodas que ainda resistem à ação do tempo e da natureza – no passado, chegaram a ser mais de dez mil.

Dica para aproveitar Bagan: alugue uma bicicleta e se deixe levar pelos caminhos que levam às ruínas. Acordar cedo e carregar uma garrafinha de água é importante, já que o calor é forte o ano todo, especialmente entre março e maio, quando os termômetros passam facilmente dos 40ºC.

Os templos mais famosos são AnandaThatbyinnyu Shwegugyi, com menção especial ao Shwesandaw – palco de um incrível pôr-do-sol!

MANDALAY

A segunda maior cidade do Mianmar é também lar de 60% de todos os monges do país. Espiritualidade é o forte do lugar. Visitar o Monastério Mahagandayon é a chance de presenciar o cotidiano de milhares de monges, que ficarão felizes em conversar e praticar o inglês.

Se estiver com disposição, acorde bem cedo e vá para o templo Mahamuni Paya, onde a cerimônia sagrada para lavar o rosto de Buda ocorre todos os dias, entre às 04h30 e 05h da manhã. Não deixe de visitar os vilarejos locais – a maioria dos tours promove a visitação. A vista do Mandalay Hill, ponto mais alto da cidade, fornece uma vista privilegiada.

INLE LAKE

Considerado Reserva Mundial da Biosfera pela Unesco, o Lago Inle é uma atração pitoresca com milhares de vilarejos coloridos ao seu redor. Diversos festivais ocorrem ao longo de ano, que incluem desde cerimônias religiosas à corridas de barco.

As embarcações dos mais variados tipos, cores e tamanhos são o brilho da atração. Fazer um passeio a bordo de um deles é essencial para entender a vida simples dos locais.

PRAIAS

Vizinho da Tailândia e com acesso ao mar, não é difícil imaginar como sejam as praias do Mianmar. Além da beleza, a sensação de exclusividade é única, já que raramente turistas viajam até o litoral.

Praias do Mianmar: natureza preservada, vilarejos locais e poucos turistas

As mais famosas são Ngapali Beach e Ngwesaung, além de ilhas paradisíacas e desertas como Myeik, Kyun Phi Lar, Lampi e Buda Island (Nyaung Wee).

Voluntariado

Os anos de ditadura e isolamento do Mianmar provocaram certo atraso no país, que ainda possui um IDH bem baixo. A precariedade dos serviços e a carência de profissionais qualificados, no entanto, desperta a solidariedade de muita gente: Voluntários, que aceitam mudar completamente de vida para poder contribuir com o futuro da nação.

Juliana e as crianças do Phayartaung Monastery

Que o diga a brasileira Juliana Cristine, autora do blog Juju no Mundo, que largou a confortável vida de expatriada em Singapura por um monastério com terra batida e sol escaldante no interior do Mianmar. Ela trabalha diretamente com as crianças do local, e é responsável por uma biblioteca e projetos sobre meio ambiente e turismo sustentável.

A inspiração para o trabalho voluntário veio do relato de uma amiga, que recomendou a experiência. A ideia era ficar apenas duas semanas. Já se passaram 7 meses. Juju não tem pressa, contanto que possa ajudar no desenvolvimento das crianças que vivem no monastério. “Elas são a razão da minha longa permanência no país.

No entanto, a voluntária é enfática no que diz respeito aos exageros da prática do volunturismo, moda entre os mochileiros: “Muita gente vêm com o intuito de ter um lugar para ficar um tempo sem pagar por acomodação ou alimentação. Ser voluntário em um monastério é completamente diferente de ser voluntário em um hostel. Quando se decide voluntariar em um lugar como esse, precisa ter em mente que ela se tornará um exemplo, um modelo a ser seguido pelas crianças. E por isso precisa ter atitude positiva, respeito pela cultura, entender e promover a compaixão. Assim tanto o voluntário como o lugar que o está recebendo saem ganhando. Ser voluntário em instituições de caridade com o intuito de não gastar enquanto está viajando apenas prejudica as pessoas ao invés de ajudar.”

Para quem quiser colaborar, acesse a página do Phayartaung Monastery. Voluntários e doações são bem-vindos.

Desafios

Em 1991, quando a ativista birmanesa Aung San Suu Kyi ganhou o Prêmio Nobel da Paz, havia esperança que um dia ela pudesse se tornar a líder do país e colocá-lo nos eixos. Após quase 15 anos em prisão domiciliar, ela finalmente retomou sua carreira política e venceu as eleições de 2015.

No entanto, o que se vê hoje no país é uma crise humanitária que afeta a etnia rohingyas – refugiados que formam a maior população apátrida do mundo. Eles tiveram a nacionalidade birmanesa retirada e são perseguidos pelo exército com ares de limpeza étnica. O silêncio incômodo da atual chanceler sobre a situação começa a gerar instabilidade e até mesmo protestos para a cassação do Prêmio Nobel – uma atitude inédita.

Apesar de tudo, este é um problema interno que não afeta a indústria do turismo no país. Turistas em geral não têm maiores problemas com segurança.

Dicas do Mianmar

– Cuidado com a alimentação: Só tome água mineral engarrafada e evite o consumo de gelo. Ao comer na rua, analise bem as condições do local e siga o bom senso.

– O transporte mais indicado é o aéreo. As viagens são rápidas e as companhias oferecem preços competitivos. Se o seu orçamento for limitado, viajar de ônibus pode ser uma boa opção. A empresa JJ Express oferece um serviço bem confortável, com direito a lanche e cobertor. O único contratempo são as longas horas de viagem, mas embarcar em uma jornada noturna e dormir durante o trajeto pode ser uma solução. Com exceção do trem circular de Yangon, evite o transporte ferroviário, pois o serviço não é confiável, sujeito a atrasos e famoso pelas más condições de limpeza.

– Ao contrário do que possa se imaginar, hospedagem no Mianmar não costuma ser tão barata quando comparada aos outros destinos no Sudeste Asiático. Isso se dá pela forte taxação do governo. Pesquise por hotéis no Mianmar ciente de que nem sempre o custo x benefício compensa.

– Há uma boa razão para você nunca ter visto casas de câmbio trocando Kyat fora do Mianmar: É proibido por lei levar a moeda birmanesa para fora do país. Isso inclui aquela notinha que você planejava levar para coleção, desculpe. Ao sair do país, desfaça-se de todo o dinheiro local e evite problemas.

O país é seguro, mas também muito pobre. Exerça cautela e bom senso e evite sair com joias ou dinheiro à mostra. Tome precauções de segurança simples que você teria normalmente em qualquer cidade do mundo.

– O salário médio mensal do Mianmar é o equivalente a U$67, pouco mais de U$2 por dia. Negociação de preços não faz parte da cultura do país. Evite o turismo predatório e não queira levar vantagem sobre o povo local. Gorjetas também não são comuns, mas são muito bem-vindas.

– Desative o filtro da câmera. Não vai precisar 🙂

Autor

Wendell Oliveira - Editor
  • Rodrigo César

    Excelente matéria!
    Já pesquisei bastante sobre o destino e também sobre o Sri Lanka (que também é um país fantástico)!
    Ah, que pena que não dá pra sair com aquela nota de kyat. Isso eu não sabia e vou ter que me conformar quando for… =( rsrs
    Obrigado, Wendell e MD.

  • Paulo Gottardi

    Q saudade do Myanmar, país fantástico!!!

  • Maurício Martins

    Parabéns pelo artigo! Uma dúvida: quanto, em média, custa um passeio de balão em Bagan? Alguma agência para indicar? obrigado!

    • Adriano Kinojo Goncalves

      Paguei cerca de 330 dólares quando fui ano passado, mas vale cada centavo… Fiz pela Baloons over Bagan, acabei fechando na hora em cash, mas dá para reservar…

  • DANIEL

    Ao planejar minha viagem de novembro de 2018 para o Sudeste Asiático, havia incluído tal nação para conhecer junto de VIETNAN, TAILÂNDIA e CAMBOJA.

    Mas ao ler que, a este tempo, o atual governo contribui (ainda que por omissão) com um dos maiores massacres da humanidade recente, inclusive com limpeza étnica, exclui MYAMAR, mantendo os demais…

    Jamais estou criticando a viagem realizada e bem relatada, até pq não se diz quando o foi planejada (os fatos em questão são de recente divulgação). Mas não viajarei para tal local, assim como vários deixaram de viajar à África do Sul durante o Apartheid.

    • Wendell Oliveira

      Oi Daniel, infelizmente a crise de refugiados não é privilégio do governo atual. Apesar dos dilemas éticos, acredito que quem visita o Mianmar vai pela cultura, povo e paisagens, não pelos governantes. O mesmo pode ser dito de lugares igualmente interessantes, como Cuba e Irã, só para citar alguns exemplos. Respeito sua opinião, mas se não fosse o turismo, certamente a situação do Mianmar seria muito pior – é justamente a visitação estrangeira que expõe os problemas e ajuda a resolvê-los. Boas viagens!

      • RAFA ALVES OLIVEIRA

        Ótima explanação, quem visita Cuba não necessariamente está apoiando Fidel Castro… também o embargo comercial(ou turístico) à ilha não melhorou em nada a vida dos Cubanos. Conhecer e visitar o lugar de forma alguma é uma chancela ao Governo local, sobretudo se você é bem recebido pela população autóctone.

  • Joao Okuyama

    Alguém já visitou o país entre julho/agosto? Estou programando uma viagem pra lá nesse período, mas estou um pouco preocupado em relação ao clima…

    • RAFA ALVES OLIVEIRA

      Eu visitei final de abril início de maio que é período mais quente mas não chove muito. Em julho/agosto em Yangon chove quase todo dia mas em Bagan e Mandalay não. O país é quente o ano inteiro, essa época que vc está planejando é a que mais chove na capital mas nos outros destinos não chove muito. Resumindo não é a época mais quente, dá pra ir mas na capital vai pegar muita chuva.