O que fazer em Quito: roteiro de três dias pela capital do Equador e arredores

Por Bruna Scirea

O Equador é bem mais do que o país onde passa uma linha imaginária que divide o mundo em dois. E sua capital deveria ser muito além de apenas uma porta entrada para turistas que ingressam em direção, quase sempre com pressa, às famosas Ilhas Galápagos. Quito é daquelas cidades com a cara e cor da América Latina andina: um festival de belas paisagens, cultura e história. Tudo isso (e dá-lhe chá de coca) a 2.850 metros de altitude.

Encravada na Cordilheira dos Andes e cercada por vulcões, a capital do Equador tem um dos centro históricos mais bem preservados da América do Sul, declarado patrimônio pela Unesco. Um passeio pelas ruelas estreitas, observando as construções coloniais de diferentes cores é só um dos atrativos da cidade.

Boa gastronomia (visite os mercados!) e um povo gentil também fazem as honras aos visitantes. O que faz de Quito um destino único, no entanto, é um relevo disforme que permite observar a cidade, vulcões e crateras que se transformaram em cidades e lagoas. A vista é sempre majestosa, fotografável que só ela.

Em fevereiro deste ano, à convite da Gol Linhas Aéreas, passamos três dias na capital do Equador, que é o mais novo destino internacional da companhia. O curto período nos permitiu ter uma breve visão sobre a cidade e seus arredores, que compartilhamos com vocês no relato que começa a seguir… mas antes, um lembrete muito importante: o Equador exige Certificado Internacional de Vacinação.

Pronto. Agora pode embarcar.

Dia 1 – Centro Histórico de Quito e Virgem do El Panecillo

É no centro histórico que se guardam boa parte da memória, cultura e particularidades de uma cidade. E o de Quito, para além de ser um dos mais preservados da América Latina, foi declarado pela Unesco, em 1978, o primeiro Patrimônio Cultural da Humanidade.

Isso tudo só reforça: um passeio pelas ruelas centrais, observando a arquitetura colonial, as coloridas edificações e os traços deste povo desigual entre si, tanto em feição quanto índices socioeconômicos, é um dever de qualquer um que esteja em passagem por ali. Muito parecida com Cusco, no Peru, a capital equatoriana é daquelas cidades que expressam com força o que é a América Andina.

Com bastante protetor na pele e um chapéu equatoriano (por que não entrar no clima?) sobre a cabeça, inicie o percurso pela Praça da Independência (Plaza Grande), cercada pela Catedral Metropolitana, pelo Palácio Carondelet (Palácio presidencial, onde ocorre a troca de guarda todas as segunda-feiras, às 8h), o Palácio Municipal e o Arzobispal, que virou uma área comercial, com lojas e restaurantes.

Bem ao centro desta área cheia de árvores e sombras, está o Monumento à Independência, em homenagem à conquista de 1809. Para melhor compreender a região, procure fazer um tour guiado, que explicará a importância histórica de cada prédio e de cada canto do Centro Histórico, com cerca de 300 hectares de construções erguidas a partir do século 16.

Na ensolarada manhã em que percorremos a região central de Quito, munidos de muita água (hidratação é fundamental nas altas altitudes) e acompanhados de um guia local, iniciamos nosso passeio em frente ao Monumento da Independência. Em seguida, ingressamos na Catedral Primada de Quito, onde pudemos ter uma visão do centro subindo até a cúpula (imagens acima). O caminho, de escadas e corredores estreitíssimos e escuros, é um não-convite para os claustrofóbicos. Mas, havendo condições e coragem, vale a pena.

A imagem desde o topo da igreja nos faz lembrar: estamos em um corredor de vulcões, uma cidade encravada em um vale de relevo irregular – a que se deve grande parte de seu charme. Aos que preferirem não enfrentar a subida até a cúpula, vale observar a mistura de traços barrocos, árabes, clássicos e neogóticos presentes na construção. É também na Catedral Primada que está o mausoléu do Marechal Sucre, que, ao lado de Simón Bolívar, foi um dos grandes nomes da independência do Equador.

Catedral Primada de Quito, localizada em um dos lados da Praça da Independência

Em uma das ruas laterais à Praça Grande, encontramos a Igreja da Companhia de Jesus, cuja construção teve início em 1605 e se estendeu por mais de um século. Ao entrar, já chamam atenção as paredes revestidas de ouro – dizem serem feitas com cerca de 7 toneladas do metal, reduzidas a “apenas” 32 kg após um incêndio. Na manhã em que estivemos por lá, fomos surpreendidos com o ensaio da Orquestra Sinfônica de Quito, que ocorria no altar da igreja. Foi de esquentar o coração. Então, segue a dica: ao marcar uma viagem para a capital do Equador, fique atento às atrações culturais. Vai que você tem a mesma sorte!

A próxima parada foi na Praça de São Francisco, onde se estabeleceu a primeira área comercial da cidade. Nesta região também está a Igreja de São Francisco, a mais antiga de Quito, em cujas bases ficavam as casas de capitães incas responsáveis pela proteção do palácio que havia atrás. Hoje, a praça se faz de um imenso concreto sem árvores. E, nas escadarias da igreja, reúnem-se quitenõs de todas as idades, mas sobretudo idosos, vendendo chapéus, filetes de palo santo, limonada e o que mais for. Daquelas cenas cheias de cores, mas um tanto tristes, ainda hoje bastante presentes na América Latina.

Ali, fomos recebidos pelo guia Fábian Amores, que fala português e faz parte do projeto Mediarte, com roteiros alternativos pela cidade. Com poesia e atuação, Fábian trouxe uma visão mais crítica sobre a história de Quito, fazendo-nos refletir sobre os povos que a ergueram e ficaram marginalizados no processo de desenvolvimento da cidade.

Em uma das esquinas da Praça de São Francisco está a Casa Gangotena, um dos hotéis boutique de Quito, onde paramos para almoçar. O menu especial que nos foi servido (escolhi ceviche de entrada, de prato principal fui de fritada, um clássico andino, e uma tortinha de chocolate de sobremesa) custou 39 dólares mais 22% de impostos, que são cobrados em praticamente todos os lugares. O preço era bem salgado (sempre prefiro fazer as refeições em mercados públicos ou restaurantes onde os locais comem), mas o roteiro já estava predeterminado e, bem, sejamos justos, a comida estava gostosa.

Após o almoço, seguimos para a colorida La Ronda, uma das mais famosas ruas do centro histórico, que reúne artesãos e restaurantes e lojas com iguarias do Equador. Fomos provar sorvetes feitos no tacho de cobre na Heladería Dulce Placer, aprendemos um pouco sobre o trabalho das abelhas e produtos derivados do mel e do pólen na loja API Real e também conhecemos o trabalho de um artesão que fabrica piões em madeira. O mais legal, no entanto, foi poder conversar com um senhor que produzia manualmente chapéus ao estilo equatoriano (que conhecemos erroneamente como panamenhos) – e, claro, adquirir um deles para passear à caráter pelas ruas de Quito.

No fim de tarde nos dirigimos para o El Panecillo, onde fica a Virgem de Quito. Dos pés (ou subindo o monumento) é possível ter um bom panorama sobre a cidade, identificando o centro histórico, alguns vulcões e como se dispersam geograficamente as 1,2 milhão de pessoas que moram na capital.

Em um dos morros da cidade, está a neogótica Basílica do Voto Nacional, uma das atrações de Quito

Dia 2 –  Teleférico e Linha do Equador

No segundo dia acordamos cedinho para sermos os primeiros a chegar ao topo do morro Cruz Loma com a ajuda do teleférico. Quito está a 2.850 metros acima do nível do mar. Após aproximadamente 18 minutos de passeio na cabine com vista panorâmica chegamos a 4.050 metros de altitude. Lá de cima, podemos ver não apenas a cidade, que já ficava distante lá embaixo, mas também alguns dos principais vulcões que cercam a capital equatoriana, como o Cotopaxi, com o pico nevado (foto abaixo).

Cotopaxi é um dos maiores vulcões nos arredores de Quito

Não ficamos por muito tempo no topo do Cruz Loma, mas há pelo menos duas trilhas que podem ser feitas lá por cima. De toda forma, vale super a pena o passeio – acredito não haver lugar melhor em Quito para se observar a “Avenida dos Vulcões, entre os quais estão o Cayambe, Antisana, Cotopaxi e o
Pasochoa. O teleférico funciona diariamente das 8h às 18h30 e são cobrados 8,5 dólares por pessoa.

Na sequência, deixamos Quito e após uma hora de viagem, chegamos à reserva El Pahuma, famosa pelas várias espécies de orquídeas e bromélias. Lá, fizemos uma caminhada pela mata e, parte do grupo, aproveitou uma das cachoeiras da região para fazer rapel. A Reserva Pahuma fica relativamente próxima ao Monumento da Metade do Mundo. Então, se você for um entusiasta do trekking e do rapel, pode ser uma boa opção para incluir no roteiro. Mas esteja avisado: as trilhas podem ser bem escorregadias e não há proteção ao longo delas, não sendo muito difícil, deus-me-livre, um escorregão morro abaixo.

Pois bem, fizemos uma pausa para um almoço no restaurante El Crater, que, como sugere o nome, está localizado na borda do vulcão Pululahua, que é ativo e dizem ser o único habitado do mundo. Lá embaixo, no centro da cratera, estão casas e estradas, e a vida segue normalmente. Bem doido.

Bem alimentados, fomos até o Museu Intiñan, onde supostamente fica a verdadeira Linha do Equador. Lá, de maneira bastante interativa, tivemos simulações de experiências que ocorrem de forma diferente em cada hemisfério, como a água escoando pelo ralo no sentido horário (no Sul) ou anti-horário. Equilibramos um ovo sobre um prego exatamente sobre a suposta Linha do Equador e também tiramos muitas fotos com um pé em cada lado do mundo. Minha opinião: se for ver bem, é um museu bem breguinha, mas que pode ser divertido, se você desconsiderar que nem tudo ali é verdade. Sem dúvida, uma boa opção para as crianças.

Por fim, visitamos a Cidade da Metade do Mundo que, curiosamente, não fica exatamente na metade do mundo. Lá está um grandioso monumento, com mais uma linha simulando dividir os dois hemisférios, além de lojinhas.

Dia 3 – Lagoa Quilotoa

No terceiro dia de viagem, nos deslocamos por cerca de quatro horas de ônibus até o vulcão Quilotoa, cuja cratera hoje é uma lindíssima lagoa esverdeada, que vai ganhando tons diferentes conforme a luminosidade e o ponto de onde você a observa. A viagem, apesar de um pouco cansativa, é feita por um caminho bonito, onde é possível avistar de longe outros vulcões, como o Cotopaxi, e também mulheres e homens equatorianos, com suas vestes coloridas, trabalhando no campo ou no cuidado dos animais.

Muito próximo ao mirante do Quilotoa, está uma ruela cheia de opções de restaurantes (bem simples) e lojinhas de artesanato. Aproveite para ir ao banheiro, coma alguma coisa, compre umas garrafinhas de água (sempre importante, ainda mais quando se está a quase 4.000 metros de altitude) e vá para o mirante curtir a vista. Exatamente esta:

Ficamos apenas poucas horas ali, admirando a vista e fazendo inúmeras fotos. O que eu recomendo, no entanto, é você curta mais a Lagoa Quilotoa, curtindo as trilhas sobre a borda dela ou então descendo até a água, onde é possível fazer passeios de caiaque (não é permitido se banhar). Só é preciso lembrar que, para descer, todo santo ajuda. A subida é mais complicadinha, cerca de uma hora e meia de caminhada, morro acima, provavelmente sentindo os efeitos da altitude. Há opções de hospedagem em uma vila dentro da cratera e também na borda, próximo ao mirante. Quem estiver de carro e preferir, também pode ficar em cidadezinhas próximas.

Após a visita ao Quilotoa, tomamos novamente o ônibus em direção a Quito, onde à noite pegamos o voo de volta ao Brasil. No retorno, passamos mais uma vez próximo ao Cotopaxi e, claro, senti uma certa peninha por não ter tido tempo suficiente para visitar o majestoso vulcão. Mas é aquela coisa, né: é sempre bom ter motivos para voltar.

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Desta vez, nossa passagem por Quito foi vapt-vupt. Apesar do pouco tempo, no entanto, já é possível garantir que super vale uma viagem para a capital do Equador e seus arredores, sobretudo se você é fã de caminhadas em meio à natureza, neste caso, representada pela imponente beleza dos vulcões.

E se caminhar, caminhar e caminhar por aí não é bem a sua praia, não tem problema. São vários os passeios que podem se resumir a belíssimas vistas de mirantes de fácil acesso. Além do mais, o centro histórico de Quito, por si só, já vale a visita ao país, ainda mais se você puder curtir as coloridas ruas com calma, de preferência na companhia de um guia.

Pois bem. Deu vontade de conhecer? Ou já esteve em Quito? Conte para gente como foi sua viagem e compartilhe as suas dicas!