Falklands: destino exótico, cheio de história e vida selvagem no Atlântico Sul

Bruna Scirea     30 · janeiro · 2019

No fim de 2017 visitamos as Ilhas Falklands, o arquipélago ultramarino britânico localizado no Atlântico Sul, não muito distante da costa da Argentina. As Ilhas Malvinas, como as conhecemos no Brasil, provavelmente não figuram na sua lista de “destinos a serem visitados antes de morrer”. Mas talvez devessem: além do aspecto histórico (terem sido palco da Guerra das Malvinas) e do fator exótico — um local distante e praticamente inóspito, onde mora uma população bastante pequena —, as Falklands são um dos poucos lugares do mundo onde é possível ver a vida selvagem acontecendo naturalmente, sem qualquer intervenção humana. É daqueles destinos que deveriam ser visitados pelo menos uma vez na vida. Confira no nosso relato o porquê.

Muito provavelmente eu jamais teria conhecido as Ilhas Falkland (no Brasil, chamadas de Ilhas Malvinas). Diante da possibilidade de visitar o remoto arquipélago, no fim de 2017, nosso editor-chefe do Melhores Destinos até brincou comigo: “você vai ser aquela pessoa que, numa mesa de bar, sempre levará o título de quem viajou para o lugar mais improvável”. A verdade é que, de cabeça, eu sequer sabia onde as Falklands ficavam no mapa. Na minha ignorância, não tinha nem ideia do que encontraria por lá — a não ser vestígios de uma guerra, que costumamos brevemente ouvir falar nos tempos de escola.

Pesquisei o que pude antes de pegar a sequência de voos da Latam, a única companhia que voa para este que é um dos mais de 10 territórios britânicos ultramarinos espalhados pelo mundo. Também montei um arsenal de combate ao frio: roupas térmicas, gorros, luvas e bota — como se estivesse indo para a Antártica, afinal, ela não está assim tão distante das ilhas. Mas foi só quando desembarquei na base militar britânica próxima à capital das Malvinas, Stanley, que me dei conta: por mais que tivesse lido praticamente tudo o que havia em português e inglês, eu não tinha mesmo como ter imaginado aquele lugar antes de estar lá.

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Na porta do setor de imigração, estava a estátua de um pinguim dando as boas-vindas. Não demoraria muito para que um local, em seu fortíssimo sotaque britânico, validasse minha estadia de 7 dias (só tem um voo semanal – há outro previsto para ter início esse ano, saindo de São Paulo), com o carimbo de um pinguinzinho muito simpático no meu passaporte, e entregasse um material impresso em que o governo das Falklands pedia respeito à história, o que inclua um aviso: evitar mostrar bandeiras ou vestir uniformes militares argentinos. Logo de cara, esses 20 minutos que sucederam minha chegada já pareceram levemente nonsense — e seriam só um prenúncio do quão intrigante poderia ser aquele lugar.

Telhados coloridos e poucas árvores fazem parte da paisagem de Stanley, única cidade das Falklands

As Ilhas Malvinas são um daqueles destinos muitos diferentes do que costumamos ver viajando por aí. São duas grandes ilhas e mais 778 ilhotas, onde vivem apenas 3 mil habitantes — sendo que um terço deles são soldados britânicos que residem na base militar, distante da população local. Os falklanders mesmo vivem em Stanley, que não é somente a capital, como também a única cidade de todas as ilhas. No resto do arquipélago, o que se vê (e raramente se vê) são pequenas casas de telhados coloridos, onde moram algumas famílias que trabalham com a pesca, uma das principais atividades econômicas, com o turismo e a agricultura — o arquipélago se considera autossuficiente economicamente, dependente do Reino Unido somente para custo relativos à defesa.

Do alto, o aglomerado de ilhas onde a vegetação raramente cresce e onde não vive quase ninguém

A melhor maneira para dar um giro pelas ilhas é sobrevoando a bordo de aviõezinhos bimotores, que carregam no máximo 8 pessoas e suas bagagens, além de correspondências, ovos, morangos e o que mais for encomendado pelos moradores que vivem distantes do comércio da capital. Desde Stanley, o trajeto incluirá algumas paradas no meio do caminho para deixar visitantes, embarcar moradores que precisem de consulta médica ou deixar compras e cartas. Nestes percursos, lá do alto, você terá uma ideia do que são as Falklands: uma imensidão praticamente inabitada, onde árvores quase não crescem e o vento é constante — o que deixa o voo, é verdade, ainda mais emocionante.

Quando chegar a sua vez de desembarcar em alguma ilha, a pequena aeronave irá aterrissar na grama mesmo e, sem qualquer cerimônia, você será recebido pelo anfitrião que conhece aquele lugar como ninguém. Com um pouco de caminhada, logo verá de perto o que realmente são as Malvinas: um santuário de pinguins de várias espécies, elefantes e leões-marinhos, cormorões e centenas de outros animais que provavelmente você nunca viu antes na vida — ao menos não tão de perto. Tudo isso cercado por um mar que, pela cor, um azul esverdeado, poderia mesmo ser do Caribe — não fossem as temperaturas, que no verão variam de 4oC a 13oC, mas que, devido ao vento, aparentam ser muito mais baixas. Para arrematar: um silêncio inexplicável.

Lua de mel nas Falklands: no verão, elefantes-marinhos vão até as ilhas do Atlântico Sul para acasalar

Mesmo em Stanley, dificilmente se ouve o barulho dos carros — todos 4×4 da Land Rover. Em uma cidade de 2 mil habitantes, quase tudo pode ser feito a pé. O único correio, o único banco, a escola e as poucas lojas de comércio ficam muito próximas umas das outras. É também ali às margens do porto de Stanley, em uma baía de águas prateadas, que se situam os poucos hotéis, restaurantes e museus, rodeados por casas de telhados coloridos. A não ser quando atracam cruzeiros que navegam pelo Atlântico Sul, descendo centenas de turistas, a vida em Stanley passa na maior calmaria. A internet é super restrita, as conversas se dão no olho a olho e, como se pode imaginar, todo mundo se conhece. Até porque quase todos acumulam mais de uma função entre órgãos públicos, turismo, agricultura e a vida cultural da cidade. Afinal, só assim se desenvolve uma sociedade em um lugar longínquo e pouco populoso.

Na praia de York Bay, placa sinaliza risco de minas terrestres remanescentes da Guerra das Malvinas

Um tesouro natural no Atlântico Sul

Valeria a pena conhecer as Ilhas Malvinas pela sua história, presente nos museus e nos campos onde ainda é possível ver destroços da guerra que deixou quase mil mortos em 75 dias de conflitos. Chamaria atenção por si só o fato de o arquipélago ter como língua oficial o inglês britânico, mesmo estando muito próximo da América do Sul, distante a apenas 483 km de travessia marítima até a (ainda hoje) rival Argentina. Já seria uma experiência interessante ver como pode uma população tão pequena e com condições tão restritas conseguir se manter num ambiente praticamente inóspito. Mas o que faz com que todos os anos desembarquem cerca de 1,5 mil turistas de novembro a fevereiro (além dos 55 mil que visitam rapidamente as ilhas a partir dos cruzeiros) é, sobretudo, a possibilidade de se ver a natureza em perfeita sintonia.

É possível se esquecer do tempo vendo os pinguins e outros animais em seu habitat natural

É no “interior” ou em ilhas mais distantes de Stanley, que o visitante se torna testemunha da vida animal, que acontece como se ele não estivesse ali. Não é preciso ficar horas de plantão, esperando por um super acontecimento. A qualquer momento você verá um lobo-marinho caçando um pinguim na beira da praia. Com sorte irá flagrar o momento exato em que ele abocanha a presa — e o fim da história será um pouco triste, mas só se você se esquecer de que está observando a vida como ela é.

Não é à toa que o verão no Hemisfério Sul é a única época de turismo nas Falklands: é quando os animais vêm procriar. Você deixará as ilhas sabendo o quão exibido pode ser um leão-marinho na tentativa de conquistar a fêmea e que não existe nenhum romantismo no acasalamento dos elefantes-marinhos. Sairá sensibilizado com a forma como os pinguins cuidam dos seus ovos, revezando-se para buscar alimentos.

E vai saber que, por mais que você torça muito para que todos os ovos continuem quentinhos, sendo chocados com todo o zelo que pode vir de um atrapalhado pinguim, com frequência surgirá uma ave maior — e mais esperta. E você ridiculamente tentará avisar o pinguim adulto para que interrompa a missão de buscar vegetação seca pra deixar o ninho mais fofo, para que volte logo, porque o perigo está por perto. E vai ser tarde demais. Um ovo a menos.

Não sem alguns choques, mas certamente também com um punhado de beleza, você terá presenciado a natureza na sua essência. Lendo assim, pode parecer bobo, mas é revigorante — a ponto de ser difícil encontrar palavras que descrevam.

No post em que detalhamos o nosso roteiro de 7 dias pelas Malvinas, fica claro que uma viagem para lá exige um tempo para ser organizada, além de planejamento financeiro — uma vez que não está na lista dos destinos mais baratos (uma viagem de 7 dias para lá pode custar até 2 mil libras por pessoa). O que se pode afirmar com certeza é que cada centavo de libra valerá a pena. As Falkland não são apenas ideais para as férias de quem vê graça em admirar a vida selvagem, mas também para todos os que precisam dar um tempo da cidade, do barulho dos grandes centros e, por que não, do mundo virtual.

Não há exagero em dizer que as Malvinas são um local de reencontro pessoal, onde se pode apreciar as pequenas belezas da vida e se permitir um verdadeiro mergulho no silêncio. É daqueles destinos de tranquilidade e paz, como são poucos os lugares no mundo.

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* A editora viajou à convite da Embaixada Britânica no Brasil