De carro na Europa: tour pelas cervejarias trapistas da Bélgica e da Holanda

Gisela Cabral 15 · fevereiro · 2018

Não perca mais nenhuma promoção!

Promoções no e-mail

Faça como 1 milhão de brasileiros. Cadastre seu email e receba as melhores promoções de passagens!

Promoções no Whatsapp

Agora você pode receber promoções direto no Zap! Escolha se quer receber todas ou só as melhores!

O mistério em torno da história, produção e da distribuição das cervejas trapistas é algo que encanta apreciadores da bebida no mundo inteiro. Morando há um bom tempo em Amsterdam, na Holanda, sempre tive vontade de viajar pelo interior do país, e da vizinha Bélgica, a fim de conhecer os locais onde são fabricadas há séculos e, claro, experimentar in loco alguns dos famosos rótulos, feitos por monges cistercienses, da ordem católica-beneditina reformada.

No último outono, portanto, depois de uns dias em Bruges, aluguei um carro e parti rumo a sete das nove cervejarias e regiões de “domínio trapista” nos dois países: Westvleteren, Chimay, Orval, Westmalle, Achel e La Trappe. Um roteiro de carro pela região norte de Flandres, Wallonia – no sul francófono – e sul holandês, repleto de paisagens naturais, emolduradas pela folhagem amarelada da época, cidades medievais, jardins e castelos, prova de que este tour vai muito além da degustação de cervejas.

Durante o passeio ainda tive a oportunidade de conhecer o interior da cervejaria Sint Bernardus, que apesar de não ser uma trapista, produziu a celebrada Westvleteren por anos a fio.

As cervejas trapistas são fabricadas por alguns mosteiros espalhados pelo mundo, inclusive em países como Áustria e Estados Unidos. Para receber o título de trapista, a cerveja deve ser produzida como atividade secundária nos mosteiros ou sob a supervisão dos monges, cujo lema de vida é a expressão beneditina Ora et Labora (“ore e trabalhe”, em português). Outra característica é que parte dos lucros com a produção deve ser destinado a serviços sociais; a holandesa La Trappe, por exemplo, fomenta projetos sociais numa região pobre de Uganda.

Isso explica o fato de várias delas não aumentarem a produção e exportarem suas cervejas mundo a fora, a exemplo de várias outras marcas conhecidas do grande público. Na verdade, a maioria das trapistas vai na contramão do negócio, optando por discrição, produção/distribuição restritas e nada de visitas ao interior das fábricas.

Ponte sobre o rio Semois, na cidade de Bouillon, na Bélgica

Entrar numa dessas fábricas, aliás, é como ganhar um verdadeiro “bilhete premiado”, realmente para poucos. Felizmente, a grande maioria das cervejarias possui cafés onde não só é possível experimentar as cervejas e os queijos feitos pelos monges, como também levar esses produtos para casa. Caso deseje, você também pode visitar alguns mosteiros, mas não espere encontrar nada relacionado à cerveja produzida “na porta” ao lado, já que o foco no interior desses templos centenários é única, e exclusivamente, a vida religiosa.

Lembrete do MD: a lei belga costuma ser severa com aqueles que são pegos dirigindo sob o efeito de álcool (o limite legal é de 0.5 g/l). Uma dica para os que estiverem dirigindo é comprar os packs durante as visitas, mas deixar para degustar as cervejas em um outro momento. Fazer o tour na companhia de outras pessoas e eleger o “amigo da vez”, para conduzir o carro, também é uma excelente opção. Álcool e direção, definitivamente, não combinam!

Primeira parada: Westvleteren

Caí da cama cedo, em Bruges, e parti rumo à Abadia de Saint Sixtus, onde é produzida a Westvleteren. A marca ficou bem famosa depois de a Westvleteren 12 ter sido eleita a melhor cerveja do mundo pelo site ratebeer.com. O buxixo em torno do assunto foi tão grande, na época, que o site acabou recebendo uma reclamação monástica formal sobre aumento do interesse do público pós resultado da eleição.

Entrada do café In de Vrede, ao lado da abadia de Sint Sixtus

De Bruges até a abadia, próxima a Poperinge – que não à toa é conhecida como a terra do lúpulo – são cerca de 70 quilômetros em uma estrada excelente e bem sinalizada. Já na porta é possível informar-se sobre um pedaço importante da história do local, uma placa conta como a abadia tornou-se refúgio de aliados e não parou de fabricar a cerveja durante a Primeira Guerra Mundial.

A Sint Sixtus foi fundada em 1831, porém registros dão conta da existência de pelo menos três mosteiros anteriores na mesma localidade. A produção de cerveja foi a alternativa que os monges encontraram, na época, para criar uma receita extra; a comercialização, no entanto, só teve início em 1838.

Infelizmente, a St. Sixtus não está aberta para assuntos relativos à cerveja, mas o café In de Vrede sim. E segundo a sommelière de cervejas e empresária brasileira, Aline Araújo, com quem conversei sobre este tour, o local é sagrado para os apaixonados por cervejas. No café são servidas as três versões da Westvleteren: Westvleteren Blonde (5,8%, €3,90), Westvleteren 8 (escura 8%, €4,50) e Westvleteren 12 (escura 10.2%, €5,10), aquela que ganhou o título de melhor do mundo.

“Beber uma Westvleteren 12 direto da fonte é uma verdadeira experiência. Se ela é, de fato, a melhor do mundo eu não posso afirmar, mas a potência e o sabor dessa cerveja trapista é indiscutivelmente inesquecível”, afirmou a sommelière formada pelo Senac e professora do instituto Science of Beer.

De acordo com ela, trata-se de uma dark strong ale de coloração castanho profundo, com um linda espuma persistente. “Tem sabor potente, com aromas complexos que lembram frutas passas, baunilha, chocolate e um ‘quê’ de vinho do porto. Aveludada e licorosa, com final longo e adocicado, é uma cerveja para ser degustada lentamente”, completou.

Degustação

Durante a minha visita aproveitei para experimentar – junto às cervejas – o delicioso queijo feito pelos monges e o pâté de carne, porém no cardápio do café há opções de pratos mais substanciosos e perfeitos para uma verdadeira refeição.

Tanto o queijo quanto o pâté podem ser adquiridos na lojinha que fica próxima à porta de entrada, além disso, cada visitante pode levar para casa até dois packs com seis cervejas, cada. No dia em que estive no local, o da West 12 saía a €22,50. “Cada garrafa dessas pode custar o triplo em lojinhas espalhadas pela Bélgica e até 10 vezes mais se for vendida por algum viajante cervejeiro em terras brasileiras”, destacou a especialista Aline Araújo.

Muitos moradores da região, e de países próximos, optam por comprar a cerveja diretamente com os monges, mas para isso é preciso cadastrar a placa do carro com bastante antecedência, algo praticamente impossível de ser feito com carro alugado.

Sint Bernardus

Apenas 13 quilômetros separam a Abadia de Sint Sixtus da cervejaria Sint Bernardus, que apesar de não ser uma trapista, produziu a Westvleteren, sob licença, de 1946 a 1992. Felizmente, o local está aberto para visitação do grande público e isso acaba sendo excelente para os que, como eu, desejam matar um pouco da curiosidade.

Rótulos expostos na sala de degustações da cervejaria Sint Bernardus

A Sint Bernardus fabrica oito tipos de cerveja, entre elas a Sint Bernardus trippel, a minha preferida, e a Abt 12 que dizem ser uma cópia fiel da Westvleteren 12. Durante o tour pelos ambientes da fábrica – que fica próxima da cidade de Watou – a guia nos explicou que as cervejas são diferentes, apesar dos rumores e dos quase 50 anos de parceria com a abadia de Sint Sixtus.

O passeio pela fábrica e pela história do local – que após o fim da licença continuou produzindo as mesmas receitas, porém com outra marca – tem duração de uma hora e meia e termina na sala de degustações, onde o visitante pode experimentar alguns rótulos. O preço por pessoa, incluindo a degustação e um pack com quatro cervejas e uma taça, é de €12,50. Para marcar a visita – que acontece em inglês, francês e flamengo – é preciso fazer uma reserva por e-mail.

O único empecilho é que o local não aceita grupos com menos de 15 pessoas, por isso, caso pretenda ir sozinho ou com um número menor de acompanhantes, mencione isso no e-mail e peça para ser encaixado no grupo do dia. Bem ao lado da cervejaria há um bed & breakfast disponível para os que desejam passar a noite na região. Porém acabei reservando pelo site do MD uma hospedaria simples no centro de Watou, bem próxima a uma praça cercada de bares – que servem as cervejas da região – e restaurantes como o ‘t Hommelhof, especializado em pratos preparados com cerveja. Reservas podem ser feitas pelo website.

Filé do restaurante ‘t Hommelhof

Bières de Chimay

Após degustações em alguns bares da pequena Watou e uma noite de total descanso, peguei a estrada rumo a uma das trapistas mais famosas no meio cervejeiro: a Chimay. Em 1850 um grupo de monges da abadia de Westvleteren partiu em busca de novos rumos e estabeleceu-se na cênica região de Hainaut, onde fundaram a Abadia de Scourmont. Não demorou muito, portanto, para que os religiosos começassem a produção de seus próprios produtos trapistas: em 1862 foi lançada a primeira cerveja Chimay e, em 1876, o primeiro queijo.

A Chimay é uma das poucas trapistas que oferecem um espaço exclusivo, o Chimay Experience. Lá o visitante conhece a história da marca, experimenta as cervejas, queijos/pratos da taverna e pode adquirir produtos na lojinha. O centro de visitantes mais conhecido como Auberge de Poteaupré oferece, ainda, hospedagem para os que desejam passar a noite no local, porém é necessário fazer a reserva com certa antecedência, somente via e-mail (poteaupre@chimaygestion.be) ou telefone.

Trilha que conduz o visitante do Space Chimay até a abadia de Scourmont

A entrada no Chimay Experience custa €6.50, incluindo uma taça contendo a Chimay Dorée (4,8%), a mais leve do hall da marca e que, durante anos, só pode ser degustada por monges e funcionários do mosteiro. Eis aqui mais um motivo para os amantes da cerveja que desejam visitar o espaço: a Dorée só pode ser encontrada no Auberge de Poteaupré.

A minha dica é que você se programe para almoçar ou jantar na taverna local, cujo cardápio é uma verdadeira tentação. Para os que desejam experimentar um pouco de cada cerveja, a pedida é a quadruple dégustation (€7,50), um combo contendo quatro taças pequenas de Chimay Rouge (7%), Triple (8%), Bleue (9%) e Dorée. A seleção de tapas, incluindo o croquete feito com queijo Chimay (€9), é uma boa sugestão de petisco, mas se fome estiver grande, a pedida são pratos mais substanciosos como o Vitoulet Poteaupré (€14), uma almôndega de carne gigante, recheada com queijo Chimay.

Degustação servida no restaurante do Espaço Chimay

Outra coisa que você não deve deixar de fazer por lá é ir caminhando pelo meio da mata até a Abadia de Scormount, onde vivem os monges trapistas. A trilha em meio à natureza é curtinha (uns 10 minutos de caminhada), bem sinalizada e belíssima, ainda mais na época que estive por lá, no outono. Aberta ao público para assuntos religiosos, a abadia é um lugar de silêncio e muita contemplação; até cruzei com alguns monges durante a minha peregrinação pelo local.

Château de Chimay

Do Chimay Experience até a bela cidadezinha de Chimay são apenas nove quilômetros de distância. Essa, portanto, acaba sendo mais uma opção para os que desejam passar a noite na região e, ainda de quebra, conhecer um destino charmoso, que tem o Château de Chimay, com pelo menos mil anos de história, como principal atração.

O castelo é a casa dos príncipes de Chimay até os dias de hoje e o tour guiado com o auxílio de um Ipad, conduz o visitante pelos diversos aposentos da luxuosa construção: salas de estar decoradas com móveis de época, lustres e obras de arte, além de um teatro de 1863, inspirado no Château de Fontainebleau, na França. A entrada no castelo custa €9 (a partir dos 12 anos) e a visita – disponível em francês, inglês e flamengo – dura 1 hora e meia.

Depois de conhecer o castelo, não deixe de explorar as ruas estreitas e escadarias antigas desse belo destino medieval, além de pontos como a igreja de São Pedro e São Paulo, cuja parte mais antiga é datada do século 13. Ah, em volta do castelo encontram-se vários restaurantes e bares que servem a Chimay e vários outros rótulos belgas, trapistas e não trapistas. Vale a pena conferir!

Abbaye d’Orval (o Vale de Ouro)

Eis aqui este que, na minha opinião, é um dos mais belos mosteiros de todo o tour e apesar de não ser possível explorar o interior da cervejaria onde é produzida a Orval, posso afirmar, categoricamente, que a visita vale cada segundo.

Não seria exagero dizer que o encantamento já começa na estrada que dá acesso à abadia, 10 quilômetros de distância da cidade de Florenville, na região da Wallonia, onde passei a noite anterior. Cercado de uma natureza exuberante está o mosteiro fundado em 1070 por monges vindos da Itália. A produção de queijos começou bem mais tarde, mais precisamente em 1928, enquanto a cervejaria só foi inaugurada em 1931, com o objetivo de financiar a reconstrução do local.

A região do mosteiro Orval é belíssima

Ao adentrar os portões da Orval o visitante tem uma noção da importância deste lugar que exala história e onde, atualmente, vivem cerca de 40 monges. Depois de adquirir o meu ingresso na lojinha do local – €6, o preço para adultos – passei pela catraca que dá acesso à área interna e comecei a minha visita pelo belo jardim de plantas medicinais, em uma área com um paisagismo elaborado e de um silêncio e tranquilidade que afagam a alma.

Bem perto dali há um museu cujo antigo tonel usado para a fabricação de cerveja, na porta, indica o que será visto do lado de dentro. São objetos antigos, fotos e vídeos que contam tudo sobre o processo de produção da cerveja e do queijo Orval, desde os primórdios. Tudo disposto de maneira interessante e bem interativa.

Outro ponto alto da visita são as preservadas ruínas do primeiro mosteiro erguido na área. Estou me referindo ao que restou da igreja de Nossa Senhora, datada de 1760. O claustro também está bastante preservado, sem contar com a bela fonte Matilde, uma homenagem à condessa Matilde da Toscânia (1046-115), que deixou cair um anel na água e depois de muita procura – sem sucesso – decidiu pedir pelo objeto em oração.

Reza a lenda que ao voltar ao local, a condessa foi surpreendida por um peixe que surgiu de dentro da água com o anel na boca. Feliz com a devolução, a condessa exclamou “este é, verdadeiramente, um vale de ouro”,  foi daí que surgiu o jogo de palavras VAL d’OR (vale de ouro) com Orval.

Ruínas do primeiro mosteiro

Cerveja

Para a sommelière Aline Araújo, a Orval é a mais peculiar e ousada de todas as cervejas trapistas. “A evolução dentro da garrafa é notável, a mesma cerveja recém-saída da fábrica pode ser totalmente diferente de uma com seis meses de idade e nem de longe lembrar um exemplar devidamente armazenado após um ano”, afirmou.

O resultado, de acordo com a especialista, é um líquido de “estilo nebuloso”, chamado pelos entendidos no assunto de belgian specialty ale, “inesquecível, com acidez suave, aromas frutados e animais, lembrando uvas verdes e couro cru, todos elementos oriundos das leveduras selvagens”, adicionou, lembrando que o rótulo pode, sim, ser encontrado no Brasil.

Na lojinha situada dentro do mosteiro da Orval – onde comprei o ingresso para o tour pelas ruínas e museus – é possível adquirir até quatro caixas por pessoa. Ah, os queijos também são vendidos por lá e devo afirmar que são irresistíveis, principalmente o fromage à la bière d’Orval, que ao ser aquecido no forno exala um aroma de cerveja inebriante.

Ir até o mosteiro e conhecer de perto toda a história da produção da cerveja e dos queijos Orval, realmente, despertam o paladar. Bem próximo ao mosteiro, portanto, há um local próprio onde você vai poder experimentar tudo isso. À propósito, o café À l’Ange Gardien é o único lugar onde você vai saborear a Orval na pressão (€2,60 a taça de 25 cl), enquanto as cervejas engarrafadas custam €3, a jeune (nova), e €3,60, a Vieil Orval (de um ano).

O que fazer por perto…

A região de Ardennes, no sudeste da Bélgica, é um verdadeiro cartão postal repleto de áreas verdes, entre elas o Parc Naturel Régional des Ardennes, e vilas que mais parecem cenário de filme. Uma dessas cidadezinhas é Bouillon (pronuncia-se Bouión), às margens do rio Semois, onde, num cume rochoso encontra-se um dos castelos mais bonitos que tive a oportunidade de conhecer: o Château de Bouillon.

Este belo castelo fortificado, datado de 988, é um dos mais antigos e interessantes vestígios do feudalismo na Bélgica. Imortalizado por Godfrey de Bouillon (líder da primeira cruzada), a atração é um verdadeiro playground para pessoas de todas as idades com túneis, pátios onde são realizadas apresentações de falconagem, escadas estreitas que conduzem o visitante entre os vários esconderijos e terraços que oferecem uma bela vista 360° da cidade. No dia em que estive lá, parte do local estava sendo usado como locação para o filme Redbad, que será lançado neste ano (assista o trailer). A entrada no castelo custa €6.

Apelidada de “a pérola do Semois” Bouillon é uma cidade que oferece uma boa estrutura para os que desejam hospedar-se na região com hotéis, restaurantes, museus e atividades como os passeios de caiaque pelo cênico rio. Uma excelente opção, portanto, para os que estiverem com tempo disponível e queiram curtir uma cidadezinha pitoresca, receptiva e cheia de charme.

Les Jardins d’Annevoie

O tour pelas cervejarias trapistas belgas não poderia terminar sem uma visita à Westmalle, ou melhor, ao café De Trappisten, depois de ter passado a noite anterior em Rochefort: a cidade da trapista Rochefort, produzida pelos monges da abadia de Nossa Senhora de São Remy. Infelizmente, o local não está aberto para visitação e também não possui um café próprio; para degustar a Rochefort 6, a Rochefort 8 e a Rochefort 10 é preciso visitar algum bar, restaurante ou café da localidade. 

No caminho até o De Trappisten, na Antuérpia, fiz uma parada entre Namur e Dinant para respirar ar puro e conhecer os Jardins d’Annevoie, do século 18. Situados na região de Haute-Meuse, os jardins tem um total de 48 hectares onde “o esplendor do estilo francês se mistura, harmoniosamente, com o romantismo inglês e o refinamento italiano”, afirma o site da atração. Um cenário de encher os olhos composto por fontes naturais e cascatas em meio à camas de flores, majestosas árvores de 200 anos de idade e um castelo de contos de fada, cuja parte mais antiga foi erguida em 1627 (foto).

Castelo situado dentro dos jardins. Belíssimo!

Aliás, caminhar pelas vielas do local proporciona ao visitante momentos não só de contemplação, mas também de muita tranquilidade ao som do canto dos pássaros e da água que corre, naturalmente, há pelo menos 250 anos, sem o uso de recursos artificiais. A entrada nos jardins custa €8.20 (adultos) e €5.50 (crianças), lembrando aos que estiverem de carro que é cobrada uma taxa de estacionamento de €1.25.

Dos jardins d’Annevoie segui para o Trappisten, o café oficial da Westmalle, na região de Antwerpse Kempen, em uma estrada cercada de paisagens verdes e cidadezinhas que parecem verdadeiras pinturas. Programei a minha ida para a hora do almoço, pois, além das cervejas e queijos, soube que local servia uma série de pratos deliciosos, vários deles preparados com a cerveja como ingrediente. Huum!

Westmalle

A Westmalle é uma trapista produzida pelos monges da abadia de Nossa Senhora do Sagrado Coração de Westmalle, que surgiu com força no universo cervejeiro em 1848. O mosteiro fica do lado oposto ao café e pode ser visto das mesas que ficam em frente a um dos janelões de vidro; infelizmente, visitas ao interior do local não são permitidas.

No café o visitante assiste a um vídeo sobre a vida e o trabalho dos monges da abadia e também pode adquirir produtos na lojinha. Porém, a maioria das pessoas vai mesmo até lá para experimentar os queijos e as celebradas cervejas produzidas a poucos passos dali: a Westmalle Dubbel (7%), marrom-avermelhada e com um sabor rico e complexo, notas de caramelo, café e anis, e a Westmalle Tripel (9.5%) – dourada, aromas condimentados e frutados de banana e damasco. “A Westmalle Tripel é inspiração para o estilo Belgian Tripel ao redor do mundo”, acrescentou a sommelière de cervejas aline Araújo.

Aqui você confere o cardápio completo, contendo todas as delícias do Café Trappisten, entre elas a tábua de degustação com os dois rótulos da marca e queijinhos trapistas (foto). Não posso deixar de registrar, no entanto, que tanto a Dubbel quanto a Tripel são bem fáceis de serem encontradas em bares, cafés e restaurantes por toda a Bélgica e Holanda. Sorte a nossa!

Trapistas holandesas

Era impossível encerrar este tour sem dar uma passadinha pela La Trappe, em Tilburg, no sul dos Países Baixos. A cidade da província de Noord Brabant fica a pouco mais de 120 km da estação central de trens de Amsterdam e ir até lá, de trem e ônibus, é bem fácil (planeje aqui a sua viagem). A não ser que de lá você faça como eu, estenda a sua visita até a Achelse Kluis, onde é produzida a cerveja trapista Achel.

Quer saber mais sobre Amsterdam? Clica aqui no nosso guia!

A cerveja La Trappe começou a ser produzida em 1884 pelos monges da abadia Onze Lieve Vrouw of Koningshoeven e o objetivo principal, na época, era arrecadar dinheiro para sustento próprio e alguns projetos de caridade. Atualmente, a La Trappe ajuda a custear programas sociais numa comunidade pobre de Uganda e também oferece oportunidades de trabalho para pessoas com problemas de saúde mental.

Nove ales trapistas são produzidas na fábrica da abadia, que faz questão de utilizar produtos naturais e matéria-prima local durante todo o processo. La Trappe blonde (6,5%), dubbel (7%), Isid’or (7,5%) e a quadrupel (10%) são algumas delas. Quando estive no local, no finalzinho do outono, tive a oportunidade de experimentar a sazonal bockbier (7%), a única trapista do tipo no mundo. Uma cerveja perfeita para o friozinho da época, com coloração vermelha profunda, sabor rico e aroma maltado. Deliciosa!

La Trappe servida no café da cervejaria

No entanto, o rótulo preferido da sommelière de cervejas Aline Araújo é o Isid’or, devido ao sabor equilibrado e história que há por trás: uma homenagem aos 125 anos da marca e ao monge Isidorus Laaber, o primeiro mestre cervejeiro, responsável por elaborar as primeiras receitas e comercializá-las. 

“Com 7,5% de álcool, a Isid’or é uma Belgian Pale Ale de coloração castanho claro com aromas herbais, florais, frutados e de caramelo, aspectos que se repetem gloriosamente no sabor. Uma curiosidade é a utilização do lúpulo Perle, cultivado pelo próprio mosteiro. Complexa e simples ao mesmo tempo, com excelente carbonatação e amargor presente, torna-se agradavelmente fácil de beber e muito versátil do ponto de vista gastronômico”, explicou ela.

Tour

A boa notícia é que a La Trappe oferece tours muito legais pelo interior da fábrica, além de um café onde é possível experimentar as cervejas, petiscos como os queijos fabricados com produtos orgânicos e pães feitos pelos monges. Não posso deixar de mencionar, ainda, os deliciosos pratos da gastronomia local que são servidos no estabelecimento, vários deles preparados com as cervejas da casa como ingrediente. Já a lojinha da La Trappe está repleta de produtos feitos na abadia e por pequenos produtores/comerciantes da região como saborosas compotas e trufas de chocolate com cerveja.  

Guia serve visitante na parte final do tour da La Trappe/fotos: Rafael Dantas

As visitas guiadas pela fábrica e domínios da abadia acontecem diariamente, em holandês e em inglês, incluindo degustações. O tour mais simples, com duração de 1 hora e meia, custa €12 por pessoa e inclui uma taça de cerveja. O de €19,50 tem duração de três horas e permite que o visitante deguste até quatro tipos de cervejas, já a visita mais completa também dura três horas e inclui a degustação de quatro tipos de La Trappe e snacks, pelo valor de €29,50. Para reservar dia, horário e adquirir o seu tíquete, clique aqui.

Achelse Kluis

Mais ou menos 50 quilômetros separam a La Trappe da Achel, a trapista belga que faltava na lista de visitas e que fica exatamente na fronteira entre os dois países (veja foto). Tudo começou em 1846 quando 27 monges da abadia de Westmalle decidiram que o terreno escondido entre campos e florestas, próximo à cidade de Achel (Limburg), seria o local perfeito para a construção de um mosteiro.

A produção de cervejas na Achelse Kluis começou anos mais tarde, em 1852; o start para a produção dos dois rótulos que experimentei in loco durante a minha visita: o Achel 8 blonde (8%) e o Achel 8 bruin (8%), criações que contaram com a expertise do irmão beneditino e mestre cervejeiro, Antoine, da abadia de Rochefort.

Segundo os especialistas belgas do site beertourism, a blond tem um paladar doce, maltado e que lembra um pouco o sabor do pão, “complementada por toques doces e frutados de pera e banana”. Já a dubbel bruin tem “aromas surpreendentemente frutados de pera, banana, passas e ameixa”. Ambas deliciosas, na minha opinião!

Região da Achelse Kluis emoldurada pela folhagem de outono/foto: Rafael Dantas

Embora não sejam permitidas visitas do grande público – pelo menos não para assuntos relativos à cerveja – é possível dar uma espiada no interior da fábrica através do janelão de vidro que fica na taverna do local. Lá são vendidas as duas versões da Achel na pressão, a taça custa €2,80, enquanto a garrafa sai a €3,30. Já o pack contendo seis garrafas é vendido por lá a €9,25, felizmente o visitante pode levar “para casa” quantos desejar.

A visita à Achel foi bem rápida. De fato, no local há pouco a se ver, a não ser que você queira conhecer o mosteiro por motivos religiosos. No caminho de volta para casa, e com o porta malas do carro abarrotado de novas aquisições (algumas garrafas da La Trappe envelhecida no barril de carvalho e uns packs da Achel 8 bruin), aproveitei para curtir as paisagens finais, relembrando o meu tour pelo mundo fabuloso e silencioso das cervejarias monásticas, mesmo sem ter entrado em várias delas. Uma viagem cheia de história, belos cenários e muitos sabores. Valeu cada segundo!

Autor

Gisela Cabral - Editora de Destinos Jornalista brasileira vivendo uma grande aventura na terra dos queijos, moinhos e tamancos!